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quarta-feira, 25 de maio de 2022

Sir Sérgio Conceição


Finda que está a época 2021/22, com sucesso quase-absoluto do Futebol Clube do Porto no plano nacional, é, pois, tempo de revisitar o trilho percorrido pelo maior obreiro deste feito: o treinador Sérgio Conceição.

 


 

Uma época onde, a meio, se viu privado do melhor jogador (de longe) que até então actuava em Portugal, e que de certa forma tinha carregado a equipa às costas nos primeiros meses da temporada, oferecendo assim tempo e espaço para que a equipa e jogadores como Vitinha e Fábio se fossem desenvolvendo e habituando ao padrão de exigência mais elevado das suas curtas carreiras. Perder Luís Diaz foi um golpe tremendo para o treinador, não apenas a nível da ambição europeia como agora se faz crer, mas de todos os objectivos que tinha para cumprir, sobretudo o primordial, o campeonato.

Sérgio protestou (e bem) mas continuou a trabalhar. E conseguiu, de forma até algo surpreendente, que os que ficaram se ligassem ainda mais entre si, mostrando verdadeiramente que a força de um bom colectivo é o melhor remédio para suprir a partida do seu maior craque. Mérito absoluto aos jogadores, pois claro, mas também ao maestro (e seus ajudantes) que lhes deu as partituras adequadas e os ajudou a aprender a tocar em conjunto.

Nem tudo foram prestações melodiosas, houve - como sempre há - interpretações menos afinadas que até nos poderiam ter custado pontos importantes em momentos decisivos da época, mas, no final, qualidade, trabalho e alguma fortuna foi quanto baste para nos devolver a felicidade suprema, coroada com a sensação de já algum enfartamento de glória com a dobradinha assegurada este domingo. E assim também Diaz se tornou campeão de Portugal e vencedor da Taça.

 


 

Muito do que quero expressar neste momento sobre Conceição, já o disse no final de época do ano pandémico de 2020, pelo que seria perda de tempo estar a repeti-lo; antes, convido o estimado leitor a ler ou reler o que então escrevi em "Obrigado pelos Títulos, Agora Queremos Futebol" - prometo que vale a pena e que o conteúdo é bem mais simpático para treinador do que o título possa sugerir.

Prefiro então focar-me no que mudou desde então.

Em minha opinião, baseada somente na observação nas bancadas e por vezes na TV dos nossos jogos, a forma de jogar do Porto de Conceição 21/22 deu um claro passo (salto?) em frente, não só em termos de "agradabilidade" para quem assiste, como também em termos de consistência (a todos os níveis).

E relembro que me refiro a uma época onde, por exemplo, tivemos várias vezes Bruno Costa a lateral com tudo o que isso implicou de mau em termos de profundidade e capacidade de atacar por esse lado (sem nenhum desprimor ao Bruno, claro, que somente se sacrificou fazendo o que lhe foi pedido o melhor que podia). Quero com isto ilustrar o desequilíbrio em termos de posições que mais uma vez assolou o plantel e a necessidade de - mais uma vez - ir improvisando pelo caminho, sem perder o rumo.

Mesmo assim, observou-se clara evolução ao longo da época que só terminou, diria, por volta da eliminatória com o Lyon, quando me pareceu que a equipa sentiu a necessidade de se "defender" e passou a jogar mais em modo sobrevivência rumo aos títulos, do que preocupada em continuar a evoluir, mesmo que o treinador o não quisesse. Opção impossível de criticar, evidentemente.

Até esse momento, houve uma primeira fase onde o "herói" foi sendo Luis Diaz, não apenas por resolver grande parte dos problemas de construção e finalização ofensiva, mas também por com isso tirar o foco de vários outros jogadores, que assim puderam ir crescendo sem comprometer.

 


 

Com a sua saída para Liverpool, começou um novo período onde a equipa se fortaleceu nos seus movimentos colectivos, sob a batuta de Otávio, Taremi e Vitinha (sem desprimor, Pepe!) e demonstrou uma fiabilidade e consistência exibicional como ainda não se tinha visto no consulado de Conceição. Mesmo com trocas de um ou dois jogadores no onze, a equipa pouco oscilava nos seus propósitos e demonstrava a cada jornada o quão difícil seria ser destronada da liderança ou afastada da Taça.

Claro que ter jogadores mais esclarecidos e evoluídos ajudou e muito a construir esta "nova" forma de jogar, mas até porque já os tinha tido em épocas anteriores, é apenas justo reconhecer que o próprio treinador soube evoluir e limar arestas da(s) sua(s) proposta(s) de jogo.  

E até num dos seus pontos "menos fortes" me pareceu registar evolução, a capacidade de influenciar os acontecimentos a partir do banco. Foram vários, muitos os jogos onde começamos mal e foi necessário correr atrás dos pontos e prejuízos, operação quase sempre concluída com sucesso.

Em resumo, o mister fez o favor de atender ao meu pedido e, além de títulos, deu-nos também melhor futebol. Não que seja uma obra acabada (nunca é), porque ainda há muito por onde evoluir (a equipa e o treinador), mas que houve um claro salto qualitativo, ninguém pode negar. 

Espero e desejo, evidentemente, que Sérgio Conceição continue como treinador do FC Porto na próxima temporada e que volte a ser a pessoa mais decisiva na definição das contratações. Se possível, que se mantenha pelo menos até que se vire a página da presidência mais titulada de sempre. Por tudo.

 

- - -


Os parolos e os desonestos que tentam decalcar este nosso ano de conquistas com o do Sporting na época passada, falham nos "piqueninos pormenores" que fazem toda a diferença:

- O Sporting em nenhum momento se viu confrontado com arbitragens unanimemente julgadas como surripiadoras de pontos decisivos, ao contrário do que nos fizeram há um ano nos campos de Belenenses, Braga e Moreira de Cónegos, onde nos privaram de seis pontos absolutamente decisivos na definição do campeão;

- O Sporting, em momento algum demonstrou a superioridade futebolística em 20/21 que o Porto exibiu esta época, bem patente nos confrontos directos entre candidatos a títulos;

- Por fim, devo fazer justiça ao Sporting do capitão Varandas e reconhecer o mérito onde o têm, porque falta ainda ser-lhes reconhecido o inédito título que só eles detêm: o de causadores do maior surto de infecções de COVID-19 do país e de todas as implicações económicas e sociais que daí advieram.


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco


 


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Até Quando, Sérgio?

 Quase trezentos dias após o meu último texto, eis-me aqui de novo, contrariando a minha escassa racionalidade, compelido por uma mistura de obrigação moral e fraterna solidariedade. A primeira para com o meu Clube, a segunda para com Sérgio Conceição, o treinador do meu Clube.

 


 

Uma breve recapitulação

 Quem me foi lendo, no tempo em que escrevia com regularidade, recordará ainda as minhas convicções principais sobre este timoneiro do Mar Azul:

- Um grande Portista, sempre disposto a dar o peito às balas invejosas, bafientas e centralistas, sem sequer hesitar;

- Um treinador em construção, que no primeiro ano conseguiu com um saco de enjeitados apanhar todos de surpresa e ganhar o anti-penta de forma espetacular, mas que a partir daí parecia ter ficado refém dessa conquista e pouco disponível para mudar a proposta de jogo para algo mais consistente e condizente com os pergaminhos do Porto, ou seja, mais dominador e controlador e - sim, também é preciso - mais interessante de se ver ( e jogar, apostaria);

- "Variabilidade" emocional, oscilando entre a instabilidade e a euforia, com alguns episódios nada edificantes à mistura, que, em minha opinião, prejudica mais do que ajuda ao seu desempenho como treinador;

- Tudo somado e subtraído, a pessoa em quem mais confio na actualidade para manter o Clube à tona do sucesso desportivo e assim evitar a debacle total (económico-financeira) - distanciando-me de sebastianismos bacocos, a única pessoa em quem confio das que lá estão neste momento.

Curiosamente, esta época fez-me rever em alegre alta a parte da sua não-evolução: o futebol que a equipa pratica(va com Diaz) sugere um claro salto qualitativo na proposta de jogo, para lá da melhor qualidade dos intérpretes do meio-campo, obviamente. Parece que foi preciso parar de escrever para se dar a metamorfose.


