Há noites em que realmente vale a pena sair de casa. Especialmente quando as expectativas não são as mais elevadas (sim, sempre elas a comandar o mundo) e mesmo assim, algo especial acontece.
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| Catarina Morais / Kapta + |
E se houve algo especial, como poderia escrever da forma habitual, formatada para jogos em que só acontecem coisas normais?
Poderia discorrer sobre uma táctica teimosa e comprovadamente inapropriada, poderia agradecer à providência divina (*wink wink*) a lesão de Marega para a respectiva correcção forçada e nem assim a mais indicada, poderia até servir-me da estatística para minorar a nossa vitória frente ao RB Leipzig.
Mas não, hoje não.
Hoje vou-me limitar a descrever o que senti, algures na segunda parte, entre o empate sofrido e um pouco para lá do 2-1. Porque, eventualmente soando a pouco, a mim disse-me muito. E fez-me recuar a um passado já algo distante e, na grande maioria das memórias, difuso.
Hoje, esta equipa de Sérgio Conceição fez-me reviver uma das muitas noites nas Antas, de glória e superação, precursoras do estatuto que hoje, orgulhosamente, ostentamos.
Falo daquelas noites europeias caseiras, na minha lembrança tipicamente chuvosas e frias, onde, contra as probabilidades e o clima, um grupo de onze guerreiros (mais dois, se entrassem) fazia das suas e nossas tripas coração, sangue, suor e lágrimas, fórmula secreta da poção que os fazia tombar outros reconhecidamente melhores do que eles.
Sim, é da essência do ser Portista de que vos falo. Do que nos moldou e nos fez aqui chegar a bicampeões europeus e mundiais (sim, mundiais). Aquela fome insuperável de vencer e de, a cada novo jogo, dar mais Porto a Portugal, de sair da nossa pequenez geográfica cavalgando a nossa grandeza de carácter.
Hoje, voltei a sentir algo parecido. E o orgulho Portista a transbordar dos alicerces do meu ser.
Uma equipa que me faz sentir assim, tem de ter qualquer coisa de especial. Tentarei lembrar-me desta noite europeia, sempre que alguma coisa nos correr menos bem. Porque de equipas destas não se pode desistir nunca. Sei que nos vai fazer felizes a todos, muito felizes.
Parabéns, rapazes. E obrigado.
Notas DPcA
Dia de jogo: 1/11/2017, 19h45, Estádio do Dragão, FC Porto - RB Leipzig (3-1)
José Sá (7): Sempre atento, teve o seu ponto alto (e talvez decisivo) ao defender com categoria um livre para o qual dispensou barreira...
Ricardo (7): Foi co-responsável no golo sofrido (parte menor da culpa), mas quase tudo o resto foi de elevada eficácia e qualidade. Cresce a olhos vistos.
Alex Telles (8): Com o seu corpo franzino a dar saliência à cabeça (e corte de cabelo), fez-me lembrar um dos heróis da série Dragon Ball: veloz e ultra-combativo durante os noventa minutos, com tempo ainda para ajudar a decidir, assistindo Danilo para o segundo das nossas contas.
Marcano (8): Impecável. Outra vez e perante adversários bem mais complicados.
Felipe (6): Ficou ligado ao golo sofrido pela quebra momentânea de concentração, mas a exibição é claramente positiva, sendo pedra basilar da muralha d'aço que deteve este habilidoso "exército" alemão.
Danilo (7): Começou hesitante, um pouco à imagem da equipa e do plano do treinador, mas conseguiu encontrar o seu papel no jogo e não mais abdicou dele. Excepto quando foi lá à frente marcar o seu primeiro golo na Champions. Não poderia ter escolhido melhor momento para o fazer, digo eu.
Herrera (8): Sim, sim, mesmo com as habituais patacoadas pelo meio (em menor quantidade, é certo), conseguiu fazer um belo de um jogo, coroado com o golo inaugural, pleno do crer e do querer que tão bem o definem nos dias bons. Enfim...
< 72' Corona (7): Demorou a aparecer em termos ofensivos, mas fê-lo em grande estilo, só se rendendo a um impedimento físico. Mas já antes, andava pelo campo muito concentrado a fechar as portas de entrada do lateral opositor. Muito bem, porque muito útil em todos os momentos do jogo.
< 89' Brahimi (7): Hoje não conseguiu sobressair como noutros jogos, mas nem por isso deixou de ser importante, fosse a atrair alemães que nem mel a moscas, fosse a contribuir com a sua quota-parte defensiva.
Aboubakar (7): Não marcou, mas fez uma belíssima assistência para Maxi galgar terreno e finalizar. Tudo o resto, foi uma missão de luta, muitas vezes inglória mas sempre persistente.
< 13' Marega (-): O jogo ainda estava à procura da música com que seria tocado quando o azar bateu à porta. Aparentemente, por várias semanas. Rápidas melhoras, Mousso.
> 13' André André (6): Outra vez o primeiro a ser chamado a partir do banco, mas desta feita quase a tempo de jogar o jogo inteiro. Entrou dessincronizado do jogo, o que se compreende pelo inesperado da situação e dos próprios ajustes que a equipa sofreu. Mais para a frente, em particular no segundo tempo, conseguiu mostrar alguns atributos que justificam a sua presença no plantel, ao assumir sem mais receios ter a bola nos pés e com ela ganhar metros e espaços.
> 72' Maxi (7): Foi chamado para um inusitado papel de médio direito, embora se tenha comportado muitas vezes como o quinto elemento da defesa, ficando na extrema-direita de Ricardo. O que é certo é que tinha missão bem definida e cumpriu-a a preceito, excedendo-se até ao fazer o golo de ouro (porque selou a conquista dos três pontos e nos deixou em vantagem no confronto directo).
> 89' Reyes (-): Cinco minutos em jogo para ajudar a conservar a preciosa vantagem e assistir "ao vivo" ao golo da tranquilidade.
Sérgio Conceição (8): Penso que escolheu a estratégia errada para o jogo, penso também que teve "sorte" com a lesão de Marega e nem assim escolheu o melhor substituto, mas... quem consegue pôr um grupo de homens a lutar desta maneira por uma causa - que, por sinal, é a minha - tem de ter o meu voto de confiança, pense eu o que pensar. Bem na opção Maxi, em particular na decisão de não mexer na defesa, mantendo Ricardo como o defesa de raiz. Simbolicamente, pelo que conseguiu que a equipa (nos) desse, é o meu eleito para melhor em campo.
Pareceu-me que na entrevista pós-jogo quis dar uma stickada no treinador adversário, quando se referiu a uma das substituições que o alemão fez. Podendo até ser justa (em vários sentidos), era desnecessária e não lhe fica muito bem. É pelas decisões que toma durante os noventa minutos que se deve afirmar e nestes noventa, fê-lo de forma indiscutível. Se foi só impressão minha, peço desculpa pelo juízo errado.
Outros Intervenientes:
Hoje, mais do que a imagem de boa equipa com que fiquei no primeiro jogo, saí do estádio rendido ao inacreditável talento de Naby Keita. Se Forsberg é um grande jogador de televisão, porque aparece normalmente em zonas de decisão, este pequeno grande guineense só se aprecia na sua plenitude em pleno estádio, perante a possibilidade de o ver sem interrupções. E que grande jogador que promete ser: técnica, velocidade, capacidade física e visão de jogo. Bem fez o Liverpool em comprar o seu passe; se assegurar um grande GR e mantiver o grosso do plantel (pois, Coutinho, já sei), será real candidato a vencer a Premier League da próxima época.
Sobre a arbitragem de Ovidiu Hategan, o mais simpático que consigo dizer é que ilustra bem a definição de anti-caseiro, mesmo sem nenhuma decisão crítica errada. Por outras palavras, não foi por ele que os de Leipzig saíram derrotados do Dragão.
Segue-se a recepção ao Belenenses, jogo fundamental para consolidar a liderança no campeonato, antes de nova (e absurda) paragem para Seleções e taça. Com pouco descanso e provavelmente sem Marega nem Corona (mais possível o mexicano, hopefully).
Aproveito para informar que, por motivo de força maior, não haverá Onde Está a Bola? para este jogo, estando no entanto previsto que a normalidade seja retomada já no jogo seguinte.
Do Porto com Amor,
Lápis Azul e Branco










