Faltam 14 dias para terminar o período de apresentação de candidaturas às eleições dos órgãos sociais do Futebol Clube do Porto. Onde param os (outros) candidatos?
Após treze mandatos consecutivos, Jorge Nuno Pinto da Costa prepara-se para, mais uma vez, concorrer sozinho à presidência do meu clube. Porquê?
Tem feito um trabalho assim tão notável que dispense a existência de alternativas?
Seremos por esta altura um clube sem outros adeptos com capacidade para liderar o clube com competência e seriedade?
Estaremos por esta altura reduzidos a um clube onde
putativos candidatos aguardam
cobarde e
dolosamente na
sombra, sem se preocupar realmente com o bem-estar do clube, mas apenas com as suas possibilidades de sucederem a Pinto da Costa quando este deixar de concorrer?
Não acredito. E a avaliar pela recente sondagem aqui feita, os adeptos também não. Aliás, o que a maioria dos votantes pede é o
aparecimento de gente nova, de fora do círculo habitual. Renovação.
A pergunta "
Quem gostaria de ver como candidato à presidência do FC Porto?" teve como respostas o que a imagem documenta (clicar para ver melhor). O meu grande destaque vai para os extremos: a mais e a menos votadas. A amostra é pequena, mas tirem as vossas conclusões.
Ninguém (portista) quer o caos. Ninguém. Só um irresponsável poderia preferir um clube desgovernado ou ingovernável a uma má liderança. Mas entre as duas coisas há alternativas. Tem que haver.
Por muito que três décadas de liderança incontestada tenham criado em todos nós uma sensação de cristalização, a realidade é que tudo muda, tudo passa, tudo tem o seu fim. Tudo e todos. Não vou, de novo, ser exaustivo na valorização da imensa obra que Pinto da Costa fez no clube, porque já o fiz muitas vezes. Para ser claro, Pinto da Costa praticamente refundou o FC Porto. Com a sua liderança atingimos o domínio absoluto nacional e uma projecção universal, ambos conquistados pela competência e tenacidade do líder e dos muitos que o acompanharam ao longo dos anos nos mais variados projectos. Merece uma estátua do tamanho do Cristo-Rei, ver o estádio nomeado com o seu e outras homenagens mais. Merece, sim senhor, serei o primeiro a subscrever tais iniciativas.
Mas toda essa obra justifica que possa agora delapidá-la? A obra pertence-lhe? Obviamente que não. Foi o arquitecto, o engenheiro e o mestre-de-obras, mas a obra é património do clube, é nossa.
Cabe-nos a nós, associados portistas, preservá-la e fazê-la crescer. Protege-la de toda e qualquer ameaça, venha ela de onde vier, mesmo se de quem tanto fez para a construir.
Este 13º mandato de Pinto da Costa é que deveria ir a votos, não o somatório dos doze anteriores, porque esses, cada um deles, deveria ter sido validado em cada uma das respectivas eleições passadas. Não quero sugerir que se ignore que existiram, mas apenas que se avalie o que deve ser avaliado: o último mandato.
E a minha avaliação é claramente negativa. Demasiado negativa, acrescentaria. Suficientemente negativa para que sinta a necessidade de ter outras propostas eleitorais para avaliar e depois decidir em consciência.
A 12ª recondução confirmou-se em finais de Maio de 2013, o que significa que em avaliação estão as três últimas épocas desportivas: 2013/14, 2014/15 e 2015/16.
Reconhecendo o futebol sénior como o principal objecto do clube, detalhemos sucintamente.
2013/14
- 3º classificado na Liga (a 6 pontos do Sporting e a 13 do Benfica)
- Taça de Portugal: eliminado na meia-final (a duas mãos) pelo Benfica
- Taça da Liga: eliminado na meia-final (em casa) pelo Benfica
- Vencedor da Supertaça (vs. V. Guimarães)
- Liga dos Campeões: terceiros na fase de grupos com 6 pontos
- Liga Europa: eliminados nos quartos pelo Sevilha
Resumo: 1 supertaça e 2 treinadores (Paulo Fonseca e Luís Castro)
2014/15
- 2º classificado na Liga (a 3 pontos do Benfica)
- Taça de Portugal: eliminado na 3ª eliminatória (em casa) pelo Sporting
- Taça da Liga: eliminado na meia-final (fora) pelo Marítimo
- Supertaça: não classificado
- Liga dos Campeões: eliminados nos quartos pelo Bayern
Resumo: zero títulos e 1 treinador (Lopetegui)
2015/16
- Liga: ainda a decorrer (neste momento em 3º, a 3 pontos do Benfica e a 4 do Sporting)
- Taça de Portugal: ainda a decorrer (apurados para a final)
- Taça da Liga: eliminado na fase de grupos
- Supertaça: não classificado
- Liga dos Campeões: terceiros na fase de grupos com 10 pontos
- Liga Europa: eliminados nos 16-avos pelo Borussia Dortmund
Resumo: em aberto a possibilidade de conquistar a Liga e a Taça de Portugal, apenas uma delas ou nenhuma e 2 treinadores (Lopetegui e José Peseiro).