The name is Diaz, Luis Diaz

 Dizia esta semana José Manuel Ribeiro, director d'O Jogo cujas reflexões opinativas muito prezo, na Visão de Jogo, que o problema do Porto ser forçado a vender o craque colombiano neste Janeiro não é de um erro cometido agora mas há anos, cuja "factura" chegou agora para ser paga. Permito-me ir mais além: é o somatório de muitas facturas, acumuladas ao longo de mais uma década (quase duas, na verdade), quase sempre empurradas para a frente com a barriga ou saldadas com fracos remendos (empréstimos obrigacionistas, por exemplo) que logo a seguir engrossariam a factura seguinte.

 Para ser justo, disse também que os três grandes portugueses têm agora um problema "quase insolúvel", que tem a ver com a folha salarial, cuja "média" tem disparado a nível internacional e que Porto, Benfica e Sporting não podem acompanhar por falta de acréscimo equivalente das receitas. É factual, reconheço, mas não se resume a isto nem é insolúvel, requer é outra abordagem. Já lá vou.

Luis Diaz seria sempre vendido, mais cedo do que tarde, dado o sua inegável qualidade. O problema é ter saído agora, a meio caminho da felicidade. Poderia até ficar já vendido agora e sair em Junho, eventualmente o melhor de dois mundos: entrava dinheiro fresco e continuava o rendimento desportivo. O que faltou para isso acontecer é simples: incapacidade negocial, pela conhecida ruína de tesouraria a que se permitiu chegar. Houvesse o mínimo para garantir cumprimento de obrigações contratuais até final da temporada e não me parece complicado fazer ver aos ingleses que ou o garantiam já para o próximo ano ou se arriscavam a ficar sem ele para sempre. Agora assim, de chapéu estendido, nada a fazer.

Quanto a uma forma distinta de gerir o futebol profissional, não há soluções milagrosas. É preciso manter a competitividade interna sem perder o equilíbrio das contas, isto é, garantindo que as receitas cobrem as despesas. Sendo claro que o "modelo das vendas para pagar custos" se esgotou por força da nova realidade, resta encontrar outros caminhos. 

Sem me querer alongar, lanço alguns bitaites avulso. Em relação à impossibilidade de renovar contratos (que a seguir permitiriam as tais vendas), há que seguir o que todos já fazem: scouting impecável, formação de nível mundial, acertar contratos com jogadores também em final de contrato noutros clubes e/ou comprar jogadores ainda baratos para o nosso nível. Tirar máximo rendimento desportivo e vender... se ainda possível. Uma máquina sempre oleada, com substitutos prontos a entrar no lugar dos que saem, a custos inferiores aos actuais. Não vejo outro caminho.

Quanto à falta de dimensão do nosso mercado futebolístico (em termos de atractividade e capacidade de gerar receitas), só há uma solução: ganhar dimensão. E isso só seria possível com a criação de uma liga ibérica, por exemplo. Mas até para isso seria necessária uma outra direção, no Porto e nos outros dois de Lisboa, que tivessem a capacidade de perceber que teriam de se juntar e fazer pressão nesse sentido, para que todo o futebol profissional português e os fat cats da Federação o fizessem também.

 

Até quando...

O que é real para o treinador, é que se vê privado do seu melhor jogador (de longe) a meio da época, cuja metade já cumprida ficará sempre marcada pela espetacular forma do colombiano. Sem ele, esta equipa será seguramente diferente e pior, dê por onde der. Podem os mais pintistas argumentar que, não tivéssemos sido eliminados pelo Atlético naquele mau jogo a fechar a fase de grupos, Diaz ficaria até final da temporada - o que até poderia ser verdade (com reticências), mas não desmente nada do que até aqui escrevi. Aliás, acrescento e resumo: a venda precoce de Luis Diaz é da responsabilidade exclusiva da gestão danosa da SAD de Pinto da Costa e nunca um treinador poderá ser culpabilizado de uma venda pelo resultado negativo de um jogo.

"Até quando" é a dúvida que me assalta a cada passo, nestes dias já sem Luis. Até quando estará Sérgio Conceição disposto a aturar este estado de coisas, sem bater com a porta de uma vez por todas? É evidente e inequívoco que o Clube será sempre maior que todo e qualquer homem, e naturalmente este treinador sairá um dia e outro ocupará o seu lugar. Mas a minha interrogação não tem nada a ver com filosofia e tudo com a práxis: é com o momento actual que estou preocupado, com o muito que ainda há para vencer esta época e as que lhe seguirão, ainda durante o consulado deste presidente; com a manutenção de limites mínimos de decência na gestão do Clube que Sérgio vai, directa e indirectamente, "assegurando". Sem ele, o seu amor ao Porto e a sua idiossincrasia tão distintiva, temo que tudo se precipite ainda mais vertiginosamente. O outro futuro, que virá depois, será toda uma outra conversa.


Entretanto, amanhã joga o Porto. Por sinal, um dos jogos mais importantes da temporada, onde vencer marcará uma diferença porventura inultrapassável para o rival. O que mais desejo, do fundo do meu coração de uma só cor, é que amanhã depois do jogo ninguém seja forçado a pensar que "com o Diaz, a história seria outra".


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco


terça-feira, 6 de outubro de 2020

O dia em que o Futebol morreu

Não sei precisar quando terá sido ao certo, mas que ninguém se iluda: o desporto futebol que existiu durante quase um século faleceu com estrondo.



Hoje percebo a imensa sorte que tenho em ser filho da revolução, nascido ainda bem dentro do século XX,  que me permitiu disfrutar desse jogo único que já foi tudo. Mais afortunado ainda por ser Portuense e - obviamente - Portista, onde a dimensão intrínseca do Clube, concretizada no futebol, atinge níveis de afeição e sentimento de pertença dos mais elevados do planeta.

Conheci e cresci com um futebol que era o orgulho (quantas vezes o único) da Invicta, o seu baluarte como o presidente tão bem dizia (e fazia), o seu porta-estandarte que recusava sempre vergar-se enquanto as forças sociais e políticas que o iam rodeando se vendiam por um bilhete de ida para a capital. Sempre contra-corrente, sempre hirto a encarar de frente às adversidades. 

Ainda senti, por história contada de uma geração para a seguinte, o que era ser Portista e não poder ganhar depois de passar a ponte sobre o Douro. Cresci a ver o Porto crescer, a tornar-se maior que o mesquinho país que tem a infelicidade imensa de o acolher, até chegar ao topo do mundo através do seu futebol. Uma estória daquelas de encantar, só que em real. 

Esse futebol, sempre visto pela lente enamorada pelo Futebol Clube do Porto, era uma escola de virtudes, insubmisso, lutador até à última gota de suor. Quem as corporizava eram os jogadores, moldados cirurgicamente pela determinação e sagacidade de Pinto da Costa e pela inteligência e competência de Mestre Pedroto e (alguns dos) seus sucessores. 

Todos sabemos quem foram e o que significaram Rodolfo, João Pinto, Paulinho Santos e Jorge Costa, mas muitos mais passaram pela azulebranca de forma mais discreta mas ainda assim contribuindo com a sua quota-parte para o sucesso inigualável em democracia de quase quatro décadas. Nunca se fez só (nem sobretudo!) de artistas, mas também por lá passaram muitos, de Cubillas a Hulk, passando por Oliveira, Lucho, Quaresma e Deco - em comum, além do talento sem fim, o sentimento. Nuns espontâneo, noutros ensinado, mas sempre único e coerente. Todos em prol do Clube.

Os mais recentes, como Hulk ou Deco, tinham já e justamente a ambição de chegar a um clube mais poderoso, que lhes permitisse ganhar mais dentro e fora de campo. Deco conseguiu, Hulk só parcialmente, mas o que importa é o que acrescentaram e a inspiração de que serviram para os que se lhes seguiram. Todos percebemos a ambição natural de cada pessoa, o problema não está nela mas nas condições que foram adulteradas para que o desequilíbrio entre partes se tornasse tão gritante.

Todos nos forçamos a saber também que os tempos mudaram, primeiro mais lentamente e depois com grande velocidade. Pode ter sido com Bosman que a primeira bala foi disparada, mas seguramente que foi a ascensão da nossa tão querida Champions League a um patamar de negócio estratosférico e desregulado quem descarregou o resto do carregador. 



