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sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Agora Que Já Não És
Agora que foste mas já não és, ei-los que dizem que tu é que eras.
Agora que te foste e já não estás, eis que nos asseguram - até a nós, que nem sequer te conhecíamos - que eras tudo o que eles nunca conseguirão ser.
Agora que já não vês, escrevem com fervor sobre como eras bom, infinitamente melhor do que eles e do que nós.
Agora que já não ouves, dizem com solenidade que se foi o melhor de todos. Demasiado cedo, asseguram.
Enquanto cá andaste, mecânico e cinzento como a maioria deles e de nós, nenhum deles se terá lembrado de o escrever. Nem de o dizer. Mais que tudo, de te dizer. Porque, certamente, nessa altura ainda não o eras.
Agora que já não és, estás. Agora que já não estás, és. E serás.
Apaziguador de consciências, inconfessável suspiro de alívio, foste tu e não um deles - nem um de nós. Um infinitesimal aumento das boas probabilidades - nossas e deles - que o subconsciente de cada um aplaude de pé.
Brindemos a ti e celebremos as tuas virtuosas virtudes. Efémeras virtudes. Daqui a nada já nenhum deles voltará a escrever ou a dizer sobre ti, excepto talvez no primeiro aniversário da tua partida. Com sorte, ainda no segundo.
Depois, nada. Extingues-te. Deixas de ser.
Para eles e para nós, claro.
Naqueles poucos por quem vivias, viverás tanto quanto eles próprios. E isso são várias eternidades, mesmo se passageiras.
Vai, podes descansar em paz, tu que já não és, sabendo o quanto eu te lamento.
Dedicado às vítimas inocentes, a todas elas.
Do Porto com Amor,
Lápis Azul e Branco
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
O Fogo e as Cinzas
Sábado foi um daqueles dias por que um homem casado e abençoado com descendência vive e antecipa em silenciosa ansiedade - porque são a excepção, evidentemente. Futebolada com a malta de sempre ao final da tarde, para fazer de conta que ainda somos solteiros e maus rapazes (reforço o "rapazes" no meio de tudo o mais), seguida de um jantar com os mesmos companheiros.
Já de regresso ao balneário após a contenda, chega a notícia inesperada: somos campeões em Hóquei, contra todas as inclinadas probabilidades de que foi feita a recta final da temporada. Um sorriso, daqueles que ficam gravados na aura, muito para lá do momento.
Passagem breve por casa para afinar a indumentária e reunião com a malta para jantar. Para ser mais preciso, com a parte que sobrou entre lesionados, atarefados ou simplesmente rendidos a hora e meia de uma já despropositadamente intensa actividade física. Despropositada? Qual quê? É até que as pernas deixem de obedecer!
Fruto desse despropósito, muitíssimo acentuado pela inusitada temperatura que se fez sentir, o pós-jantar foi mais curto do que o habitual. Deu-se na esplanada do bom tasco onde repusemos as calorias perdidas no jogo. Em triplo, para não arriscar fraquezas no dia seguinte. Boa comida, boa bebida, boa conversa. Tudo entrelaçado e ao ritmo de cada um. A fresca aragem ribeirinha corria suave, justa dádiva após tão grande provação, como que nos preparando, com gentileza, para o merecido descanso que se seguiria em breve. Chegado a casa, vale de lençóis foi o destino quase imediato. Antes, um rápido zapping pelos canais de bola e notícias. Olha, já começam os incêndios. É sempre a mesma merd@. Amanhã logo vejo quantos hectares foram, por hoje está feito. Boa noite.
Nem por sombras.
Hoje, terça-feira, que sei - como sabemos todos - da dimensão da tragédia que se abateu sobre Pedrógão Grande e arredores, não consigo deixar de remoer em várias coisas, uma atrás da outra, sem ordem nem duração especificas.
Os filmes mudos que se formam e reformam na minha mente, ao ver e rever as fotografias e filmagens daquela estrada negra devorada pelas chamas. Os carros, senhores, os carros. O horror indescritível que o seu posicionamento indicia, somado às cruas explicações de quem sabe, com alguma certeza, o que se terá passado. Empalideço.
O bombeiro. Os bombeiros. Esforçando-me para ser propositadamente cruel e invejoso, sou capaz de pensar que "à primeira", muitos vão para se relacionarem, para evitar o tédio, para beber uns canecos, pela adrenalina pura e todos os demais motivos sem nobreza que possam conceber. Mas à segunda, à terceira, à centésima, ano após ano? Não. Só pode tratar-se de uma estirpe especial de seres humanos, muitas vezes também designados por heróis, grandes ou pequenos, mas heróis, todos eles. A minha admiração e gratidão a todos eles, amplificadas pela minha incompreensão da sua matriz. E o meu grave pesar pelos que morreram neste cenário dantesco. Arrepio-me.
Aquele testemunho do homem que perdeu mulher e filhas adolescentes, porque seguiam noutro carro, enquanto ele procurava salvar (e conseguiu) outros familiares. Seguiam em fila, mas perderam-se no fumo e no fogo. Está em choque profundo, possivelmente ainda em negação, só assim se explica a aparente compostura com que relata os acontecimentos. Para ele, a tragédia não aconteceu no sábado enquanto eu me divertia, ria e jantava com amigos. Para ele, a tragédia será um círculo interminável de perguntas sem respostas, de "ses" e "mas", de arrependimento e consolo e de eterno desespero. O verdadeiro inferno, imagino. Dilacero-me.
O que teria aquela família feito no dia anterior? Terão jantado juntos, em família? Ou com amigos? Ou separados, cada um feliz com a sua escolha? Ou simplesmente passaram por mais um dia, perdido no meio de tantos outros? E o bombeiro que não se importou de não se salvar porque havia outros para salvar? E todos os outros, cada um dos que morreram?
Estavam vivos e a viver. Descontraídos e tensos como todos nós, agarrados à tantas vezes falsa esperança de uma vida longa, ainda com muito tempo para fazer muita coisa. E nesses mesmos momentos de normalidade, vinte e quatro horas antes do seu fim, quantos outros seres humanos perderam a vida de forma macabra ou corriqueira mas sempre inesperada? É a crueldade da Vida, feita impiedosamente de inícios e finais. Inícios previstos ou previsíveis, finais sem pré-aviso. Pó.
Não me atrevo a concluir nada, para não banalizar o que não pode ser banalizado. Foram sessenta e quatro vidas que acabaram de forma inesperada neste incidente. No entanto, não sou capaz de conter a pergunta: não há responsáveis?
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Nem por sombras.
Hoje, terça-feira, que sei - como sabemos todos - da dimensão da tragédia que se abateu sobre Pedrógão Grande e arredores, não consigo deixar de remoer em várias coisas, uma atrás da outra, sem ordem nem duração especificas.
Os filmes mudos que se formam e reformam na minha mente, ao ver e rever as fotografias e filmagens daquela estrada negra devorada pelas chamas. Os carros, senhores, os carros. O horror indescritível que o seu posicionamento indicia, somado às cruas explicações de quem sabe, com alguma certeza, o que se terá passado. Empalideço.
O bombeiro. Os bombeiros. Esforçando-me para ser propositadamente cruel e invejoso, sou capaz de pensar que "à primeira", muitos vão para se relacionarem, para evitar o tédio, para beber uns canecos, pela adrenalina pura e todos os demais motivos sem nobreza que possam conceber. Mas à segunda, à terceira, à centésima, ano após ano? Não. Só pode tratar-se de uma estirpe especial de seres humanos, muitas vezes também designados por heróis, grandes ou pequenos, mas heróis, todos eles. A minha admiração e gratidão a todos eles, amplificadas pela minha incompreensão da sua matriz. E o meu grave pesar pelos que morreram neste cenário dantesco. Arrepio-me.
Aquele testemunho do homem que perdeu mulher e filhas adolescentes, porque seguiam noutro carro, enquanto ele procurava salvar (e conseguiu) outros familiares. Seguiam em fila, mas perderam-se no fumo e no fogo. Está em choque profundo, possivelmente ainda em negação, só assim se explica a aparente compostura com que relata os acontecimentos. Para ele, a tragédia não aconteceu no sábado enquanto eu me divertia, ria e jantava com amigos. Para ele, a tragédia será um círculo interminável de perguntas sem respostas, de "ses" e "mas", de arrependimento e consolo e de eterno desespero. O verdadeiro inferno, imagino. Dilacero-me.
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O que teria aquela família feito no dia anterior? Terão jantado juntos, em família? Ou com amigos? Ou separados, cada um feliz com a sua escolha? Ou simplesmente passaram por mais um dia, perdido no meio de tantos outros? E o bombeiro que não se importou de não se salvar porque havia outros para salvar? E todos os outros, cada um dos que morreram?
Estavam vivos e a viver. Descontraídos e tensos como todos nós, agarrados à tantas vezes falsa esperança de uma vida longa, ainda com muito tempo para fazer muita coisa. E nesses mesmos momentos de normalidade, vinte e quatro horas antes do seu fim, quantos outros seres humanos perderam a vida de forma macabra ou corriqueira mas sempre inesperada? É a crueldade da Vida, feita impiedosamente de inícios e finais. Inícios previstos ou previsíveis, finais sem pré-aviso. Pó.
Não me atrevo a concluir nada, para não banalizar o que não pode ser banalizado. Foram sessenta e quatro vidas que acabaram de forma inesperada neste incidente. No entanto, não sou capaz de conter a pergunta: não há responsáveis?
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quarta-feira, 29 de junho de 2016
Soltas de Verão #1
A fundo na Silly Season, destaque ao que de mais relevante (e menos silly) se tem passado.
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| Bruno Sousa |
Começo pelo inevitável, a noite de terror em Istambul.
Já escrevi sobre as idênticas tragédias de Paris e de Bruxelas pelo que não me vou repetir - não que a as mensagens não sejam pertinentes ou não mereçam ser passadas até à exaustão, mas simplesmente porque o caro leitor as poderá (re)ler clicando nos links acima.
Seria hipócrita da minha parte dizer que o sentimento é exactamente o mesmo neste caso e nos anteriores. Não é. Istambul (uma das minhas cidades preferidas) e a Turquia ficam um pouco mais distantes, não geograficamente, mas culturalmente. Os turcos são menos iguais a nós do que os franceses ou os belgas no que concerne ao seu modo de ser e de viver. E por isto, o sentimento de ameaça imediata ao meu dia-a-dia é inferior.
Mas terminam aqui as diferenças. A indignidade, a ignomínia e a covardia são exactamente as mesmas. O grau de inocência das vítimas de ontem é precisamente igual ao das de Paris, de Bruxelas, de Madrid, de Londres, de Tóquio, de Bali, do Iémen, do Iraque, da Nigéria e de todos os cantos do mundo. Precisamente iguais. E por isso, junto-me ao imenso coro daqueles que à distância se solidarizam com as vítimas e as famílias do atentado criminoso de ontem. Days of Fire estes em que vivemos.
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Por cá, é de terrorismo ético que se sofre.
Noticiou o Expresso (que apesar de contar com gentalha reles, também é capaz de fazer bom jornalismo) que um dos nossos estimados governantes optou por manter como residência fixa uma casa que tem no Algarve (onde, segundo o próprio, residia por motivos profissionais até ser convidado para o executivo do bom do Costa) para assim poder beneficiar do subsídio de deslocação. São €735 que o Secretário de Estado Carlos Martins recebe a mais à pala deste malabarismo. Suja-se por pouco, mesmo acreditando na sua versão e consequente diminuição do grau de chico-espertismo. Um entre muitos, certamente. Malabarismos e malabaristas. É disto que esta nação é feita. Ou se não for, pelo menos é por estes que é governada. E isto é que custa realmente absorver e aceitar impavidamente.
A prova mais cabal do conformismo a que este povo (sim, porque a maioria não merece ser distinguida como cidadão, tal o desconhecimento do que é a cidadania) se vetou é a falta de consequências desta denúncia jornalística, carimbada pela inacreditável emenda do senhor secretário de estado. Atente-se nas palavras utilizadas:
"Com a absoluta consciência da legalidade da atribuição do subsídio de alojamento, porque este injusto caso se alastra e com o objetivo de preservar a minha imagem, o bem-estar dos meus, e a normalidade do funcionamento do Ministério do Ambiente, irei, a partir de hoje prescindir do subsídio de alojamento".
Como se o problema fosse a legalidade da questão. Não, senhor secretário, não é. É a imoralidade, o mau exemplo que um governante dá aos seus governados. Quanto à preservação da imagem, esqueça por favor. A única atitude que poderia ter tomado para a preservar seria apresentar a sua demissão. Para que os seus parceiros de governo e futuros governantes ficassem avisados. Como não o fez, a sua imagem passou de "invisível" a "nódoa negra". E porque a culpa nunca morre solteira, obviamente que a imagem do primeiro-ministro António Costa ficou ainda um pouco mais denegrida. Ou reforçada, se preferirem.
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E agora, Hélton.
Terminou com um magro e seco comunicado a ligação de onze anos ao clube. Vá lá que foi conjunto...
Não tendo conhecimento dos factos envolvidos neste desfecho, posso apenas reportar-me ao que consigo observar. Estando NES em funções há já várias semanas, por que raio não tiveram esta conversa há mais tempo, mantendo o guarda-redes na dúvida até ao primeiro dia da pré-época?
Não tendo conhecimento dos factos envolvidos neste desfecho, posso apenas reportar-me ao que consigo observar. Estando NES em funções há já várias semanas, por que raio não tiveram esta conversa há mais tempo, mantendo o guarda-redes na dúvida até ao primeiro dia da pré-época?
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| Adrego Design |
Quanto ao jogador, foi um bom guarda-redes. Não excepcional, mas q.b. para merecer ser titular do Porto durante tanto tempo. São incontáveis as vezes que me fez arrancar cabelos com as suas paragens cerebrais com a bola no pé e escabrosa a dúzia de perus com que nos brindou em momentos decisivos. Mas tudo isto é muito pouco, comparado com onze anos de dedicação à profissão e de grandes (ou suficientes) exibições, semana após semana. Por tudo isto, obrigado Hélton. E a melhor das sortes (o que por definição, implica ser longe daqui).
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Quase de "saída", registo o regresso à actividade de Lopetegui, desta vez cedendo os seus valiosos préstimos ao portento futebolístico que dá pelo nome de Wolverhampton. Vai portanto debater-se com outros génios do futebol moderno como Carlos Carvalhal. Uau. Assim sendo, inauguro aqui o contador "How many days until he gets sacked (again)?".
Termino com uma boa "notícia": todos os que, como eu, têm sido privados de assistir ao Porto Canal pelo facto de serem clientes da NOS vão finalmente poder voltar a fazê-lo, já, já a seguir! No entanto, no meu caso não lhes perdoo. Não isto, mas a "traição" do patrocínio. Assim que ficar esclarecida a questão das transmissões e se, como prevejo, qualquer operador tiver acesso a todos os jogos, mudarei de imediato para a MEO.
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terça-feira, 22 de março de 2016
Uma Civilização à Deriva
Nova vaga de atentados terroristas no coração da Europa, desta vez na cidade que mais e melhor simboliza a nossa determinação de outrora em construir um continente-país. