segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

De Racismo e De Hipocrisia


Escrevo sabendo que trilho um caminho perigoso, porque estruturo o meu raciocínio da mesma forma que o pobre coitado do Rui Santos o fez (ontem, em directo no palco da Sic Notícias), começando por me declarar contra qualquer tipo de racismo ou discriminação de outro tipo. Espero manter a lucidez e não acabar como ele, provando-me racista e imbecil.



Portugal é um país predominantemente racista, todos o sabemos. Talvez as gerações mais recentes, dos teens, dos "vintes" e de alguns "trintas" o sejam menos, por força da tecno-multiculturalidade geracional que os absorve desde o berço. Talvez, mas não o tenho por garantido.

Facto é que nós, os dos "entas", estamos impregnados com um perfume de cariz discriminatório, muitas vezes direccionado para a raça mas não só, também por força da mentalidade "português suave" que evoluiu (livremente) desde o tempo colonial. Sempre (ou quase) tácito, implícito, assumido mas nunca reconhecido. E há boas razões para isso.

(Sei que não há boas razões para justificar qualquer espécie de racismo ou discriminação outra, mas acompanhem-me por mais um pouco, por bondade ou condescendência)

Eu sou, em certa medida, praticante de discriminação. Não por acreditar ou defender a superioridade de uma (qualquer) raça face a outra ou às demais, não por pretender evitar o (inevitável) cruzamento de raças (na defesa do "bacteriologicamente puro", como o pateta Santos dizia enquanto tropeçava na armadilha que o próprio subconsciente lhe montara) nem nenhuma das outras baboseiras que nos tentam impingir os Venturas desta vida, nada disso. Nunca, jamais.

Basta ter o mínimo de formação cívica e de humanidade para que qualquer pessoa se situe nos antípodas deste posicionamento, não é sequer nada de excepcional. Mas sou sim um pouco racista, no sentido em que me habituei a ver, ouvir e finalmente replicar, sem sequer me questionar ou reflectir sobre, comportamentos que objectivamente são discriminatórios. Há maldade, vontade de segregar ou inferiorizar alguém nesses comportamentos? Não, não da forma a que hoje se cola instantaneamente o rótulo de "porco racista". 

Exemplifico, sem meias-palavras. Situação vulgar, infelizmente, estar ao volante e um(a) condutor(a) fazer uma asneira cabeluda. Se o condutor for negro, a minha reacção instintiva é a de soltar algo como "és burro, ó preto do caralho??". Eu sei, assim escrito choca ainda mais, mas quem é do Porto ou do norte do país, entende bem a inocência dos palavrões. Esta frase, em si mesma, aparentemente denuncia o óbvio: quando perante a necessidade de insultar/agredir, recorro à palavra "preto" como se de um insulto se tratasse. Porque é fácil, imediato, instintivo. Mas é por ser racista, por acreditar que é pior ser preto do que ser branco ou amarelo? Claro que não, não da forma como pensarão que possa ser os menos avisados/mais desonestos. 

Da mesma maneira, conforme as características "salientes" de quem comete a tal asneira, facilmente mudaria para "és burro, ó gordo do car...??", "és cego, ó caixa d'óculos do car...??", "és burra, ó vaca do car...??" e assim sucessivamente (nem vos conto quando leva o galhardete do milhafre no retrovisor). Até quando se trata de um homem branco, elegante e de boa visão, é fácil e instintivo o insulto "és burro, ó corno do car...??". Sou um Lucky Luke do insulto, eu sei. Mas, no fundo, o que une todos estes "adjectivos" é a diferença que estabelecem perante eles e quem os profere: "tu não és como eu, toma lá que é para aprenderes, já que és um nabo a conduzir". Não é inocente, mas tão pouco é uma discriminação consciente e voluntária. É, na maioria das vezes, apenas um desabafo que alivia a tensão.

Imagino que muitos por esta altura dêem por garantido que sou um cretino altamente preconceituoso e discriminador perante os vários grupos... tipicamente discriminados ("não-brancos", mulheres, obesos, traídos, etc.), em súmula, um candidato natural ao Chega. Na verdade não sou nem nunca serei e seria incapaz de discriminar alguém, de forma consciente e reiterada, que não fosse por critérios objectivos e intencionais como os da boçalidade, da estupidez ou da desumanidade. Já a parte do cretino, deixo à consideração de quem me conhece. Quem quiser ver isto como preto ou branco, ou se é racista ou não se é, que me crucifique (também sou bom a desenferrujar pregos).

