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segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Fogo e as Cinzas



Sábado foi um daqueles dias por que um homem casado e abençoado com descendência vive e antecipa em silenciosa ansiedade - porque são a excepção, evidentemente. Futebolada com a malta de sempre ao final da tarde, para fazer de conta que ainda somos solteiros e maus rapazes (reforço o "rapazes" no meio de tudo o mais), seguida de um jantar com os mesmos companheiros.

Já de regresso ao balneário após a contenda, chega a notícia inesperada: somos campeões em Hóquei, contra todas as inclinadas probabilidades de que foi feita a recta final da temporada. Um sorriso, daqueles que ficam gravados na aura, muito para lá do momento.

Passagem breve por casa para afinar a indumentária e reunião com a malta para jantar. Para ser mais preciso, com a parte que sobrou entre lesionados, atarefados ou simplesmente rendidos a hora e meia de uma já despropositadamente intensa actividade física. Despropositada? Qual quê? É até que as pernas deixem de obedecer!

Fruto desse despropósito, muitíssimo acentuado pela inusitada temperatura que se fez sentir, o pós-jantar foi mais curto do que o habitual. Deu-se na esplanada do bom tasco onde repusemos as calorias perdidas no jogo. Em triplo, para não arriscar fraquezas no dia seguinte. Boa comida, boa bebida, boa conversa. Tudo entrelaçado e ao ritmo de cada um. A fresca aragem ribeirinha corria suave, justa dádiva após tão grande provação, como que nos preparando, com gentileza, para o merecido descanso que se seguiria em breve. Chegado a casa, vale de lençóis foi o destino quase imediato. Antes, um rápido zapping pelos canais de bola e notícias. Olha, já começam os incêndios. É sempre a mesma merd@. Amanhã logo vejo quantos hectares foram, por hoje está feito. Boa noite.



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Nem por sombras.





Hoje, terça-feira, que sei - como sabemos todos - da dimensão da tragédia que se abateu sobre Pedrógão Grande e arredores, não consigo deixar de remoer em várias coisas, uma atrás da outra, sem ordem nem duração especificas.


Os filmes mudos que se formam e reformam na minha mente, ao ver e rever as fotografias e filmagens daquela estrada negra devorada pelas chamas. Os carros, senhores, os carros. O horror indescritível que o seu posicionamento indicia, somado às cruas explicações de quem sabe, com alguma certeza, o que se terá passado. Empalideço.


O bombeiro. Os bombeiros. Esforçando-me para ser propositadamente cruel e invejoso, sou capaz de pensar que "à primeira", muitos vão para se relacionarem, para evitar o tédio, para beber uns canecos, pela adrenalina pura e todos os demais motivos sem nobreza que possam conceber. Mas à segunda, à terceira, à centésima, ano após ano? Não. Só pode tratar-se de uma estirpe especial de seres humanos, muitas vezes também designados por heróis, grandes ou pequenos, mas heróis, todos eles. A minha admiração e gratidão a todos eles, amplificadas pela minha incompreensão da sua matriz. E o meu grave pesar pelos que morreram neste cenário dantesco. Arrepio-me.


Aquele testemunho do homem que perdeu mulher e filhas adolescentes, porque seguiam noutro carro, enquanto ele procurava salvar (e conseguiu) outros familiares. Seguiam em fila, mas perderam-se no fumo e no fogo. Está em choque profundo, possivelmente ainda em negação, só assim se explica a aparente compostura com que relata os acontecimentos. Para ele, a tragédia não aconteceu no sábado enquanto eu me divertia, ria e jantava com amigos. Para ele, a tragédia será um círculo interminável de perguntas sem respostas, de "ses" e "mas", de arrependimento e consolo e de eterno desespero. O verdadeiro inferno, imagino. Dilacero-me.


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O que teria aquela família feito no dia anterior? Terão jantado juntos, em família? Ou com amigos? Ou separados, cada um feliz com a sua escolha? Ou simplesmente passaram por mais um dia, perdido no meio de tantos outros? E o bombeiro que não se importou de não se salvar porque havia outros para salvar? E todos os outros, cada um dos que morreram?

Estavam vivos e a viver. Descontraídos e tensos como todos nós, agarrados à tantas vezes falsa esperança de uma vida longa, ainda com muito tempo para fazer muita coisa. E nesses mesmos momentos de normalidade, vinte e quatro horas antes do seu fim, quantos outros seres humanos perderam a vida de forma macabra ou corriqueira mas sempre inesperada? É a crueldade da Vida, feita impiedosamente de inícios e finais. Inícios previstos ou previsíveis, finais sem pré-aviso. Pó.

Não me atrevo a concluir nada, para não banalizar o que não pode ser banalizado. Foram sessenta e quatro vidas que acabaram de forma inesperada neste incidente. No entanto, não sou capaz de conter a pergunta: não há responsáveis?



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco