"Palavras Proibidas: Doyen, Xaninho, EuroAntas."
Terá sido este o recado entregue por um solícito membro da comissão de recandidatura ao bom do Juca Magalhães. Ou então foi apenas coincidência, ou impreparação do entrevistador, mas bem que poderia ter sido.
Porque qualquer uma delas colocaria o presidente Pinto da Costa numa posição, mais do que incómoda, quase indefensável. E como ninguém quer um presidente (ainda mais) enfraquecido logo no arranque do novo mandato, ficaram e bem por dizer. No entanto, muito foi dito. Vamos lá à análise, com a ajuda de Sergio Leone.
O Bom
Candidatura para o futuro. Na linha do que tenho defendido, o presidente afirmou alto e em bom tom que não quer ser eleito pelo que já fez mas sim pelo que se propõe fazer no novo mandato. Mesmo sem sabermos muito bem o quê, sabemos pelo menos que reconhece que "batemos no fundo", "que as coisas estão mal" e que "é preciso voltar a por as coisas como eram" e que se sente com capacidade para dar a volta já na próxima época, feita que está "a radiografia" para que se possa "corrigir o que está mal" e "não voltar a cometer os mesmos erros".
Assumir finalmente a paternidade de um erro chamado Lopetegui. Foi bom, mas ficou curto, como veremos mais abaixo.
O presidente-adepto. Que por um lado, "se junta ao coro de protestos" e por outro, "aceita e compreende" esses protestos. Conseguiu reaproximar-se das pessoas com este discurso. E isso é importante para o clube.
O discurso para o balneário, colocando um ponto final imaginário nesta época e desafiando os jogadores a provarem que merecem cá continuar nos seis jogos que faltam. E treinador também, deduzo. Pelo caminho, renegando todos os que cá chegam já a pensar noutros voos. Excelente, se for levado à prática. Frases fortes:
"Queremos equipas com qualidade e carácter."
"Para o ano vamos ter uma
equipa a jogar à Porto."
"All-in" para o Jamor. Ficou bem claro que não admite outro cenário que não seja ganhar a Taça (e na minha opinião, é condição necessária para a continuidade de Peseiro - mas talvez não seja suficiente). Evidentemente mesmo que já tenha na sua cabeça a dispensa do treinador, não o poderia dizer. Não sem ter o próximo contratado e claro, sem antes ter disso avisado o actual. Eu já o disse e reafirmo, para mim não tem what it takes para ser treinador do Porto.
Reforço da mensagem na aposta "a sério" na formação, alicerçada no projecto do novo Centro de Treino. No imediato, os regressos de Rafa e Octávio na próxima época. Já sobre Josué, tenho sérias dúvidas. E ainda sem sair da Académica, então e o Gonçalo e o Leandro? E da equipa B, sobe alguém? Para esclarecer mais adiante.
Provedor do Adepto. Sendo a minha uma das muitas vozes que, por várias vezes, se insurgiram contra o tratamento frio e distante a que todos temos sido vetados enquanto sócios, só poderia ter ficado contente com o reconhecimento deste problema e pelo desenho de uma "solução" para o resolver. Não espero que este provedor faça magia de um dia para o outro, conforme já referi é sobretudo um problema de "cultura clubística" (ou da sua falta; e que se transmite de cima para baixo), mas pode ser um primeiro passo nesse sentido. Esperemos que a pessoa escolhida tenha sensibilidade para a coisa e real acesso às esferas de decisão.
O Mau
Comissões: a pior parte da entrevista, felizmente foi logo a primeira. Nada do muito que disse sobre o assunto me convenceu. Atribuiu o sucesso das contratações de Layún e Corona às comissões pagas (elevadas, infere-se do raciocínio), porque caso contrário não seria possível levar a melhor sobre "clubes ingleses que recebem 10x mais de direitos televisivos". Como assim, presidente? É a comissão que se paga aos intermediários que faz com que estes desistam de melhores condições oferecidas noutras paragens aos seus representados? Não bate certo. E na questão Rúben Neves então, enfim, "os pés pelas mãos". Decisivo só mesmo o que ficou por dizer.
Indisponível para enfrentar o #colinho. Questionado quanto a uma postura pouco interventiva, a resposta que saiu espontanea foi "não sei o que quer dizer", para de seguida discordar, justificando com o facto de o clube ter um vice-presidente na direcção da Liga... Ainda preso pelas algemas do infame Apito Encarnado? Se sim, (outro) alguém tem que dar a voz e a cara pelo clube. Se não... não sei.
Não assumir o erro Lopetegui na sua plenitude. Faltou referir-se (ou melhor, faltou a pergunta) aos motivos que o levaram a renovar a aposta após o fracasso que foi a primeira temporada. E faltou também explicar por que motivo não o segurou até final desta, sobretudo considerando que não havia ninguém interessante pronto para o substituir. E já agora, como se chegou a este ponto, em que muitos treinadores, até mesmo com pouco curriculum, desdenham vir para o Porto.
As "Palavras Proibidas". Pode ter sido importante para evitar um desgaste maior da imagem do presidente, mas o preço a pagar é continuarem a latejar nas veias dos portistas durante muito tempo, com o rótulo "culpado" bem à vista.
- "EuroAntas": a fórmula milagrosa para o aumento de capitais próprios e do activo no exercício passado. Referi-los sem explicar como foi feito e do que se abdicou por isso, é no mínimo pouco sério. Ou então percebi mal. Mas se não percebi, estamos a falar da incorporação do Estádio na SAD. Ou seja, é apenas e só um artifício (ou "ferramentas", segundo a versão do R&C) para adiar por mais uns tempos ficarmos sujeitos às penalizações introduzidas pelo Fair-Play Financeiro (F-PF) da UEFA. Necessário, conforme se deduz. Mas que significa que em última análise o Estádio deixou de estar directamente na esfera do Grupo FC Porto, passando a pertencer à SAD. No limite, se esta falir e fechar portas, bye bye estádio. Pouco provável? Talvez, mas possível.
- "Doyen": para mim teria sido fundamental ouvir o presidente explicar com algum detalhe o tipo de relação que o clube (através da SAD) tem com estes "mecenas" do futebol moderno. Ok, talvez agiotas seja mais apropriado. Seja como for, assuntos como o scouting, os financiamentos (empréstimos) e o catálogo carecem de esclarecimento, para que todos possam perceber da bonomia ou da necessidade imperiosa da sua existência.
- "
Xaninho": já abordado
aqui.
O Vilão
Lopetegui: a raíz de todos os males, fazendo fé no discurso do presidente. Como se não tivesse havido imediatamente antes outra aposta falhada e (também ela) incompleta. Quem me tem lido ao longo deste ano de vida, sabe bem que desde Munique rejeitei em definitivo o basco. E que fiquei desolado com a notícia da sua continuidade para nova temporada. Mas sabe também que defendi que, feita essa opção, deveria ter continuado até final desta época, para se poder avaliar em definitivo todos os seus "méritos" ou a falta deles.
Não aceito que agora impute todas as culpas ao treinador, exceptuando a sua por "ter confiado nele". Quem dirige o clube, quem foi eleito pelos sócios, é que tem a última palavra. Nas contratações e em tudo o resto. É que, infelizmente, os nossos problemas são muito maiores do que os flops Adrián Lopez e Campaña.
Sem grande interesse, assistimos à continuação da sua querela pessoal com Fernando Gomes (presidente da federação), a apresentação da lista para o próximo mandato (excepto provedor), os louros do negócio MEO e a desvalorização dos "blogues sem rosto". Fico feliz em saber que houve franca evolução desde a entrevista anterior e que o presidente já começou a reparar nos blogues "que lhe mostram de vez em quando". Ainda há esperança, portanto.
Em jeito de conclusão, não foi mau. Considerando o contexto, não foi mau. Hesitações (comissões) e "confusões" (contas) à parte, conseguiu projectar pujança e determinação. Mostrou-se confiante em dar a volta já no próximo ano e com isso devolveu alguma confiança aos portistas e terá acalmado os ânimos rumo ao acto eleitoral. Várias questões continuarão pendentes, mas se voltarmos a ganhar de imediato, muitas regressarão para segundo plano.
Está dito, agora faça-se.
Como nota final, não posso deixar de qualificar como uma canalhice os petardos e as tarjas, acrescentando que também eu tenho sérias dúvidas quanto à sua real origem.
Do Porto com Amor