No fundo, há preconceito subjacente, obviamente, mas é "benigno", tanto quanto possa ser, pelo menos. Diz que é uma espécie de racismo, este racismo português de Portugal. Não quer matar, mas mói. E sim, deve desaparecer, mas não adianta decretá-lo, terá de ser conscientemente reflectido e afastado.

E isto tudo para chegar a Marega.

Um jogador que me comove, literalmente, pela alergia que têm à bola, como se ambos tivessem a mesma carga eléctrica e se repelissem constantemente. Desespera-me. Tal como muitos outros, diga-se. E ao contrário de uns quantos, que admiro. Como qualquer um que goste de futebol. Mas isso é irrelevante, porque não estamos a tratar de futebol. Eu não gosto do jogador e nem sequer conheço a pessoa. O facto de vestir a azulebranca dá-lhe crédito a meus olhos, logicamente, mas limitado e com juros altos. 

Como já perceberam, não sou fã de Marega. Nem eu, nem muitos milhares de adeptos do Vitória, suponho. E mesmo os que possam ser, num dia em que ele defronta a sua equipa, é normal que desejem que tudo lhe saia pelo pior e - podendo - não hesitem em criar as condições para que isso aconteça. Assobiar, chamar nomes, fazer gestos feios, insultar. Tudo isto é normal nos estádios portugueses - quem disser o contrário, é mentiroso. Normal porque recorrente, não porque correcto ou aceitável.

Mesmo os agora infames "uh uh uh uh uh uh" são "normais", saibam disso ou não. Menos frequentes hoje, é verdade, mas subsistem e vêm pelo menos desde que vou a estádios de norte a sul do país, uns trinta e muitos aninhos bem medidos, na estrada da bola. Quem disser o contrário, mente ou não conhece. Aconteceu e ainda acontece. Menos hoje, repito, muito também por conta das campanhas anti-racismo que o futebol tem promovido e da própria evolução da sociedade.

Ontem, Marega fez questão de nos dizer que não é normal, que não pode ser normal e que ele - em nome de muitos, seguramente - não está disponível para os continuar a ouvir. Eu, que não faço nem me lembro de ter feito os "uh uh uh", senti-me visado pelo seu statement, como se os fizesse também. Porque reconheço que, ainda que mentalmente, já os fiz ou tive vontade de, pelo menos. E porque é uma indignidade, se visto pela perspectiva dele - a única que conta, em minha opinião.

É chocante que em 2020, em Portugal, este tipo de atitude seja ainda "normal" ou normalizada. Reconheço a minha quota-parte de culpa, quanto mais não seja pelo estado de dormência em que me deixo navegar na espuma dos dias. Por isso, desculpa-me Marega, foi mau mas nunca foi por mal. Arrisco-me a dizer que alguns/muitos dos que ontem tiveram aquele comportamento indecente pensarão hoje da mesma forma. Não serei eu a desculpabiliza-los das consequências, com que devem arcar, mas ajudo-os a enquadrar a situação se tal fizer sentido.

Este episódio já serviu para nos pôr, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, a reflectir um pouco sobre o tema. Pelo menos isso teve de positivo, se nada mais. No entanto, aproveitando o embalo, deveria também para nos fazer reflectir sobre a profunda e nojenta hipocrisia que comanda o desporto e em particular o circo mediático que rodeia o futebol em Portugal.

Os moralistas de ocasião, palhaços deste circo, que ontem puseram a sua cara (de pau) mais séria e institucional e fizeram juras de amor a Marega contra o racismo, deveriam ter vergonha do que são e do que representam. Toda essa corja de invertebrados que infecta diariamente televisões, rádios, jornais e redes sociais, sob a capa do especialista, do comentador, do jornalista e do dirigente, estendeu ontem uma das mãos enquanto recarregava a outra com mais pedras para atirar já de seguida, no fundo o seu verdadeiro desporto-rei.

Fazem-se de indignados perante o "caso" Marega, mas andam há anos, décadas, diariamente a espalhar a insídia e a calúnia, a mentir e a omitir, normalmente em nome de um amor cego e sem-vergonha

Perante o encarceramento imoral de um denunciante da mais variada panóplia de crimes que lesam e empobrecem nações e povos, fazer o quê? Apoiam e justificam a imoralidade, apenas porque no meio da lama estará a prova dos delitos do seu slb.