O cheiro a dinheiro fácil e garantido, aliado ao passaporte dourado garantido a quem nele investisse, no questions asked, tornou-se um chamariz irresistível para clepocratas e criminosos dos quatro cantos do mundo se estabelecerem, de forma limpa e livre, na Europa civilizada. Foi o início do fim.

Se juntarmos a isto a total cumplicidade da UEFA e a constante cedência perante as exigências absurdas (para quem gosta do futebol como ele era) das maiores ligas europeias, temos a cova aberta e o caixão a ser carregado em ombros.

Chamemos-lhe negócio, indústria, o que quisermos, sempre seguido de rentável, mas não lhe chamemos futebol. Sempre houve e haveria clubes maiores e mais poderosos, fruto das suas idiossincrasias e circunstâncias geo-políticas, sociais e demográficas. O Real Madrid, o Barcelona, o Bayern e mais alguns "nunca" deixariam de o ser, mas como compreender e aceitar que outros campeões do passado, também eles gigantes nas suas realidades, tenham sido relegados para uma quasi-eterna penumbra por força dos petroeuros e similares, por troca com os paraquedistas Chelsea, PSG, City e demais "aberrações"? Ou um Mundial no Qatar? 

Como pode o futebol ser global se Porto, Ajax, Olympiacos, Anderlecht, Celtic, Roma ou Marselha estão impedidos de lutar com armas minimamente equivalentes? Como entender que clubes tão fortemente identitários e identificados com as suas regiões não as consigam representar condignamente com jogadores das suas fileiras? Não para lutarem todos os anos pelo ceptro europeu, porque estaria naturalmente fora da sua dimensão, mas para conseguir intrometer-se a espaços, como "sempre" aconteceu.

Só o Liverpool parece ter escapado à sina e apenas porque foi - também ele - comprado, embora sem perder a identidade (bem pelo contrário). E pode parecer contrasenso (talvez seja...), mas é um exemplo que abre uma pequena janela de esperança de que talvez seja possível... um futuro diferente, ainda distópico só que não tanto, em que o valor da identidade prevaleça sobre o investimento cego, surdo e mudo e que o equilíbrio dentro de campo reflicta as diferenças "naturais" entre clubes.

Pior que este reshuffle da hierarquia dos clubes do velho continente, é a forma como aconteceu e as implicações na forma de viver e sentir o futebol por parte dos jogadores. O amor ao clube e a antes indissociável aspiração máxima de representar as suas cores, gentes e valores desapareceu. Ou melhor, existe mas é de plástico, para russo ou árabe ver. É que a doença não se restringe ao topo, está disseminada de cima a baixo ao ponto de qualquer Wolves ter a capacidade de ter vários titulares da selecção portuguesa.

Hoje, os miúdos borbulhentos que não passam ainda de projectos de jogador já têm bem claro que o objectivo é chegar ao clube que lhes garanta uma vida financeiramente "feita" no pós-futebol, seja ele qual for. Jogar pelo clube grande da cidade ou do país é, na grande maioria das geografias, apenas um trampolim provisório e para encher de orgulho o avô (porque os pais já estão a pensar no passo seguinte), excepto nos casos em que coincide com esse clube ser do tal topo longínquo onde só cabe uma dezena.

Por fim, é triste constatar que mesmo o amor ao jogo sobrevive em cada vez menos jogadores e nada poderia ser mais fatal do que isso. O futebol como eu o conheci, com que cresci e que vi também crescer, está em vias de extinção. E só não está - nunca estará? - extinto porque ainda sobrevive nas ruas, nos pelados e nos sintéticos. Vive dentro da alma das crianças que ainda não sabem e das que sabendo não se importam e dos "veteranos" que nunca chegaram a ser. Essas são as casas onde o espírito do futebol livre ainda vive, esses somos todos nós que do futebol apenas recebemos emoções.

A reflexão é muito mais extensa e complexa do que isto, que não passa de um simples desabafo. O futebol pode estar morto, mas longa vida ao Futebol!



Sobre a loucura destes últimos dias do mercado do Porto, não me quero alongar muito. A péssima, melhor, inexistente gestão a médio prazo empurra-nos sempre para as mãos dos que não tem nem pressa nem falta de dinheiro. É estar sempre à espera de aproveitar a melhor oportunidade, que muitas vezes não deixa de ser má. 

Se já há muito nos habituámos a ignorar olimpicamente toda e qualquer declaração do Presidente sobre entradas e (sobretudo) saídas, não deixa ainda assim de ser dramático o total desbaratamento dos sub-19 vencedores da Youth League. É que há mentiras que doem mais do que outras e os que, como eu, ainda suspiram por ter na equipa jogadores que amam e vivem o Porto, não conseguem ficar indiferentes.

Lamentavelmente, o Porto em 2020 é exemplo de tudo o que se perdeu com o futebol-indústria, ao que se soma uma gestão em fim de ciclo, sem rumo e muitas vezes negligente. Os títulos regressados pela mão obstinada de Sérgio Conceição não podem nem devem voltar a servir de anestésico para que os Portistas regressam ao seu estado amorfo-catatónico. Não creio que esses tempos possam voltar de forma esmagadora, mas há ainda muito boa gente que não admite questionar as decisões da liderança de Pinto da Costa.

Esperemos para ver que nível competitivo irá atingir esta nova equipa, desejando ardentemente que seja o suficiente para nos levar ao bicampeonato, mas os negócios feitos remetem-nos para o primeiro ano de Lopetegui, com empréstimos sem opção de compra e para a inenarrável venda dos jovens jogadores da formação.

Nota final para Sérgio Conceição que, até prova em contrário, deverá ser considerado "cúmplice" desta estratégia sem estratégia - para o bem e para o mal e independentemente do que a seguir conseguir fazer com a matéria-prima. É que haverá sempre vida para lá desta época desportiva e o treinador campeão associou-se voluntariamente à ideia de que o futuro próximo da equipa principal passaria pelos vencedores de UYL. O que se constata é o exacto e doloroso oposto. Já há muito que aprendi a não sofrer com as possíveis chegadas, mas é-me ainda impossível não fazer o luto das saídas antes de tempo.

É certo que "isto da formação" tem também bastante que se lhe diga, mas fica para outra altura. Por agora, aguardemos pelo clássico de Alvalade e... StayAway Covid.

Um abraço sentido de gratidão a Danilo e Telles pelos bons serviços prestados e nada mais, porque Portista sou eu e vocês.


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Obrigado pelos Títulos, Agora Queremos Futebol


Creio que devo começar por acalmar os (que se acham) mais acérrimos defensores de Sérgio Conceição, face a uma possível mas não-intencional "agressividade" inferida do título deste texto, mas que mais não é que a adaptação do título de um livro escrito por um bom amigo e que recomendo a todos, cujos detalhes guardo para o post scriptum.




Somos Campeões, carago! Do campeonato e da Taça, a saborosa Dobradinha, que é como quem diz, umas belíssimas e dominicais Trip(inh)as à moda do Porto. Parabéns a todos os envolvidos nestas determinantes conquistas, com natural destaque para jogadores e treinador.

Em inusitado tempo de pandemia e incerteza, esta dobradinha chega como um enorme bálsamo de tranquilidade e coragem que os Portistas muito agradecem e celebram, mesmo que de forma contida e contra-natura. Enfim, apenas mais uma dificuldade, das muitas de que é feita cada conquista da nossa história.

A final da Taça acabou por representar exemplarmente o que é ser do /jogar pelo FC Porto. Mais de uma hora em inferioridade numérica, uma arbitragem hostil e os nossos a morderem a língua, fazendo das tripas coração para trazer o troféu para o Museu do FC Porto. Não necessariamente contra tudo e todos, como muito gostamos de apregoar, mas seguramente contra muito mais que os 11 adversários em campo.

O Porto é uno e indiviso, Clube e Cidade, e nunca será apenas futebol. Pelo contrário, cada vez mais é necessário um Clube forte e determinado em carregar a bandeira de toda uma região - que não é geográfica, mas de sentimento de pertença - contra os permanentes vilipêndios e achincalhos por parte do centralismo bafiento e macrocéfalo que nos tolhe o desenvolvimento enquanto nação. Valente e imortal? Não, dependente e imoral.

Quem não entende isto, não se deveria considerar portuense. Que tenha a infelicidade de ter "nascido" e crescido do Benfica ou Sporting, enfim, disso não terá culpa, mas não entender o que o FC Porto representa (até para eles), é falta de coragem ou incapacidade.

Por tudo isto, cada conquista, cada troféu, é sempre mais um avanço da resistência, um novo grito de revolta, um abanão na inércia que nos adormece nos braços. Por tudo isto, Sérgio Conceição é, para mim, um herói dos tempos modernos. Não voa, não tem visão raio-X, mas tem uma força interior "sobre-humana" (e agora usa máscara, como todos nós) que nos teria conduzido agora ao tricampeonato, não fosse pela habitual vigarice dos sem-vergonha nas jornadas decisivas da época passada.

Sou, ao mesmo tempo, o maior defensor e o maior crítico de Sérgio Conceição. Parece ser uma pessoa normal, como qualquer um de nós, talvez com a diferença de ter defeitos e virtudes muito bem vincados, sempre presentes e facilmente detectáveis por todos. Goste-se ou não, pelo menos não engana.

O meu "problema" com ele é exclusivamente "profissional": como fui escrevendo ao longo destas três temporadas, o Sérgio chegou no meio da maior crise do Clube a que assisti (e que ainda subsiste, note-se) e fez de um bando de rejeitados e perdedores uma equipa de campeões. Esse mérito já seria suficiente para ficar eternamente nas páginas douradas do Porto, mas não se ficou por aí. Teve coragem para seguir ao leme na nova temporada.

Desvanecido o efeito surpresa e perante contratações que pouco ou nada acrescentaram, começou a fase lunar de Conceição: os resultados ainda foram aparecendo, mas o futebol nem por isso. Tendência que, sublinhe-se a bold, já vinha da primeira época. A questão é que nessa primeira época o desígnio era claro - manter a exclusividade do Penta - e as expectativas baixas, após várias épocas de péssimas escolhas do Presidente, que nos deixaram à mercê da incompetência, desonestidade e/ou falta de brio profissional dos vários treinadores e empresários que foram passando pelo Dragão, cada um com sua pá, cavando uma sepultura cada vez mais profunda.




Sentindo-se acossado, chegou a revoltar-se com os adeptos que pediam espetáculo, remetendo-os para o Coliseu ou Sá da Bandeira. Entendo bem que quem trabalha com dedicação e sacrifício da vida pessoal, se sinta injustiçado ao sentir esse tipo de exigência, ainda mais quando pontuada por muito desconhecimento do trabalho realizado e do próprio jogo.

Mas faz parte da vida do treinador do Porto, como ele bem sabe. E mais importante, pelo menos no meu caso, é que o tal "espetáculo", que eu designaria antes como bom futebol, além do inerente prazer de o assistir, nos colocará sempre mais perto de vencer - e aí, meu caro Sérgio, não há como contestar: jogar bem não é só (nem principalmente) jogar bonito, é jogar com confiança e atitude desde o primeiro apito, é saber e conseguir controlar o jogo, é impor respeito ao adversário seja ele qual for.

E isso, até hoje, ainda não aconteceu de forma consistente e predominante. Claro que houve jogos assim (felizmente, quase todos os contra o Benfica e uns quantos mais), mas volta e meia sentia-se a equipa amarrada, sem soluções para chegar à baliza contrária, ainda por cima sem a consistência defensiva que justificasse essa inoperância ofensiva. Qualquer Portista reconhecerá o frequente receio de poder sofrer um golo a qualquer momento, de qualquer adversário. Foi muito isto a segunda época - isto e a incapacidade de ganhar nos momentos decisivos (finais) e, claro, as arbitragens incorrectas e sempre tendenciosas a favor dos sem-vergonha.

Apesar de alguns bons reforças, tudo parecia indicar que esta terceira temporada ia ser mais do mesmo: pouco futebol e nenhum troféu. Para agravar, a eliminação madrugadora perante o Krasnodar, que tanto nos custou a nível económico (ainda por apurar o quanto...) mas também desportivo e mental. Por alturas da final da Taça da Liga, tudo parecia estar prestes a implodir: até o próprio Sérgio se revoltava publicamente contra o que considerava estar mal, embora tendendo a esquecer-se de incluir os erros próprios.

Podemos agora gozar com quem nos fez o funeral na altura, mas... usando de seriedade intelectual, quem é de nós, por aquela altura, não antecipava um fim muito triste para a temporada? Eu evidentemente que sim, digo-o sem assombro. Era o mais natural e o mais provável, sejamos sérios.

Felizmente não foi. Soubemos resistir (dentro de campo) e aproveitar o inesperado desabamento da equipa do Benfica, que nem com algumas das habituais ajudar teve capacidade para evitar o espectacular naufrágio. A vitória sobre eles no Dragão foi o princípio do seu fim anunciado. Depois... veio a pandemia e, meses mais tarde, o recomeço das competições. Voltamos a falhar com estrondo em Famalicão e tudo voltou àquele final de jogo na "Pedreira" em Janeiro. O resto é mais do que conhecido e acabámos inclusive a Liga jogar o nosso melhor futebol da época, alternado com mais alguns momentos de credo na boca, como em Paços de Ferreira.

Tudo somado, regresso à opinião que tinha no início desta temporada sobre Sérgio Conceição (depois de ter deambulado por maior negatividade): é a pessoa em quem mais confio para manter esta direcção "na linha", mas sem deixar de lhe exigir que evolua o seu pensamento sobre o jogo e desenvolva uma proposta mais condizente com o estatuto de clube grande. Percebo bem a questão premente dos ovos e das omeletes, mas sinceramente creio que teve matéria-prima para fazer melhor a nível do futebol jogado.

No final, todos queremos é ganhar, mas importa-me quase tanto a viagem como chegar ao destino. Desejo, do fundo do coração, que Sérgio Conceição continue no Clube, tanto como que tenha a vontade de melhorar a sua proposta de jogo.



Uma nota final para me despedir de San Iker, agradecendo-lhe a forma como se deixou apaixonar pela minha cidade e pelo meu clube. E de todos os que possam sair neste defeso, já agora. Até já, até sempre.


Parabéns e obrigado, Campeões!


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




P.S. - o livro a que este texto rouba o título é "Obrigado pela Democracia, agora queremos Liberdade", da autoria de Miguel Ferreira da Silva, um dos fundadores (o mais importante, digo eu) da Iniciativa Liberal, que explica no livro o processos e contexto em que este movimento político se desenvolveu.

Antes que dêem asas ao sectarismo que vos caracteriza, por favor notem que é uma reflexão interessante para todos os que se interessam pelos caminhos que Portugal vai trilhando, independentemente das crenças políticas. Aliás, se calhar é até mais interessante para quem não se revê naquilo que a IL é e representa hoje. Excelente leitura de férias, trust me.



sábado, 2 de novembro de 2019

Não Te Fines, @CoachConceicao


Este é um momento da vida do Clube especialmente cansativo para o Portista sofredor e desinteressado de outra coisa que não seja o seu sucesso desportivo e a sua viabilidade futura.




Cansa assistir passivamente ao delapidar de uma obra ímpar por parte de uma direção virada para si mesma e capturada por parasitas. Cansa ver a equipa principal de futebol jogar sem eira nem beira, sem se descortinar um plano de jogo minimamente eficaz e em que os jogadores acreditem e pelo qual deixem a pele em campo. Cansa ainda ler e ouvir imbecis de toda a espécie a debitar cartilhas várias, frustrações e ignorância sob a capa da liberdade de opinião. 

Quem duvidar da minha gratidão e apreço pelo nosso treinador Sérgio Conceição, só tem de visitar ou revisitar boa parte dos últimos dez textos deste blogue. Para mim, Conceição será para sempre um dos heróis deste extraordinário clube a que o mais iluminado de todos teve o bom gosto de apelidar de Futebol Clube do Porto. Do meu Porto. Conceição, praticamente sozinho, pegou num grupo descrente de acomodados e proscritos e fez-se campeão, evitando o objectivo máximo da corja vigarista sem-vergonha, o penta que é só nosso.

Nunca me esquecerei das condições em que chegou, mais um numa extensa lista de tentativas falhadas, para reabilitar por artes mágicas aquilo que a direção indecorosamente paga foi sendo incapaz de fazer: lutar pelo Clube. Nem dentro, pela incapacidade de reassumir o sucesso como o objectivo primeiro (já nem peço único), cedendo a interesses que nada interessam ao FC Porto. Nem fora, pela demissão do inadiável e inevitável combate à podridão que o polvo sujo instalou no desporto nacional. Virados para dentro, para a perpetuação do poder pelo poder, até ao dia em que, enfim, quando o Presidente já não puder, sejam obrigados a desaparecer na mediocridade ou a mendigar por novas alianças, provavelmente ainda mais medíocres.

Para mim, @CoachConceicao significa resistência, resiliência e coragem. O que fez garantiu o seu lugar ao sol na nossa história, nem que seja apenas por uma época. Provavelmente, apenas por uma época. E esse é o drama que nos atormenta hoje, pelo menos aos que de nós não padecem nem de irremediável optimismo nem de incurável cegueira voluntária. 

Conquistado o campeonato 17/18, o seu percurso tem sido quase sempre a descer. Digo-o consciente da muito boa campanha na Champions que liderou na época passada. Globalmente, soube a pouco, tendo em conta o campeonato e as taças que tão mal perdidos foram. Mas mesmo a própria campanha europeia foi, a meus olhos, muito feliz na forma como decorreu. Na fase de grupos, várias foram as vitórias que facilmente poderiam não o ter sido, tivesse o adversário um bocadinho mais de acerto. Contra a Roma, até o VAR foi amigo... Não retiro uma grama ao mérito do que se conseguiu, apenas sinto que veio aos ombros de muita felicidade em momentos-chave dos jogos. Mais isso que qualidade e segurança de jogo. No entanto, muito positivo, até por se tratar da prova mais importante.

Com isto pretendo ilustrar que aquilo que “pedi” ao treinador na ressaca dos festejos do título e não se concretizou: que o treinador tivesse consciência das suas limitações e conseguisse evoluir (depressa) enquanto... treinador. Nunca tive ilusões (nem seria justo) que Sérgio refinasse a sua personalidade - é a dele, para o bem e para o mal, e faz parte do pacote. Esperava sim - exigia, enquanto adepto - que não se cristalizasse naquela forma “única” de jogar, assente num modelo bruto-dependente que resultou pela surpresa e incapacidade de a “acomodar” em tempo útil por parte dos adversários na primeira temporada (em especial na primeira volta), mas que facilmente se deduzia que mais cedo do que tarde seria neutralizada. Ainda mais porque os próprios intérpretes acabariam por descer do “sobre-rendimento” de 18/19 para a sua normalidade, e disto Marega é sem dúvida o exemplo maior e pior também.

Mesmo assim, mesmo após o autêntico descalabro de resultados desportivos que foi a sua segunda época à frente da equipa, defendi a sua continuidade. Primeiro, porque acreditava que tinha finalmente todas as condições para fazer uma boa equipa assente em novas/diferentes e boas ideias de jogo. Segundo, porque confio mais nele para defender os interesses do Clube do que em qualquer outra pessoa que por lá anda actualmente. E não, não estou a exagerar, é mesmo o que sinto. Se para o lugar dele viesse um “boneco” qualquer, sobretudo para dizer “ámen” a todos os disparates lesa-Clube no mercado de transferências, ficaríamos seguramente num lugar pior do que aquele onde estamos hoje. Disso não tenho dúvidas.

No entanto, estando nós já em Novembro, sem Champions e tremidos na Europa, com 5 pontos já desperdiçados no campeonato e a dois pontos do primeiro, apesar de termos ganho em sua casa, e sobretudo - mais que tudo - pelo terrível futebol que a equipa vai apresentando como regra e não como excepção, começa a ser difícil sobrepor o feito heróico à crueza da realidade pós-título. Objectivamente, a equipa rende pouco e joga ainda menos do que rende. E pior, dá sinais de pouco acreditar na proposta de jogo do seu líder.

Acresce (ou resulta deste estado de coisas) o descontrolo emocional de Sérgio Conceição, já descontado o seu feitio "volátil". Não é aceitável que o treinador do FC Porto diga o que ele disse após mais um jogo paupérrimo na Madeira. Podemos pintar da cor que quisermos, mas não é aceitável. Que posteriormente se tenha desculpado em certa medida, é apenas o mínimo exigível e não apaga o que foi dito.

Até porque fica a sensação de que a “coragem” que lhe sobra para “atacar” uma parte mais fraca e sem capacidade de “defesa” - o tal adepto que o critica, que suspeita, em diferentes momentos, mais ou menos, somos todos nós...- é a mesma que lhe tem faltado para atacar com mais vigor e frequência quem mina e põe em causa o seu trabalho. Árbitros, dirigentes, instituições e adversários manhosos e aparentemente seduzidos pelo lado negro do “jogar para perder” são demasiadas vezes perdoados ou esquecidos por quem tem o palco e a obrigação de exigir que a sua equipa tenha as mesmas condições que os outros na disputa das competições internas. Sim, que não competiria ao treinador esse papel num clube normal, mas... Que quem dirige o Clube já há muito desistiu, todos sabemos e ninguém se parece importar muito com isso; que o nosso aguerrido treinador se esqueça também, faz confusão.

Em jeito de conclusão, renovo o meu apelo ao meu treinador: foco total no que é importante, isto é, no aperfeiçoamento das suas competências técnicas e na denúncia intransigente dos vilipêndios de que vamos sendo alvo, semana sim, semana não.

 - Não vás na onda da época @CoachConceicao, não te deixes finar perdido neste turbilhão em que pareces estar submergido. Pára, respira fundo, reflecte e volta ao trabalho, mas com outros trunfos na manga. Sabes que, na grande maioria, estaremos contigo até ao fim (da época), mesmo que cada jogo seja um bocejo sobressaltado à luz dos nossos leigos olhos. Vai que nós vamos atrás.

Abraço mister.


Por fim, os "imbecis". Aos que nos querem mal, retiro as aspas e nem perco tempo. Têm agenda e já está. Tudo o que lhes possa acontecer de mau será um prazer assistir e nem me importo de contribuir. Preocupo-me sim com os Portistas, que se parecem "cismar" entre os que apoiam incondicionalmente e os que pedem a cabeça do treinador/direcção/qualquercoisaserveparadiscutir, exigindo que todos os demais tomem igualmente partido. Connosco ou contra nós.

Pois permitam que vos diga, meus caros extremistas, estão a ser uns perfeitos idiotas. Nem o mundo é azul ou branco, nem os outros são obrigados a sujeitar-se à vossa postura inquisitorial. Sim, é possível apoiar de forma crítica, nunca incondicional; sim, é possível estar com o treinador e simultaneamente fazer-lhe reparos sempre que se justifica; sim, é saudável duvidar e questionar. E não, não é produtivo estar sempre à espera de um mau resultado para atacar quem não se gosta; não, discordar de quem nos dirige (seja a que nível for) não dá direito a insultar quem pensa diferente; não, não sou obrigado a adoptar nenhum dos extremos só porque vos apetece. Penso, logo decido por mim, a cada momento. Sou do Porto, não sou do Sérgio, nem do Jorge Nuno e ainda menos sou do que quer que seja que vocês queiram que eu seja. Apoio durante, critico se achar que devo antes e depois dos jogos. Vou aos estádios se puder e me apetecer e ninguém tem nada a ver com isso e nunca tal servirá de medida do meu "Portismo" ou de quem quer que seja. 

Não pretendo educar ninguém para além dos meus, mas fica escrito porque desconfio me será muito útil sempre que uma discussão deste género vier ter comigo. Daqui em diante... vão ler se quiserem. Não há paciência. Já cansa.




Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Vamos para Nulos


Não esperava voltar a escrever antes de Setembro. De todo. Depois de conhecer os sorteios, fiquei muito confiante de que eventuais desaires iniciais no campeonato (sem sonhar ainda mas a temer o que se veio a passar em Barcelos) seriam amortecidos pela conquista de um lugar na Champions 19/20. 




Se já na época passada, aquando dos oitavos contra a Roma isso aconteceu, era (ainda mais) previsível que Sérgio Conceição, com bênção total da SAD, se focasse em garantir o primeiro e mais imediato objectivo da temporada, mesmo que isso pudesse custar alguns dissabores na Liga do faz-de-conta. É que o campeonato dura nove meses e há salários, prémios e benefícios para pagar entretanto. Havia... ou melhor, ainda há, não sei é se haverá como.

A primeira mão em Krasnodar correu-nos de feição. Um jogo tremido mas q.b. para garantir um nulo, salvo por um lance de felicidade mesmo a acabar. Tudo bem encaminhado, mas longe de garantido. Ainda assim, impossível imaginar o que se viria a passar ontem no Dragão. 

Pelo meio, uma entrada calamitosa no campeonato. Primeiro e último responsável, Sérgio Conceição. Equipa muito alterada face à da Rússia, sem motivo aparente que não seja a convicção do treinador. E mais certo fiquei quando soube do onze para esta segunda mão: depois de já ter mudado três titulares da Rússia para Barcelos (dois deles do meio-campo, sector fulcral para o funcionamento das equipas como tal), voltou a mudar, desta vez quatro jogadores, incluindo o já caído em desgraça Saravia e duas estreias, Diaz a titular e Nakajima em absoluto.

Isto para dizer uma coisa e concluir outra. Primeiro, é dos livros e do bom-senso que quando se está a construir uma equipa nova é preciso dar prioridade às rotinas e ao conhecimento entre os jogadores, o que não se consegue mudando tanto e tantas vezes o onze titular. Segundo, Sérgio Conceição não tem ideias claras sobre quem tem à disposição e o que quer para a equipa (se tem, pior ainda, porque significa que nada evoluiu em três anos como treinador).

E esta é que é a pergunta fulcral que deve ser colocada: 

O que se passa com Sérgio Conceição? 

Visto de fora e dando eco ao que se diz (em parte confirmado pelo próprio), o treinador recebeu - ainda que tardiamente - os reforços que pediu. Seguramente nem todos são as primeiras escolhas, mas ainda assim escolhas, suas. Deveria estar mais confiante e bem-disposto do que nunca, entusiasmado por poder finalmente trabalhar focado nas suas ideias e com a sua matéria-prima de eleição.

O que se tem visto desde o regresso aos trabalhos é bem diferente, não é? Tensão, rostos fechados, desconforto, postura de acossado. E até o é, pelo corja do costume, mas isso não é novidade. Já foi campeão apesar deles, porquê ceder agora? Tem de haver mais.

Não tenho as respostas, mas tenho - temos todos - os resultados à vista. Bem-vindos à Liga Europa e ao incumprimento do orçamento (venha de lá um já rectificado p.f.).

Podemos sempre optar por pensar que foi uma série de infortúnios que raramente coincidem no mesmo jogo, mas a verdade é que os factos parecem querer demonstrar algo diferente. De nenhum dos três jogos oficiais se pode dizer que a equipa jogou bem. Pior, que a equipa se comportou como tal, que se viram rotinas ou que se detecta alguma evolução no jogo colectivo. Bem pelo contrário.

E se em parte se compreende alguns dos retrocessos pelas saídas do final de época, nem tudo é justificável, até porque os adversários não eram dos mais cotados - longe disso. Mesmo em reconstrução, era exigível muito mais e muito melhor.  Muito melhor.

Sérgio Conceição não está equilibrado e o Clube é que pagou e vai continuar a pagar a(s) factura(s). E agora?

Agora nada, vamos para nulos*. Por um lado, temos um presidente que ainda há dias desejou/comprometeu que Conceição fosse o seu último treinador. Por outro, temos um treinador que termina a conferência de imprensa pós-eliminação a reconhecer que errou mas que faria tudo igual se tivesse a oportunidade. Mind blowing.

Portanto, a solução única que se vislumbra e se aceita é a continuidade de Sérgio Conceição até final da temporada, dê por onde der. Mas mesmo por onde der - se por infelicidade estivermos a 15 pontos do líder em Dezembro, por exemplo. Até Maio, dê por onde der. Comigo a apoiar, concordando ou não com as opções.

E então que cada um tire as suas ilações, a começar pelo presidente Pinto da Costa. Se a época falhar a ponto de não permitir a continuidade do treinador, o presidente terá a obrigação de tirar as devidas conclusões. Fáceis de subentender. Dou uma ajuda: falhar será tudo o que não seja ser campeão e/ou voltar a incumprir com as regras do FPF.

A aposta inicial falhou redondamente. Marcano foi uma má aposta, tal como todas as que visavam o "lucro imediato". Espero que agora haja o mínimo de bom-senso para reequacionar a estratégia desportiva do Clube e dar mais espaço (e tempo) aos bons valores que saíram da formação campeã da Europa de clubes, integrando igualmente as boas contratações que foram feitas. No mínimo, isso, porque, insisto, temos matéria-prima para fazer uma bela(!) temporada.

Uma palavra de admiração e agradecimento para Pepe. Não foi o único, mas foi o melhor, o líder incontestado e inconformado, um monstro dentro de campo a defender, a construir e a liderar. 

O futuro imediato passa pela recepção ao Vitória e pela deslocação ao antro dos criminosos sem-vergonha e é nisso que todos se terão de focar a partir de amanhã. Agora é para digerir e desinchar. E depois voltar a apoiar. Como sempre.



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco



* Para quem não sabe jogar King, ir para nulos acontece quando o dono da "festa" ou o vencedor do leilão tem um jogo tão baixo que prefere jogar sem trunfo e com o objectivo de não fazer vazas, o oposto do normal em 99% dos jogos de cartas, desde a lerpa à bisca lambida. Eu sei que não faz muito sentido para quem não conhece o jogo, mas aqui está o desafio para aprenderem, que vale bem a pena e distrai das maleitas...



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Agora a Doer


É já depois de amanhã, na longínqua Krasnodar, que o FC Porto entra na época oficial 2019/20 e logo contra um obstáculo com cara de poucos amigos. E não é por serem russos, é por - dizem por aí - jogarem bem à bola. É assim, a frio e logo a doer, contra um adversário que já vai na quarta jornada do seu campeonato (2V-1E-1D). 




Depois da boa imagem que deixou na Liga Europa da época anterior, onde foi eliminado e por muito pouco pelo Valência nos oitavos, o FK Krasnodar chega a esta pré-eliminatória por via do terceiro lugar que conquistou na liga russa. Não os vi jogar ainda este ano, mas quem viu (e percebe da poda) garante que vão vender cara uma eventual eliminação.

Não vale sequer o esforço de atirar com o nosso palmarés para a arena argumentativa, primeiro porque o palmarés não joga e segundo porque já vai sendo tempo de os Portistas aceitarem que o Porto actual já não é o que nos fez orgulhosos à conta da sua insuperável competência e espírito de conquista.

(Para que ninguém se confunda, o (meu) orgulho de ser Portista é inatacável e imutável, o que desapareceu foi aquela dose suplementar que advinha da superioridade competitiva que evidenciou durante várias décadas) 

Hoje temos uma equipa profissional de futebol que se está a refazer, aparentemente a pensar no imediato - o acesso ao "milagre" financeiro da Champions, o único que permite continuar a suportar este tipo de gestão - e cujo princípio único parece ser o de satisfazer os desejos de Sérgio Conceição. Se há uma política desportiva estruturante, eu não a consigo detectar.

A prova provada chega pelo conjunto de entradas e saídas deste defeso. Sem questionar ainda a valia de quem chegou e o saldo teórico face ao plantel que sucede, o que se constata é a chegada de jogadores "feitos", para darem rendimento desportivo de imediato e forçosamente sem aspirar vendas futuras com relevantes mais-valias. É verdade que parece também sobrar algum espaço para os miúdos da formação, mas é preciso esperar para ver se e quem vai ter reais oportunidades para evoluir, espaço para errar e confiança para começar a mostrar as suas qualidades.

Já há muito que deixei de me afeiçoar a jogadores (Lucho e Quaresma foram os últimos), até porque deixou de fazer sentido. Hoje os jogadores são verdadeiramente profissionais, pensam apenas na sua profissão e em como dela retirar o máximo rendimento. E é também por isso que cada vez mais pessoas se desencantam com o que sobrou do futebol original.

Hoje, em 99,99% dos casos, os exemplos de amor ao clube apenas acontece em duas situações: quando o jogador já está num dos clubes de topo (e que mais paga) ou quando o jogador não tem qualidade suficiente para atrair o interesse desses "tubarões" (os Luisões desta vida). Nós é que ainda não nos convencemos disso e continuamos a sonhar com um futebol que já não existe...

Isto para dizer que os "miúdos" me interessam sobretudo na perspectiva do rendimento e das mais-valias futuras que podem gerar, que é como quem diz que o que me interessa é a política desportiva do Clube, sem olhar a nomes ou proveniências. Claro que - como sonhador que ainda sou - adorava ter na equipa principal e por muitos anos jogadores com formação no Porto, mas sei bem da utopia que isso representa.

Regressando a Krasnodar, o Porto terá de demonstrar competência suficiente para poder garantir no Dragão a passagem ao playoff, onde terá outro osso duro de roer (seja turco ou grego). As chegadas tardias de Marchesin e Uribe (dois negócios com muito para explorar) condicionam desde logo o seu potencial contributo nesta primeira mão e provavelmente na segunda também. E do que pouco que se pode ver contra o Mónaco, o resto também tem ainda muito que pedalar.

Seja como for, na quarta têm de estar todos prontos. O estatuto e o palmarés não jogam, mas quem vestir a azulebranca tem de provar merecer ser herdeiro de todos esses monstros do passado. E quem está ao leme tem também de honrar a memória do eterno Mestre. 

O primeiro balanço desta nova temporada será feito assim que for conhecido o destino europeu do Clube - até la, sigo com rigor (possível...) a minha receita de sobrevivência.

Acabou a pré-época, agora é mesmo a doer. E falhar o acesso à Champions pode mesmo revelar-se uma dor insuportável para o Clube e em particular para Sérgio Conceição. Por isso façam o favor de ser felizes.


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco


P.S. para os fãs das ligas Do Porto com Mística: vão acontecer! Já podem inscrever-se na Liga Portuguesa (token b5089773) e na FPL (código 8un4o1) que começam já na próxima sexta.



 

terça-feira, 2 de julho de 2019

Pré-Época 19/20: Guia de Sobrevivência


Está tudo louco. Em cada recanto, seja em cada um dos media ou em cada uma das redes sociais relevantes, está tudo louco. Louco de ansiedade, louco de desinformação, louco de angústias, louco de certezas e da falta delas, louco. Louca, louco, loucos. Nos casos mais graves, chegam ao ponto de escrever textos onde não conseguem evitar de repetir desenfreadamente a palavra louco. Pobres coitados. Loucos.




É o Zé Nakajima que esteve a comprar tripa enfarinhada no Bolhão, é a SAD que não compra tripa enfarinhada, é o "Saraiba" que é pior que a peste bubónica, é a SAD que não vende o "Saraiba" - enfim, é o fim dos tempos em calções de praia.

Pois, não é, not just yet. Seria bom que fosse o fim do tempo que já se esgotou de quem ainda nos lidera, mas nem isso. Garrote financeiro à parte, continua - e continuará - tudo na paz do senhor Presidente e seus escolhidos para o muito que já delega (e tanto que é). 

Por outro lado, o jurado inimigo mortal. Tentacular, sujo, reles, ardiloso, megalómano. Tudo quanto de mal se apregoa para a nossa casa, só pode ter origem (única!) na maldade do cefalópode sem-vergonha. Por cá, os resistentes da aldeia, só se podem dar por felizes por ainda ter o Grande Chefe à sua frente, caso contrário tudo seria pior. Muito pior. Tão, mas tão pior, que até inimaginável e indizível.

Entretanto, enquanto o tedioso e surdo "debate" prossegue em cada um desses recantos, a equipa profissional do querido Futebol Clube do Porto abriu a oficina e regressou ao trabalho. Com Sérgio Conceição ao leme, obviamente, e uma carrinha cheia de miúdos também. Parece que iam para a colónia de férias em Francelos mas se enganaram no caminho. Ainda bem. Mais do que estes, não se sabe bem. Há uma malta que se foi, outra que talvez ainda se vá e uns tantos que continuam. Agora chegar é que nada. Ainda nada, entenda-se, porque o tempo urge.

Antes, bem antes do estapafúrdio mercado de verão fechar portas, muito se jogará do sucesso da época e até das vindouras. Uns quantos jogos de treino, algumas jornadas da Liga fajuta mas primordialmente as duas eliminatórias de acesso à Champions League. Terceira pré-eliminatória a 6/7 e 13 de Agosto e play-off a 20/21 e 27/28 do mesmo mês. Quatro datas em absoluto decisivas para o futuro próximo do Clube, não só a nível desportivo mas sobretudo financeiro. 

Dia 29 de Agosto já se poderá dizer - com propriedade e para lá de todo este turbilhão de "notícias" - se o planeamento e a política de contratações foram os suficientes e os necessários para o arranque da época. Antes disso, pura especulação. Depois só em Maio de 2020.

Não significa isto que, entretanto, não se consiga filtrar algumas ideias do lixo mediático pela observação atenta dos factos (insisto, factos) que se vão desenrolando. E factual é que a oficina abriu com um reforço confirmado, por oposição a cinco saídas igualmente confirmadas. Como também é factual que Sérgio Conceição quer Zé Luís e ainda não o tem a treinar às suas ordens.

Para que ninguém tenha a vertigem de se imolar perante tanta desgraça anunciada, deixo-vos a minha lista de recomendações para sobreviver com sanidade (quem ainda a possa ter) a esta pré-época:

> Não ver/ouvir/cheirar/lamber(?!) programas de "debate" futebolístico de nenhuma espécie. Nem os sofríveis, nem os maus, nem os freak-shows.

> Ignorar todo e qualquer rumor de contratação. A sério, não queiram saber. Tentem nem ouvir ou ler, mas se por acaso o fizerem, sorriam como se estivessem perante um membro da Flat Earth Society ou da Lampiões Honestos (esta última está ainda por criar).

> No jornal desportivo (só conheço um em Portugal que mereça a designação de jornal), dar apenas relevância aos factos e ler com espírito crítico as crónicas e editoriais (em particular do JMR); Quanto aos pasquins folclóricos, recomendo nem tocar e jamais usar para embrulhar peixe, sob pena de o tornar não comestível por envenenamento.

> Ignorar tudo o que é CM. Não se brinca com o lixo, recicla-se ou enterra-se. A correr bem num futuro não muito distante, manda-se para o espaço sideral.

> Não entrar em "debate" com ninguém que se posicione (sabendo-o ou não) em qualquer dos extremos, qualquer que seja o tópico. Se em algum momento o caro leitor tiver a noção de estar num desses extremos, tenha o bom senso de se isolar para meditação.

> Em particular no Twitter:

        * Ignorar tudo o que não é facto (verificável);

      * Ignorar todos os que confundem opiniões com factos e mais ainda os que acham que opiniões valem tanto ou mais do que factos;

       * Fazer diariamente uma saudável dose de "unfollow" e "block" a quem origina os dois pontos anteriores;

        * Não insultar (ninguém) e ignorar insultos recorrendo ao ponto prévio;

     * Não retwittar a diarreia programática da corja sem-vergonha, mesmo que seja para a criticar/denunciar. Tirando casos muito pontuais em que a denúncia possa sortir algum tipo de efeito positivo, apenas se está a jogar o jogo deles, aumentando o seu alcance.

> Fazer desporto com regularidade

> Respirar ar puro

> Comer bem e beber melhor

> Contemplar

> Não fazer nada

> Last but never the least, praticar o Amor


Seguindo à letra esta prescrição do Doutor Lápis, vão ver como rapidamente melhora a vossa higiene mental e a disposição para enfrentar este mundo virado de pernas para o ar. Vão por mim, desliguem-se deste circo até (pelo menos) à apresentação no Dragão e depois falamos. Mas se fizerem mesmo questão de continuar ligados e a "lutar" pelo nosso Porto, então juntem-se a outros com a mesma vontade e - em sossego - discutam ideias e planos para o futuro. Algum dia terá de ser feito, mais vale começar já.



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




domingo, 26 de maio de 2019

Sérgio Forever...


... in our hearts. Portista convicto, trabalhador e dedicado à causa. Um de nós sentado no banco de treinador. Mas a questão também é essa: porquê ele e não qualquer um de nós?




Não estava a ser irónico. Das últimas coisas que escrevi ainda na fase regular deste blogue, foi este "O Porto de Conceição". Está lá quase tudo, para que não duvidem da minha sinceridade. 

Hoje, cerca de seis meses mais tarde e três troféus perdidos - sim, três troféus nacionais perdidos - sinto necessidade de actualizar o meu sentimento sobre Sérgio Conceição.

Recapitulando, o Sérgio chegou ao Porto após 4 épocas desastrosas que puseram bem a nu o declínio irremediável da liderança do Clube. Incompetência directiva a todos os níveis: desportiva, financeira e "bélica". Incapaz de travar os obrigatórios combates contra o Portugalistão em que vivemos, assistimos impotentes a vários campeonatos nos serem roubados sem se vislumbrar uma nesga daquele vigor que fez deste Presidente o melhor de sempre. Mas por agora não quero continuar por aí, volto a Sérgio Conceição.

Aceitou o complicado desafio (mas também a sua grande oportunidade de carreira) e deparou-se com a impossibilidade de fazer boas contratações (leia-se de jogadores feitos, que oferecessem garantias) e viu-se obrigado a recuperar um bando de proscritos e perdedores-natos para formar um plantel. Foi com eles que formou uma irmandade e construiu uma forma de jogar que surpreendeu tudo e todos, a começar pelo adversário de cada domingo. Nunca um futebol deslumbrante, mas quase sempre determinado e eficaz.

Surpresos mas logicamente felizes, os Portistas acorreram ao chamado e deram corpo a um imenso Mar Azul. Com altos e baixos ao longo da temporada, mas sempre com apenas e só aquele bando de renegados à sua disposição (mais duas ou três comissões jeitosas em Janeiro), Sérgio conseguiu o impensável em ano de desígnio nacional. Sérgio e os seus jogadores sagraram-se campeões nacionais e destruíram os sonhos de pe(n)ta da nação bafienta e corrupta. Foram demasiado fortes até para os árbitros sem-vergonha, graças àquele pontapé de Herrera.

Prestem atenção agora: foi Sérgio Conceição, SOZINHO com os seus jogadores, quem nos devolveu o título e liquidou o desavergonhado penta. Foi ele o homem, foi ele o líder. Ele. Falhou nas outras competições internas, mas venceu a mais importante - aliás, a única que interessava naquela temporada.

Fim de época, continuidade assegurada. Sem garantias de nada, uma vez mais. A tal ponto que esteve para se ir embora mesmo antes de começar. Mais umas trapalhadas e comissões a envenenar o seu projecto, mas lá resistiu e fez ouvir a sua voz. Baixinho.

O balão da superação esvaziou-se e os proscritos relembraram-nos porque o foram. E os perdedores-natos porque estavam no Clube há várias temporadas sem ganhar nada. Voltaram ao seu normal. Ainda assim, deu para cavalgar a onda da época anterior e fomos cumprindo a obrigação de ganhar jogos. Com os árbitros a apitar de forma igual para todos (porque assustados com a aparente ameaça que pairava sobre o estado lampião), chegamos à confortável vantagem que todos conhecemos e garantimos os oitavos da Champions. Tudo se encaminhava para mais uma temporada de sucesso. O que aconteceu então?

Muitos serão os factores e de várias ordens para explicar tudo o que se passou - e não tenho a pretensão de conhecer um décimo sequer - mas o que mais salta à vista é aquilo para que também sempre fui "alertando", mesmo quando ganhávamos: o nosso futebol nunca convenceu ninguém.

Ideia única de jogo, muito dependente da capacidade física dos jogadores, sem alternativas, sem planos de recurso. Futebol previsível e nada, nada entusiasmante. É isto que vejo como adepto e não adianta dizerem-me que não sei e não percebo nada da coisa, porque no final é isto que conta. É o que fica. Este ano, uma Supertaça contra o Aves. E três títulos muito mal perdidos. 

Se é inequívoco que o campeonato foi uma vez mais viciado a favor dos sem-vergonha, também não é mentira que tivemos uma vantagem à prova de vigaristas. Mesmo após aquela escandalosa expulsão perdoada a Bruno Fernandes em Alvalade antes do intervalo, ficamos com cinco pontos de avanço e a vantagem de receber os sem-vergonha no Dragão. Tínhamos de ter feito mais e melhor, porque depois desse jogo em casa, tudo ficou decidido. Já sem ponta de Justiça à vista, os árbitros voltaram a encarreirar e nunca mais permitiram que os sem-vergonha perdessem pontos.

Analisando os jogos decisivos, em especial contra lagartos e lampiões, falhámos quase sempre. A excepção foi mesmo a meia-final da Taça da Liga, porque este último a fechar o campeonato já não valia nada (e não jogamos nada também).

E o falhar aqui não significa ser inferior ao adversário, porque nunca o fomos. E, se calhar, isso ainda custa mais a digerir. Tendemos a dominar a maior fatia dos jogos e a criar mais ocasiões para marcar - mesmo a jogar "assim", lento e previsível. Falhar significa perder no final. Será tudo "culpa" da falta de eficácia? Não creio. Ter um ponta-de-lança de grande qualidade ajudaria muito, mas não resolveria tudo. E já nem consigo abordar a questão dos penáltis, começa a ser doloroso estar a ver o desfecho da meia-final verdes-vermelhos e pensar instintivamente "pronto, lá vamos nós perder nos penáltis". 

É este espírito derrotista e de impotência para ultrapassar o "destino" que se começa a apoderar do Clube (e não digam que a culpa é minha, ok?). É Sérgio o responsável por isso? Não. Mas também não foi capaz de o evitar, antes pelo contrário.

Já sei que sou apenas adepto e coisa e tal, mas em quase todos esses jogos fiquei com a sensação que o treinador não estava a ler bem o jogo, mais durante do que antes de começar. Acho até que tem dificuldade em reagir àquilo que o jogo vai pedindo. A gritante escassez de soluções no banco explica uma parte, mas não pode explicar tudo. Falta alguma coisa ainda.

Além disto, há também a questão da mentalidade. Por muito que se queira pintar de outra cor, a verdade é que esta equipa (nas duas épocas) nunca teve a mentalidade de entrar e esmagar os adversários, de marcar o primeiro e ir de imediato na busca do segundo. Ao invés, um estilo muito contemplativo, permissivo, que dá tempo ao adversário de superar as suas próprias dúvidas e começar a acreditar nas suas possibilidades. Não é um Porto mandão, incisivo, opressor. E isso conseguia-se mesmo sem craques, bastava ter a mentalidade certa!

O meu ponto? Adoro Sérgio Conceição, o Portista. Estou de pé-atrás com Sérgio Conceição, o treinador. Mas as lágrimas dele de ontem são também as minhas e são também por ele. Sobretudo de raiva, porque voltamos a ser melhores e a perder para uma equipa banal com mentalidade de distrital, sempre a fazer de tudo para se jogar o menos possível, com o habitual empurrão daquela triste figura com o apito na boca. Um nojo de equipa, bem à imagem do clube derrotado que sempre serão.

E então, deve ou não continuar no banco do Porto em 2019/20?

Um inequívoco sim. Porque neste momento é a pessoa em quem eu mais confio para defender o Clube do exterior e de si mesmo. De longe, diga-se. E não estou a ver que possa assumir outro cargo qualquer (havia de ser bonito), pelo que terá de ser no de treinador. E ainda acredito que vai conseguir.

No entanto, meu querido Sérgio, tens de evoluir e depressa como treinador. Alargar horizontes, estudar e testar outros modelos e perceber como e quais se podem aplicar aos jogadores que vais ter à tua disposição. O tempo escasseia, eu sei, mas que não te falte audácia. Se falhares, falha a tentar algo diferente! Não cedas perante a exigência daqueles reforços que consideras fundamentais e não aceites refugo comissionista. Ah, e já agora, contrata um bom psicólogo que nos ensine a ganhar nos penáltis, ok?



Sobre o Clube, vou esperar até perceber exactamente quem mente e quem fala verdade sobre a questão do Fair Play Financeiro, porque algo não bate certo e isto seria demasiado grave para ser tolerado. 



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco