É inútil continuar a falar de fundos e de novos fundos, cada um sempre mais profundo, e de neles bater, um por um, consecutivamente. Por agora, não há fundo à vista. Resta então o abismo.
O Porto, o clube Porto, o meu Futebol Clube do Porto é nesta altura uma faca em queda. Qualquer tentativa de lhe amparar a descida resulta sempre em novos ferimentos, mais ou menos graves conforme a ousadia da tentativa.
Ontem foi dia de fazer uma tentativa "a sério" de parar a queda. Olhando para trás, para a época que agora termina, foi mesmo a mais importante e ousada tentativa de agarrar a faca e reverter o destino. Tão ousada que acabamos, todos nós portistas, esventrados sem dó nem piedade.
Assim que Goiano converteu o penálti decisivo, as tripas e as miudezas começaram de imediato a sair-nos ventre fora, tal a severidade e amplitude do corte infligido. Foi uma coisa linda de se ver, mais de vinte mil portistas a esvaírem-se em sangue, que impiedoso manchou de encarnado o azul da nossa alma. Uma orgia de Walking Dead, em pleno Jamor. Pelo menos, foi assim que eu o (vi)vi.
Os dois números circenses que marcaram o jogo e que só por milagre não nos derrotaram ao fim de 90 minutos, não carecem de qualquer descrição ou tentativa de explicação. Aconteceram por responsabilidade exclusiva dos protagonistas e pronto. Numa final, sobretudo contra uma equipa que nunca quis jogar, oferecer dois golos tende a ser definitivo. E então quando a equipa que os oferece não tem pingo de confiança em si mesma nem ponta de organização no seu jogo, só mesmo um milagre a pode salvar.
Esse milagre aconteceu e dá pelo nome de André Silva. Devidamente ajudado pela crença de alguns dos seus companheiros que se recusaram a desistir antes do tempo, lá nos abriu as portas do prolongamento e com isso, a esperança inequívoca de justamente aniquilar um adversário psicologicamente destroçado. Nesse momento, não houve portista que não sentisse que a Taça iria ser nossa. Mas não foi.
Porque no prolongamento, não houve pernas. Nem alma suficiente. Nem grande vontade de arriscar sofrer a tentar marcar. Mas sobretudo não houve pernas. Porque Aboubakar entrou apenas para estorvar, porque André André esteve (mais uma vez) longe de ser o jogador decisivo de que precisávamos e porque André Silva (já sem pernas) não teve a clarividência necessária para completar o merecido hat-trick. Nos penáltis, ganhou quem não falhou. E o crime lesa-futebol compensou.
Notas DPcA:
Dia de jogo: 22/Mai/2016, 17h15, Estádio do Jamor. FC Porto - SC Braga (2-2; 4-6 após g.p.).
Hélton (0): Culpa maior no primeiro golo e, não satisfeito, quase ofereceu outro. Nem nos penáltis conseguiu a absolvição. Tenho muita estima e apreço por ele, mas neste jogo não merece nada.
Maxi (6): Além de jogar bem na sua zona de acção (e de ser repetidamente provocado e "tocado"), foi um dos que nunca desistiu. Agradecido por isso, mesmo tendo falhado o seu penálti.
Layún (6): Se ao intervalo era o que mais exteriorizava o seu inconformismo, durante o jogo tratou de o demonstrar. Nem sempre com acerto, mas tentou. Agradecido por isso.
Marcano (0): Não sobra ponta de humor para abordar isto. Saída imediata do clube. Sem mas.
< 45' Chidozie (3): Parceiro e cúmplice de Hélton no primeiro crime e disso nunca se recompôs. Era o único jogador que tinha a carreira em risco ontem no Jamor e temo que a possa ter mesmo comprometido.
Danilo (6): O meio-campo inicial não funcionou, tanto pela falta de plano próprio como pelo sobre-povoamento braguista, mas sobrou o seu empenho. Foi mais importante quando recuou para central, apesar de um e outro lance "arriscados".
< 74' Sérgio (5): Escolheu mal o jogo para não estar à altura das exigências. Tinha grandes expectativas para a sua exibição e congratulei-me quando o vi confirmado no onze inicial. Infelizmente andou quase sempre pelos locais errados e quando teve bola, teve pouco acerto. Lutou como sempre, mas não chega.
Herrera (6): Outra exibição mal conseguida, ainda que muito esforçada. Logicamente não lhe cobro nada pelo penalti falhada, mas "q.b." pelo falhanço do meio-campo.
Brahimi (4): Foi o primeiro a sucumbir às dores, o que de facto se enquadra perfeitamente com o que nos habituou. Até lá, muito "agitação" mas quase nenhum resultado positivo. Espero bem que alguém dê alguma coisa por ele, detestava voltar a vê-lo com a minha camisola.
< 79' Varela (5): Nada de relevante em termos da sua produção futebolística, mas enquanto esteve em campo, não deixou de tentar. Mal, mas tentou.
Melhor em Campo André Silva (9): Brilhante, lutador, incansável, lutador, brilhante. E absolutamente decisivo a adiar a derrota. Merecia ter tido a "sorte" de fazer o terceiro e com isso, receber a nota da perfeição.
> 45' Rúben (7):
Entrou bem no jogo e achei a sua acção a "seis" (mesmo não sendo um) melhor do que a de Danilo. E porquê? Porque o Braga não quis jogar e com isso, sobrou-lhe mais tempo e espaço para pensar na saída com bola. Não foi brilhante, mas foi portista. E isso tem valor.
> 74' André André (5): Entrou a quinze minutos do final e ajudou ao assalto que culminou com o golaço do seu homónimo. No entanto, depois disso, esperava muito mais dele. Estava fresco e tinha "obrigação" de carregar a equipa (que pergunte ao pai como se faz) para o terceiro golo que nos salvasse do mata-mata final.
> 79' Aboubakar (1): Que entrada miserável. Terá por certo atrapalhado q.b. nos lances dos dois golos de André Silva, admito que sim, mas que diabo, um bidão também atrapalharia. De resto, uma perfeita nulidade. Que miséria.
Peseiro (3): Pode parecer cruel "disparar" sobre um treinador que é forçado a assistir impotente a duas coisas daquelas. Fez-me lembrar aquele senhor de tez escura com a bola laranja na boca em Pulp Fiction... Ele que até escolheu o onze que eu escolheria, excepto Chidozie. Mas, uma vez que tinha alinhado esta "dupla" no jogo anterior, não lamentei a coerência da sua manutenção. Pareceu-me lógica, o raio da batata. Ele que até teve que defrontar um adversário que não queria jogar. Pode parecer cruel... mas é da mais elementar justiça. Peseiro é um absoluto flop. No fundo, personifica na perfeição o que é ser do Sporting - que é a antítese de ser do Porto. Desde que chegou, mesmo descontando as imensas dificuldades que encontrou, quase só fez cagada. Ontem não destoou, apresentando mais uma vez onze jogadores que aparentavam não fazer a mínima ideia de como jogar em conjunto. E isso só pode ser responsabilidade do treinador.
Quanto ao Braga, divida-se a "coisa" em dois planos.
Primeiro que tudo, sinceros parabéns a todos os braguistas, que por esta altura ainda saboreiam esta grande conquista (em módulo) do seu clube. Aos demais, aos bracarenses lampiões (infelizmente ainda em maioria), que se afoguem na saliva da sua pequenez. O Sporting Clube de Braga venceu a Taça de Portugal frente ao Futebol Clube do Porto e os seus verdadeiros adeptos só têm que se congratular com isso. Nada mais. De novo, parabéns.
Depois, esta equipa do Braga que venceu a Taça. Como nos demais jogos em que nos defrontaram esta época, foram uma equipinha tacanha, fechada, sem uma ideia e muito menos um plano para nos causar dano. Bem à imagem do seu treinador, que ao contrário do muito que se balbucia por aí, ontem só confirmou o terrível erro que foi a sua contratação para o Porto. Pequenino, muito pequenino. Minúsculo.
Onde e porquê se esconde aquele Braga ousado, que joga olhos nos olhos com os da segunda circular e é invariavelmente goleado, sem ponta de vergonha ou arrependimento? Têm-nos assim tanto respeito (ou coisa pior) que os impede de tentar jogar futebol contra nós? Nem era preciso escacharem-se como contra o Benfica, bastava tentarem jogar.
O anti-jogo que fazem contra nós deveria ser alvo de estudo psicanalítico. Uma das coisas que mais me custou ontem foi ver aquele ordinário, batoteiro e reles "guarda-redes" que me recuso a nomear converter-se no herói do dia. Às vezes, ser miserável resulta. Esta época foram três vezes, e cerca de 10 minutos por jogo no chão, a defraudar todos os que assistiram aos jogos. Mais cedo do que tarde, há-de ter a sorte que merece.
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A época finou-se, graças a todos os santos.
Mais uma vez, sem novos títulos.
Mais uma vez, sem Supertaça para disputar no início da próxima.
Paupérrima, para lá dos meus piores pesadelos. Tal como o mandato já cessado de Pinto da Costa, entretanto reeleito sem oposição.
Muito mal vai o Porto. Mas eu não me esquecerei de quem não deu a cara, quando o Porto deles precisava. E não deixarei que ninguém se esqueça, também.
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De domingo 22 de Maio de 2016, sobram-me duas coisas.
A memória do estupendo apoio que os portistas dispensaram à saída dos jogadores para o intervalo, após um golo oferecido e 45 minutos miseráveis.
E um extraordinário convívio com amigos de sempre, que se estendeu pela noite dentro e que nem o descalabro vespertino conseguiu arruinar. Momentos menos frequentes do que outrora, por motivos de força maior... e melhor. Talvez por isso os valorize mais agora. Obrigado meus amigos, até daqui a nada. Que pena não ser já na Supertaça.
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Neles inspirado (nos meus amigos), deito-me a imaginar um Porto novo. E que este tenha sido mesmo o fundo do abismo. E que Jorge Nuno Pinto da Costa tenha ainda um último sopro de vida clubística e com ele nos consiga devolver ao caminho certo, para também ele sair como merece. Nada tem de mais decisivo nos próximos dias do que a escolha do novo treinador. Que o seu Deus, seja ele qual for, o ajude a escolher bem.
Do Porto com Amor