Perante os graves actos de violência perpetrados por delinquentes das claques benfiquistas, semana após semana, em que pessoas são agredidas (crianças e idosos incluídos), bens são destruídos, forças da autoridade são desrespeitadas, ameaçadas e agredidas, fazem o quê? Silenciam, omitem, ocultam, desviam as atenções.

Perante a maior farsa de sempre do futebol mundial, em que o slb corrompe tudo e todos para no fim roubar os títulos, fazem o quê? Glorificam, festejam e ainda gozam com os espoliados, mesmo perante uma infinidade de provas e testemunhos dessa corrupção.

Perante o caso semelhante com Hulk na Luz fizeram o quê? Esgotaram as pastilhas Rennie das farmácias e esconderam-se nas suas tocas, seguindo a preceito o manual do bom verme.

Sabem a diferença entre o que aconteceu ontem em Guimarães e antes noutros palcos portugueses? É que ontem, por força da atitude de Marega e da era da informação instantânea, o caso chegou rapidamente aos quatro cantos do mundo. E se há coisa que o aldrabão pacóvio português não admite é ficar mal-visto fora de portas. Cá dentro, espinha partida, desde que o slb ganhe. Mas se os estrangeiros estiverem a ver, ai que temos de parecer dignos e íntegros.

Nojo, nojo absoluto por esta gentalha, que nada mais tem feito do que destruir a paixão natural com que se vive o futebol em Portugal, sempre com a alto patrocínio de presidentes da repúblicas, primeiros-ministros e secretários de estados dos mirtilos e a conivência transversal a toda a sociedade, desde juízes a magistrados e procuradores-gerais da república, de directores de estações de media a accionistas de referência, de bancários a banqueiros. Tudo em nome de uma doença que putrifica tudo aquilo em que toca, este slb do ladrão de camiões e seus acólitos. Até mesmo o Benfica merecia melhor.

Se o racismo não pode ser tolerado nem relativizado, a hipocrisia também o não deveria ser.

Força Marega!



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




quarta-feira, 13 de novembro de 2019

#ForSama


Sama é uma criança, igual a tantas outras, mas com uma história de início de vida absolutamente aterradora, que facilmente poderia ter terminado ali, no meio de um dos infernos que um punhado de vermes decidiu criar à face da Terra. Como terminou a de demasiadas outras que não tiveram a sua sorte.




Sama, o pequeno anjo que se vê na imagem, é uma criança como eu fui, como as minhas e as vossas - já criadas, nascidas ou ainda por nascer - foram, são ou serão, mas veio ao mundo por entre bombardeamentos, dor, sofrimento, terror e morte. Nasceu em Aleppo, cidade-mártir síria, onde civis inocentes são vítimas do seu próprio regime, dos jogos de poder e da indiferença de todos os demais, que podiam e deviam interceder em seu nome.

Aconteceu em Aleppo e em muitos outros lugares, em muitos outros tempos, e continua a acontecer seguramente neste momento em que escrevo e no momento em que cada um ler este texto. Acontece. Continuam a sofrer e a morrer milhares de crianças, homens e mulheres inocentes, vítimas da loucura de alguns e do desinteresse de muitos mais. 

É a história do mundo, pensarão alguns. De facto, é também disto que é feita a nossa improvável História. Todavia, temos de acreditar que a passagem do Tempo nos faz evoluir e melhorar enquanto espécie e, como tal, não podemos simplesmente ignorar e aceitar que terá de ser sempre assim.

Não tenho, não temos o poder para acabar com isto de imediato - muito provavelmente, nem a disposição de sair das nossas bolhas de felicidade e tentar - mas temos todos a obrigação de ver e de sentir, de princípio a fim, este testemunho que a mãe de Sama filmou durante mais de cinco anos e especialmente durante o cerco de 2016, para que um dia a sua filha pudesse saber de onde veio e porquê.

Não há moral nesta estória, há apenas a vida que fazemos, à rebelia das de encantar. O Homem, capaz do melhor e do pior - e de ambos em cada momento. Não há um final feliz, há sobrevivência e coragem. Já assistir ao documentário não é coragem, não se enganem, é apenas necessidade e agradecimento, pago em uma hora e pico de inquietação e angústia, intercalados com alguns sorrisos de esperança. Uma gota insignificante comparado com o que esta gente experimentou.

Ver #ForSama não vai devolver às mães vazias os filhos que lhes foram roubados, pode até não salvar ninguém, mas é uma obrigação que todos nós temos. Ver, indignar, sentir náuseas, chorar, chorar muito ou simplesmente ver. Obrigar o subconsciente a tornar-se consciente - e sentir aquilo que diariamente sabemos que acontece mas que, por mecanismos de auto-defesa, nos forçamos a ignorar.

Como de forma muito bela se pode ler no site oficial, For Sama é uma carta de amor de uma jovem mãe à sua filha recém-nascida. Vejam, pela vossa humanidade. Vejam #ForSama e passem a palavra, por amor aos nossos filhos.


Lápis



sábado, 2 de novembro de 2019

Não Te Fines, @CoachConceicao


Este é um momento da vida do Clube especialmente cansativo para o Portista sofredor e desinteressado de outra coisa que não seja o seu sucesso desportivo e a sua viabilidade futura.




Cansa assistir passivamente ao delapidar de uma obra ímpar por parte de uma direção virada para si mesma e capturada por parasitas. Cansa ver a equipa principal de futebol jogar sem eira nem beira, sem se descortinar um plano de jogo minimamente eficaz e em que os jogadores acreditem e pelo qual deixem a pele em campo. Cansa ainda ler e ouvir imbecis de toda a espécie a debitar cartilhas várias, frustrações e ignorância sob a capa da liberdade de opinião. 

Quem duvidar da minha gratidão e apreço pelo nosso treinador Sérgio Conceição, só tem de visitar ou revisitar boa parte dos últimos dez textos deste blogue. Para mim, Conceição será para sempre um dos heróis deste extraordinário clube a que o mais iluminado de todos teve o bom gosto de apelidar de Futebol Clube do Porto. Do meu Porto. Conceição, praticamente sozinho, pegou num grupo descrente de acomodados e proscritos e fez-se campeão, evitando o objectivo máximo da corja vigarista sem-vergonha, o penta que é só nosso.

Nunca me esquecerei das condições em que chegou, mais um numa extensa lista de tentativas falhadas, para reabilitar por artes mágicas aquilo que a direção indecorosamente paga foi sendo incapaz de fazer: lutar pelo Clube. Nem dentro, pela incapacidade de reassumir o sucesso como o objectivo primeiro (já nem peço único), cedendo a interesses que nada interessam ao FC Porto. Nem fora, pela demissão do inadiável e inevitável combate à podridão que o polvo sujo instalou no desporto nacional. Virados para dentro, para a perpetuação do poder pelo poder, até ao dia em que, enfim, quando o Presidente já não puder, sejam obrigados a desaparecer na mediocridade ou a mendigar por novas alianças, provavelmente ainda mais medíocres.

Para mim, @CoachConceicao significa resistência, resiliência e coragem. O que fez garantiu o seu lugar ao sol na nossa história, nem que seja apenas por uma época. Provavelmente, apenas por uma época. E esse é o drama que nos atormenta hoje, pelo menos aos que de nós não padecem nem de irremediável optimismo nem de incurável cegueira voluntária. 

Conquistado o campeonato 17/18, o seu percurso tem sido quase sempre a descer. Digo-o consciente da muito boa campanha na Champions que liderou na época passada. Globalmente, soube a pouco, tendo em conta o campeonato e as taças que tão mal perdidos foram. Mas mesmo a própria campanha europeia foi, a meus olhos, muito feliz na forma como decorreu. Na fase de grupos, várias foram as vitórias que facilmente poderiam não o ter sido, tivesse o adversário um bocadinho mais de acerto. Contra a Roma, até o VAR foi amigo... Não retiro uma grama ao mérito do que se conseguiu, apenas sinto que veio aos ombros de muita felicidade em momentos-chave dos jogos. Mais isso que qualidade e segurança de jogo. No entanto, muito positivo, até por se tratar da prova mais importante.

Com isto pretendo ilustrar que aquilo que “pedi” ao treinador na ressaca dos festejos do título e não se concretizou: que o treinador tivesse consciência das suas limitações e conseguisse evoluir (depressa) enquanto... treinador. Nunca tive ilusões (nem seria justo) que Sérgio refinasse a sua personalidade - é a dele, para o bem e para o mal, e faz parte do pacote. Esperava sim - exigia, enquanto adepto - que não se cristalizasse naquela forma “única” de jogar, assente num modelo bruto-dependente que resultou pela surpresa e incapacidade de a “acomodar” em tempo útil por parte dos adversários na primeira temporada (em especial na primeira volta), mas que facilmente se deduzia que mais cedo do que tarde seria neutralizada. Ainda mais porque os próprios intérpretes acabariam por descer do “sobre-rendimento” de 18/19 para a sua normalidade, e disto Marega é sem dúvida o exemplo maior e pior também.

Mesmo assim, mesmo após o autêntico descalabro de resultados desportivos que foi a sua segunda época à frente da equipa, defendi a sua continuidade. Primeiro, porque acreditava que tinha finalmente todas as condições para fazer uma boa equipa assente em novas/diferentes e boas ideias de jogo. Segundo, porque confio mais nele para defender os interesses do Clube do que em qualquer outra pessoa que por lá anda actualmente. E não, não estou a exagerar, é mesmo o que sinto. Se para o lugar dele viesse um “boneco” qualquer, sobretudo para dizer “ámen” a todos os disparates lesa-Clube no mercado de transferências, ficaríamos seguramente num lugar pior do que aquele onde estamos hoje. Disso não tenho dúvidas.

No entanto, estando nós já em Novembro, sem Champions e tremidos na Europa, com 5 pontos já desperdiçados no campeonato e a dois pontos do primeiro, apesar de termos ganho em sua casa, e sobretudo - mais que tudo - pelo terrível futebol que a equipa vai apresentando como regra e não como excepção, começa a ser difícil sobrepor o feito heróico à crueza da realidade pós-título. Objectivamente, a equipa rende pouco e joga ainda menos do que rende. E pior, dá sinais de pouco acreditar na proposta de jogo do seu líder.

Acresce (ou resulta deste estado de coisas) o descontrolo emocional de Sérgio Conceição, já descontado o seu feitio "volátil". Não é aceitável que o treinador do FC Porto diga o que ele disse após mais um jogo paupérrimo na Madeira. Podemos pintar da cor que quisermos, mas não é aceitável. Que posteriormente se tenha desculpado em certa medida, é apenas o mínimo exigível e não apaga o que foi dito.

Até porque fica a sensação de que a “coragem” que lhe sobra para “atacar” uma parte mais fraca e sem capacidade de “defesa” - o tal adepto que o critica, que suspeita, em diferentes momentos, mais ou menos, somos todos nós...- é a mesma que lhe tem faltado para atacar com mais vigor e frequência quem mina e põe em causa o seu trabalho. Árbitros, dirigentes, instituições e adversários manhosos e aparentemente seduzidos pelo lado negro do “jogar para perder” são demasiadas vezes perdoados ou esquecidos por quem tem o palco e a obrigação de exigir que a sua equipa tenha as mesmas condições que os outros na disputa das competições internas. Sim, que não competiria ao treinador esse papel num clube normal, mas... Que quem dirige o Clube já há muito desistiu, todos sabemos e ninguém se parece importar muito com isso; que o nosso aguerrido treinador se esqueça também, faz confusão.

Em jeito de conclusão, renovo o meu apelo ao meu treinador: foco total no que é importante, isto é, no aperfeiçoamento das suas competências técnicas e na denúncia intransigente dos vilipêndios de que vamos sendo alvo, semana sim, semana não.

 - Não vás na onda da época @CoachConceicao, não te deixes finar perdido neste turbilhão em que pareces estar submergido. Pára, respira fundo, reflecte e volta ao trabalho, mas com outros trunfos na manga. Sabes que, na grande maioria, estaremos contigo até ao fim (da época), mesmo que cada jogo seja um bocejo sobressaltado à luz dos nossos leigos olhos. Vai que nós vamos atrás.

Abraço mister.


Por fim, os "imbecis". Aos que nos querem mal, retiro as aspas e nem perco tempo. Têm agenda e já está. Tudo o que lhes possa acontecer de mau será um prazer assistir e nem me importo de contribuir. Preocupo-me sim com os Portistas, que se parecem "cismar" entre os que apoiam incondicionalmente e os que pedem a cabeça do treinador/direcção/qualquercoisaserveparadiscutir, exigindo que todos os demais tomem igualmente partido. Connosco ou contra nós.

Pois permitam que vos diga, meus caros extremistas, estão a ser uns perfeitos idiotas. Nem o mundo é azul ou branco, nem os outros são obrigados a sujeitar-se à vossa postura inquisitorial. Sim, é possível apoiar de forma crítica, nunca incondicional; sim, é possível estar com o treinador e simultaneamente fazer-lhe reparos sempre que se justifica; sim, é saudável duvidar e questionar. E não, não é produtivo estar sempre à espera de um mau resultado para atacar quem não se gosta; não, discordar de quem nos dirige (seja a que nível for) não dá direito a insultar quem pensa diferente; não, não sou obrigado a adoptar nenhum dos extremos só porque vos apetece. Penso, logo decido por mim, a cada momento. Sou do Porto, não sou do Sérgio, nem do Jorge Nuno e ainda menos sou do que quer que seja que vocês queiram que eu seja. Apoio durante, critico se achar que devo antes e depois dos jogos. Vou aos estádios se puder e me apetecer e ninguém tem nada a ver com isso e nunca tal servirá de medida do meu "Portismo" ou de quem quer que seja. 

Não pretendo educar ninguém para além dos meus, mas fica escrito porque desconfio me será muito útil sempre que uma discussão deste género vier ter comigo. Daqui em diante... vão ler se quiserem. Não há paciência. Já cansa.




Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Derrocada do Estado de Direito

Soa a exagero e a frustração. Ainda bem, porque (se um qualquer deus quiser e permitir) será apenas isso: exagero e frustração.



Não me vou debruçar sobre tecnicalidades (que em Português correcto se diz "expedientes legais criados pelo legislador com o exacto propósito de permitir que quem pode se escape"). Quem tiver paciência e sapiência, que o faça. 

A mim apenas me interessa o que o bom-senso me revela - a mim e a qualquer um que o possua, independente de credo, afiliação política ou clubística: hoje, uma vez mais, fez-se tudo menos Justiça em Portugal.

Um resumo muito ligeiro da situação:

- Todos reconhecem (por força das evidências) da autenticidade dos emails;

- Todos sabemos das provas irrefutáveis das violações do segredo de justiça e outros atropelos cometidos;

- Todos percebemos o irrefutável nexo de causalidade entre o benfica dos sem-vergonha e essas violações;

- Todos sabemos que Paulo Gonçalves era um dos dirigentes máximos dos sem-vergonha, independente do estatuto formal.

Corolário: o benfica dos sem-vergonha cometeu crimes gravíssimos que atentam ao Estado de Direito e obrigatoriamente haveria de ter sido punido por isso. No limite, pelo menos os seus dirigentes haveriam de ser responsabilizados criminalmente - e depois, a "justiça desportiva" que seguisse o óbvio caminho.

Sou Portuense e Portista indefectível, como todos os que me leram sabem. Indefectível. O que a maior parte não saberá é que, acima disso, sou um defensor ainda mais acérrimo da civilidade, da solidariedade, da honorabilidade, da Lei e do Estado de Direito democrático.

O que hoje a "justiça" portuguesa confirmou é um atentado mortal a todas estas minhas inabaláveis crenças. Hoje, ainda mais do que antes, temo pelo futuro do país mas - muito mais - pelo futuro dos meus filhos neste país.

Desenganem-se os Portistas, de que isto é apenas e só sobre o nojento polvo encarnado. Infelizmente, é muito mais do que isso. Neste momento do tempo, o benfica sem-vergonha de Vieira é apenas mais um instrumento/faceta de um grupelho mais ou menos visível mas quase sempre inimputável de bandalhos e BANDIDOS (com todas as letras) que se une por e para proveito próprio, em conluio criminoso e execrável para dominar e viver acima da Lei e do Estado, servindo-se deles apenas e só para a persecução dos seus interesses, em detrimento da tal civilidade e da idealizada persecução do BEM COMUM que cabe a um regime democrático.

Isto é uma espécie de desleixo do grupelho que se sente já fora do alcance de qualquer punição e se dá ao desplante de fazer as coisas assim, em plena luz do dia e sem o mínimo de pudor. Falo de juízes, oficiais de justiça, investigadores do ministério público, PGR, mas também de primeiros-ministros, ministros, deputados, dirigentes partidários, empresários, banqueiros e bancários, directores de informação, jornalistas e jornaleiros, que navegam tranquilamente na infâmia, na insídia e na dissimulação e no encobrimento perante o desinteresse e passividade de todos nós pessoas de bem, desde os mesmos magistrados, políticos e empresários até aos mais humildes varredores de rua (que muito prezo e respeito). 

Isto, meus caros, é uma ameaça ferocíssima ao que pensamos ainda existir em Portugal como Estado de Direito. É a subversão completa das prioridades e das missões mais básicas e fundamentais das instituições e organismos que existem com a única missão de assegurar o cumprimento das leis da República e de punir quem não o faz. 

Isto, meus caros, é a abertura da supostamente intransponível comporta da Justiça para permitir passagem de todo o tipo de banditismo e criminalidade. O que se pode seguir ninguém pode antever. Está escancarada a caixa de Pandora (porque aberta já estava há muito) e o que de lá sairá nem Asimov nem Philip K. Dick poderiam imaginar. 

Na prática, isto leva-me a temer que a justiça passe a ser apenas mais um instrumento ao serviço dos bandidos e contra os portugueses. Quem tiver o azar de afrontar os seus interesses, sofrerá as consequências sem hipótese de defesa ou contraditório. Sei bem que soa a exagero profundo, mas acredito piamente que este é um dos caminhos possíveis de serem trilhados daqui em diante. 

Hoje passei a ter sérias dúvidas quanto à justeza da Justiça neste país. Hoje fiquei com a certeza de que não só não é cega, como vê muito bem ao longe e escolhe a dedo os seus alvos. Hoje, mais do que em qualquer outro dia passado, ganhei medo de criar os meus filhos em Portugal. Pode parecer exagero - espero que seja exagero - mas talvez não o seja.

Aceitar, desistir, emigrar, todas hipóteses possíveis e até apetecíveis. Resistir, contrariar e lutar é muito mais complicado, difícil, incómodo e aparentemente impossível: mas é a única solução que nos sobra enquanto cidadãos desta nação que desejámos continuem a ser de Direito. 

QUANTO A MIM E NO IMEDIATO, UMA COISA VOS GARANTO: ANTÓNIO COSTA E A CORJA QUE REPRESENTA NUNCA, MAS NUNCA MAIS.



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Vamos para Nulos


Não esperava voltar a escrever antes de Setembro. De todo. Depois de conhecer os sorteios, fiquei muito confiante de que eventuais desaires iniciais no campeonato (sem sonhar ainda mas a temer o que se veio a passar em Barcelos) seriam amortecidos pela conquista de um lugar na Champions 19/20. 




Se já na época passada, aquando dos oitavos contra a Roma isso aconteceu, era (ainda mais) previsível que Sérgio Conceição, com bênção total da SAD, se focasse em garantir o primeiro e mais imediato objectivo da temporada, mesmo que isso pudesse custar alguns dissabores na Liga do faz-de-conta. É que o campeonato dura nove meses e há salários, prémios e benefícios para pagar entretanto. Havia... ou melhor, ainda há, não sei é se haverá como.

A primeira mão em Krasnodar correu-nos de feição. Um jogo tremido mas q.b. para garantir um nulo, salvo por um lance de felicidade mesmo a acabar. Tudo bem encaminhado, mas longe de garantido. Ainda assim, impossível imaginar o que se viria a passar ontem no Dragão

Pelo meio, uma entrada calamitosa no campeonato. Primeiro e último responsável, Sérgio Conceição. Equipa muito alterada face à da Rússia, sem motivo aparente que não seja a convicção do treinador. E mais certo fiquei quando soube do onze para esta segunda mão: depois de já ter mudado três titulares da Rússia para Barcelos (dois deles do meio-campo, sector fulcral para o funcionamento das equipas como tal), voltou a mudar, desta vez quatro jogadores, incluindo o já caído em desgraça Saravia e duas estreias, Diaz a titular e Nakajima em absoluto.

Isto para dizer uma coisa e concluir outra. Primeiro, é dos livros e do bom-senso que quando se está a construir uma equipa nova é preciso dar prioridade às rotinas e ao conhecimento entre os jogadores, o que não se consegue mudando tanto e tantas vezes o onze titular. Segundo, Sérgio Conceição não tem ideias claras sobre quem tem à disposição e o que quer para a equipa (se tem, pior ainda, porque significa que nada evoluiu em três anos como treinador).

E esta é que é a pergunta fulcral que deve ser colocada: 

O que se passa com Sérgio Conceição? 

Visto de fora e dando eco ao que se diz (em parte confirmado pelo próprio), o treinador recebeu - ainda que tardiamente - os reforços que pediu. Seguramente nem todos são as primeiras escolhas, mas ainda assim escolhas, suas. Deveria estar mais confiante e bem-disposto do que nunca, entusiasmado por poder finalmente trabalhar focado nas suas ideias e com a sua matéria-prima de eleição.

O que se tem visto desde o regresso aos trabalhos é bem diferente, não é? Tensão, rostos fechados, desconforto, postura de acossado. E até o é, pelo corja do costume, mas isso não é novidade. Já foi campeão apesar deles, porquê ceder agora? Tem de haver mais.

Não tenho as respostas, mas tenho - temos todos - os resultados à vista. Bem-vindos à Liga Europa e ao incumprimento do orçamento (venha de lá um já rectificado p.f.).

Podemos sempre optar por pensar que foi uma série de infortúnios que raramente coincidem no mesmo jogo, mas a verdade é que os factos parecem querer demonstrar algo diferente. De nenhum dos três jogos oficiais se pode dizer que a equipa jogou bem. Pior, que a equipa se comportou como tal, que se viram rotinas ou que se detecta alguma evolução no jogo colectivo. Bem pelo contrário.

E se em parte se compreende alguns dos retrocessos pelas saídas do final de época, nem tudo é justificável, até porque os adversários não eram dos mais cotados - longe disso. Mesmo em reconstrução, era exigível muito mais e muito melhor.  Muito melhor.

Sérgio Conceição não está equilibrado e o Clube é que pagou e vai continuar a pagar a(s) factura(s). E agora?

Agora nada, vamos para nulos*. Por um lado, temos um presidente que ainda há dias desejou/comprometeu que Conceição fosse o seu último treinador. Por outro, temos um treinador que termina a conferência de imprensa pós-eliminação a reconhecer que errou mas que faria tudo igual se tivesse a oportunidade. Mind blowing.

Portanto, a solução única que se vislumbra e se aceita é a continuidade de Sérgio Conceição até final da temporada, dê por onde der. Mas mesmo por onde der - se por infelicidade estivermos a 15 pontos do líder em Dezembro, por exemplo. Até Maio, dê por onde der. Comigo a apoiar, concordando ou não com as opções.

E então que cada um tire as suas ilações, a começar pelo presidente Pinto da Costa. Se a época falhar a ponto de não permitir a continuidade do treinador, o presidente terá a obrigação de tirar as devidas conclusões. Fáceis de subentender. Dou uma ajuda: falhar será tudo o que não seja ser campeão e/ou voltar a incumprir com as regras do FPF.

A aposta inicial falhou redondamente. Marcano foi uma má aposta, tal como todas as que visavam o "lucro imediato". Espero que agora haja o mínimo de bom-senso para reequacionar a estratégia desportiva do Clube e dar mais espaço (e tempo) aos bons valores que saíram da formação campeã da Europa de clubes, integrando igualmente as boas contratações que foram feitas. No mínimo, isso, porque, insisto, temos matéria-prima para fazer uma bela(!) temporada.

Uma palavra de admiração e agradecimento para Pepe. Não foi o único, mas foi o melhor, o líder incontestado e inconformado, um monstro dentro de campo a defender, a construir e a liderar. 

O futuro imediato passa pela recepção ao Vitória e pela deslocação ao antro dos criminosos sem-vergonha e é nisso que todos se terão de focar a partir de amanhã. Agora é para digerir e desinchar. E depois voltar a apoiar. Como sempre.



Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco



* Para quem não sabe jogar King, ir para nulos acontece quando o dono da "festa" ou o vencedor do leilão tem um jogo tão baixo que prefere jogar sem trunfo e com o objectivo de não fazer vazas, o oposto do normal em 99% dos jogos de cartas, desde a lerpa à bisca lambida. Eu sei que não faz muito sentido para quem não conhece o jogo, mas aqui está o desafio para aprenderem, que vale bem a pena e distrai das maleitas...