Hoje está a ser difícil começar esta crónica. Conflito de interesses que me dividem ao ponto de hesitar sobre como abordar esta derrota inesperada e difícil de digerir em Paços de Ferreira, encurtando drasticamente a margem de avanço sobre o segundo classificado e deixando-o também a depender de si próprio para chegar ao título. Pode parecer pouco, mas não é.
E então, como é que foi possível perder este jogo?
- Má entrada no jogo (em ambas as partes, por sinal), sem a convicção necessária para mostrar ao adversário que só poderia haver um vencedor e que esse vencedor seria o Porto;
- Tremendo desperdício de ocasiões flagrantes (creio que contei sete, onde se inclui um penálti);
- A falta de profissionalismo e de vergonha na cara de treinador e jogadores do Paços, que nunca se preocuparam muito em jogar futebol e apenas se concentraram em que nós não tivéssemos a possibilidade de o fazer;
- Más opções de Sérgio Conceição para aquele campo e aquela meteorologia, mesmo se muito condicionado pela terrível onda de lesões que nos assola desde o início de 2018.
Apesar da ordem de listagem, o motivo que me parece mais decisivo foi mesmo o segundo: a tremenda falta de eficácia na altura de finalizar.
Porque mesmo a jogar pouco e durante pouco tempo, sob o signo das opções discutíveis do treinador, conseguimos criar essas sete ocasiões flagrantes. A serem todas concretizadas, teríamos vencido por 1-7 e ninguém se lembraria sequer de mencionas as demais (o anti-jogo do adversário nem chegaria a acontecer). Tivesse Brahimi feito o mais "fácil" e sido concretizada uma outra oportunidade a seguir, a vitória seria igualmente nossa e - mesmo apontando dedos pela tangência da vitória - nenhum dano resultaria deste jogo.
A questão é, como sempre é, que o futebol não é matemática e ninguém consegue prever ou garantir que um jogador vai concretizar ou falhar. Batoteiros e vendidos à parte, é uma questão do momento. Faz parte do jogo e é um dos motivos porque apaixona tanta gente.
O que está errado não é a derrota de ontem na Mata Real. Foi uma pena e seria evitável, mas acontece. O que está realmente errado é que forças estranhas não permitam que estas derrotas aconteçam aos outros candidatos, em particular aos sem-vergonha. Sempre que em dificuldades, algo ou alguém chega para lhes salvar o dia. É a chamada vigarice imensa da Segunda Circular, seja qual for o lado, é sempre a facilitar.
Sobre o jogo propriamente dito, foi daqueles em que senti, desde o início, que tinha tudo para não correr bem.
Primeiro e à cabeça, pela dupla-maravilha cirurgicamente designada para apitar, num inacreditável acto de provocação e gozo. Ter os conquistadores de campeonatos vermelhos Paixão e Xistra a decidir um jogo nosso em simultâneo é o suficiente para a equipa entrar desconfiada e até nervosa.
Depois, a nossa atitude logo desde o primeiro apito. Expectante, macia, pouco afoita e nada impositiva. Mais uma vez, a "dizer" ao adversário que admitíamos qualquer resultado, que tudo estava em aberto. Que saudades de João Pinto, Jorge Costa e... Pinto da Costa. Quando estavam ainda no activo, isto nunca, mas nunca aconteceria, desse por onde desse.
Sérgio Conceição tem esse espírito, ninguém duvida, mas já não joga e como treinador é ainda um work in progress, com preocupações e responsabilidades maiores do que essa. A primeira delas, a de treinar e desenhar a melhor estratégia para cada jogo.
Num campo ensopado e pesado como o de ontem, fez-me confusão que fizesse alinhar tantas "bailarinas" de início, desprezando a importância da fibra e do poderio físico de jogadores como Maxi e Gonçalo Paciência. Não me interpretem mal, aprecio muito o bailado que em condições normais conseguimos apresentar, mas ontem claramente nunca haveria condições para o fazer.
Os da casa sentiram as nossas fraquezas e hesitações e procuraram a sua felicidade, que acabaram por ter (após alguns avisos prévios), ainda o jogo ia no minuto 35. Desatenção colectiva e pouca convicção nas marcações após um canto mal "aliviado" permitiram um cruzamento para uma finalização fácil. Fácil para alguns, como se veio a demonstrar a seguir... Ainda antes do intervalo, Abou não conseguiu o mais fácil e mandou-nos para as cabines em desvantagem.
No regresso, uma entrada incompreensível que permitiu que fosse o Paços a ter os primeiros ataques e lances de algum perigo. Demoramos a pegar na batuta do jogo, mas lá conseguimos chegar ao momento decisivo do jogo: ao minuto 66, penálti por falta sobre Felipe. Constou após o jogo que o marcador designado Sérgio Oliveira acedeu ao pedido de Brahimi para bater. Em péssima hora o fez, porque o argelino decidiu simplesmente passar a bola ao sem-vergonha que estava na baliza pacense.
A equipa nunca mais se recompôs do choque e passou a jogar quase só com o coração. Ainda assim, foram várias as oportunidades desperdiçadas por Hernáni, Gonçalo, Abou e Felipe mesmo a fechar. Oportunidades estas conseguidas no pouquíssimo jogo jogado que houve a partir do penálti falhado, fruto do vergonhoso e descarado anti-jogo dos da casa, sempre devidamente acarinhado por Bruno Paixão.
Resultado injusto numa jornada inglória, muito marcada por uma culpa própria bem acima das alheias. Um tiro no porta-aviões Azul e Branco. Mas foi só um tiro. Podemos ter metido água, mas continuamos operacionais. Que se sigam rápidas reparações em doca seca e o regresso às inevitáveis batalhas ao ritmo deste Mar Azul.
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| Já a treinar para a próxima profissão: caçador de toupeiras |
Notas DPcA
Dia de jogo: 11/03/2018, 20h15, Estádio da Mata Real, FC Paços Ferreira - FC Porto (1-0)
Iker (6): Sem hipótese no golo, esteve bem nas demais intervenções.
Ricardo (5): Terreno complicado para o seu futebol, tentou fazer-lhe frente mas acabou por não ser muito feliz.
Dalot (5): Jogo regular, sem nada que o distinga da vulgaridade. Excepto que é um menino ainda e está a jogar no lado contrário ao seu...
Felipe (6): Talvez o melhor dos nossos, foi pena não ter marcado (outra vez).
Marcano (5): Fez-lhe mal o descanso em Anfield, porque regressou "a frio". Foi cumprindo mas teve algumas abordagens pouco ortodoxas, como a do lance de onde resultou o único golo do jogo.
< 63' André André (1): A-B-S-O-L-U-T-A-N-U-L-I-D-A-D-E. Uma vez mais. "Tem treinador que é cego"...
Sérgio Oliveira (5): Muito trabalho para um homem só? Talvez e disso não pode ser culpado, mas ainda assim soube a pouco no que só a ele lhe dizia respeito, em particular nos lances de bola parada-
< 76' Corona (5): Sem campo para o seu jogo, insistiu em fazer como se nada fosse (talvez por não saber fazer diferente) e naturalmente pouco lhe saiu bem.
Brahimi (4): Foi o homem do jogo pela negativa, ao não conseguir marcar o penálti no momento decisivo. Fora isso, também não foi grande espingarda, não deixando no entanto de tentar e tentar, com e sem bola.
Aboubakar (3): Um dos grandes responsáveis pelo nulo no nosso lado do marcador. Não se pode falhar "tantas" e todas as ocasiões flagrantes como ontem teve. Ele não pode.
< 54' Waris (4): Juro que continuo sem saber o que vale ou o que faz. Juro.
> 54' Otávio (6): A sua entrada coincidiu com o momento em que a equipa "pegou" finalmente no jogo, o que em boa parte se deveu à sua contribuição individual. Não chegou para marcar a diferença em definitivo, mas ajudou a "ligar os motores" que permitiu que se voltasse a criar oportunidades para marcar.
> 63' Gonçalo (6): Também entrou bem, acrescentando muito no sentido em que substituiu um fantasma. Com Otávio a recuar, assumiu posição ao lado de Abou e onde mais fosse solicitado, tendo também ele uma oportunidade (menos flagrante) para marcar.
> 76' Hernáni (3): Esteve em campo o tempo suficiente para demonstrar cabalmente que não cabe neste plantel nem em nenhum outro do Porto. Não dá, lamento.
Sérgio Conceição (4): Perdemos um jogo que jamais esperaríamos perder, fruto da falta de eficácia mas também (possivelmente) das opções iniciais menos acertadas, que acabaram por resultar num jogo pouco intenso e mal conseguido, muito relacionado com todo o tempo que André André se arrastou em campo. Apesar do desperdício, ontem também nos faltou "mais treinador" para conseguir navegar aquele dilúvio de água e anti-jogo.
Outros Intervenientes:
Com a passagem dos anos, até um traste vendido como Bruno Paixão se vai refinando. E não é só porque cada vez tem menos pernas e pulmão para se mexer no campo, é mesmo tarimba adquirida. Agora já não precisa daqueles lances de máxima polémica para brilhar encarnado. Já percebeu que é também nos lances aparentemente inócuos, todos somados, que se vai inclinando o campo e empurrando uma das equipas para o descontrolo mental. Assim, até já se pode dar ao luxo de marcar penáltis a nosso favor. Está um senhor, o Bruno.
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| "Eu sei, eu sei, a mim também me custa marcar, mas o Xistra diz que é descarado... tenham fé..." |
Sim, somos nós quem continua na frente e sim, é melhor estar dois pontos à frente do que dois atrás. Óbvio. O que não se consegue já medir é o impacto que este resultado terá sobre ambas as equipas, nomeadamente quando se depararem com novas situações de dificuldade nos jogos que se seguem e, em particular, nos que antecedem o Clássico da Luz:
O Porto recebe o Boavista, vai a Belém e recebe o Aves;
Os sem-vergonha vão à Feira, recebem o Guimarães e vão a Setúbal.
Em teoria, o Porto tem o seu jogo mais complicado na deslocação ao Benfica R (de Restelo), pela normal dificuldade que sentimos nesse jogo e por tudo o que os da filial vão querer oferecer à casa-meretriz.
Já eles, certamente conquistarão os nove pontos em disputa, por muitas ou poucas dificuldades que venham a encontrar pelo caminho. Há sempre uma mão suja que carrega o andor.
Evidentemente que o campeonato não se encerra no jogo da Luz, seja qual for o resultado, mas uma vitória nossa será passo fundamental para que o campeonato português possa, cinco anos volvidos, voltar a ter um campeão verdadeiro e justo.
Para que isso possa acontecer, é imprescindível chegar à Luz em primeiro lugar. E para isso acontecer, só nos sobra um caminho: vencer os três próximos jogos. Acabou-se a folga, agora é só para homens.
Do Porto com Amor,