Portanto, demasiado pobre, concluo eu. Sobretudo porque indicia, mais do que uma excepção, uma tendência.
Se quisermos ser generosos, podemos incluir o magnífico Museu FC Porto by BMG como obra deste mandato (inaugurado a 28 de Setembro de 2013), mas em rigor toda a sua projecção foi feita no mandato anterior. Mas seja, fica como o grande marco positivo do 13º mandato. E mais? Que mais de positivo podemos destacar? O andebol, sem dúvida. E mais? A recuperação do basket? Talvez, desde que nos lembremos que foi a mesma direcção que o "extinguiu". O fim do ciclo vitorioso no hóquei? A não abertura do futsal?
Sem mais atenuantes à vista (e havendo, agradeço que faça o caro leitor a justiça de as apontar), consideremos ainda as agravantes extra-resultados:
1) A trajectória desportiva
A travessia de deserto iniciada com Paulo Fonseca não se começou a desenhar nesse momento. É indesmentível que foi a má opção de o contratar que mais determinou o seu próprio insucesso, mas convém não esquecer que o plantel que teve à disposição terá sido dos mais fracos deste século.
Mas recuemos ao pós-Dublin, para não ir mais longe - se quiséssemos, era fácil recuar ainda mais, até ao triénio sem campeonatos precisamente no virar do século, por obra e graça do insonso engenheiro do penta (secundado pelo agora tão exigente Rodolfo Reis) e do paupérrimo Octávio Machado. Surgiu Mourinho, um conjunto extraordinário de jogadores e as duas conquistas internacionais que ainda hoje de tanto orgulho nos enchem. E depois disso? Sete títulos de campeão nacional em onze possíveis. E pelo meio, nova conquista europeia com AVB. Excelente, dirá qualquer um. E, de facto, é muito bom.
O problema é o que com a saída de AVB terá emergido uma nova tendência (ou simplesmente retomada, segundo os mais pessimistas) que sugere a decadência da gestão desportiva: plantéis sucessivamente mais fracos, más escolhas de treinadores e apostas insustentáveis de "fuga para a frente", como aconteceu na época anterior a esta. Algo que nem a tão desejada conquista deste campeonato poderá voltar a tapar.
2) A incapacidade de combater o #colinho
Na verdade, não sei se se trata de incapacidade, falta de vontade ou impossibilidade de o fazer. Mas sinceramente não me interessa. Interessa-me, sim, o que ressalta à vista de todos: o actual e quase absoluto domínio do Benfica das instâncias desportivas, desde a arbitragem à justiça desportiva. Se o presidente está de alguma forma condicionado pelas investigações a que foi sujeito no Apito Limitado, pois então deveria ter encontrado alguém que o pudesse fazer por ele. E se não está, bom, então será mesmo incapacidade. E avisos não faltaram.
3) A evolução da situação económico-financeira
O admirável mundo (de novo-riquismo) que se abriu após a conquista da Champions em 2004 levou a que se apostasse em definitivo num modelo de gestão altamente alavancado e portanto, de
alto risco, em que todos os exercícios se baseiam em receitas "extraordinárias" para que acabem equilibrados. Passou a ser essencial uma boa prestação europeia que permita valorizar os activos (jogadores) ao ponto de possibilitara encaixar
mais-valias sucessivas com os melhores de cada plantel.
Mas até este modelo foi sofrendo alterações significativas, com a compra de jogadores cada vez mais caros, oferecendo-lhes salários cada vez mais elevados e, mais recentemente, reduzindo as participações do clube nos direitos económicos dos jogadores. Tudo no sentido de aumento do risco. Ao ponto de a situação presente ser perto de explosiva, como tão bem o
Tribunal do Dragão explicou
neste artigo. É demasiado risco para tão pouco proveito. Gestão imprudente, no mínimo.
4) O clientelismo e a falta de transparência
Este ponto é uma lástima, dá-me voltas ao estômago ter que o reconhecer. Mas é preciso fazê-lo. É por demais evidente e está plasmado nos sucessivos R&Cs, para quem os quiser aprofundar.
Vou-me focar apenas em Alexandre Pinto da Costa, que não sendo o único, será o mais paradigmático. Não sei nem quero saber se tem outras fontes de rendimentos, mas o que é factual é que só aquilo que o clube lhe tem dado a ganhar permite a qualquer pessoa viver muitíssimo bem. Como é evidente, não é o facto de ser filho do presidente que está em causa (embora apenas essa condição os obrigasse a serem absolutamente transparentes em todos os negócios, para que não suscitassem dúvidas a ninguém). O que está em causa é o valor que a pessoa acrescentou em todos esses negócios pelos quais recebeu comissões do clube. De novo, cinjo-me ao exemplo mais emblemático: €500.000 foi quanto terá recebido pelo regresso de Quaresma ao clube. Sendo o jogador livre naquela altura, o que poderá Alexandre ter feito para justificar tão avultado pagamento?
Dentro e fora do clube, criaram-se muitos vícios ao longo dos anos e a sensação que hoje tenho é a de que muita gente lá dentro se julga inimputável ou, pelo menos, acima de qualquer escrutínio ou auditoria independente. E isso não é aceitável.
5) O crescente distanciamento dos adeptos
É raro o associado portista que não se queixe. Desde os mais fiéis, que vão ao estádio jogo sim, jogo sim, aos que apenas visitam o Dragão quando podem. O clube que outrora os cativou e os fez parte da família através daqueles valores que julgávamos garantidos, hoje trata-os como meros clientes, espartilha-os pela justa medida das suas bolsas e recusa-se a tratá-los como aquilo que são: os verdadeiros donos do clube.
Não será um fenómeno exclusivo do Porto nem tão pouco fácil de deslindar. Houve a obrigatória modernização, a consequente empresarialização do clube e contratação de profissionais. Tudo factores que sugerem distanciamento e perda de identidade. No entanto, um clube nunca poderá ser igual a uma qualquer empresa, porque há um lado emocional, afectivo que se sobreporá sempre à gestão impessoal; no mínimo, terão de coabitar pacificamente.
E nestas coisas o exemplo vem sempre de cima. Se o pessoal que atende os telefones é pouco simpático, se quem nos atende cara-a-cara é pouco compreensivo, se quem nos tenta vender uma camisola (ou nem isso) pouco percebe sobre o emblema que leva agarrado, não é apenas por deficiente formação ou má política de recrutamento. É porque esses tais valores portistas não são os 10 mandamentos com que todo e qualquer funcionário se depara desde o seu primeiro dia de trabalho, porque se não os souber ou simplesmente os ignorar, não há outros que o chamem à atenção e o ensinem a bem ou a mal. Falta sim, cultura de tratar os portistas como aquilo que realmente são: uma segunda família. Mas como, se no topo o que é mais visível é a própria família de quem comanda?
Com tudo isto somado e avaliado, a minha posição é simples. O clube precisa urgentemente de novo(s) projecto(s) de liderança. E por urgência refiro-me a estas próximas eleições. Não sei se os apoiarei ou não, caso apareçam, tudo dependerá do que trouxerem para cima da mesa. Mas o que não deixarei de fazer é de as estudar e comparar, dando eco posterior da minha análise. E mesmo que não me identifique com elas, alguns méritos ninguém lhes poderá retirar: o de suscitar o debate, o de demonstrar que há outras vias e o de por em sentido a actual direcção.
Termino portanto lançando um repto e um aviso a todos os putativos candidatos.
Senhores Joaquim Oliveira, Vítor Baía, Fernando Gomes e outros ainda por se revelarem,
Se de facto têm como objectivo vir a liderar o Futebol Clube do Porto, o momento de se apresentarem é agora. Agora. Mais do que nunca, o clube precisa de despertar deste unanimismo que nos deformou e tolheu a veia democrática passadas mais de três décadas. O clube precisa de se renovar e tal só será possível com o surgimento de novas ideias e novas propostas.
Se de facto o objectivo de ser presidente tem como pressuposto principal servir o clube, a apresentação de uma candidatura a estas eleições é um dever. Certamente reconhecem a trajectória pouco auspiciosa em que o clube se encontra, pelo que ficar confortavelmente recolhido na sombra ou no conforto dos comentários será um comportamento inaceitável e revelador de que o engrandecimento do clube não é a prioridade maior.
Por isso, apelo-vos: apresentem-se a eleições. Agora. O tempo urge mas ainda permite que o façam com rigor e credibilidade.
Enquanto portista, associado e accionista, se não o fizerem estarão a defraudar-me em relação às vossas putativas intenções. Pelo que, se e quando decidirem finalmente avançar, num futuro mais ou menos longínquo, cá estarei para os renegar, justificando-o a todos quantos me queiram ouvir.
Ser Portista não é ter um cargo, é uma condição, uma forma de encarar o mundo. Ou se é, ou não se é.
Faltam 14 dias para terminar o período de apresentação de candidaturas às eleições dos órgãos sociais do Futebol Clube do Porto. Onde param os (outros) candidatos?
Do Porto com Amor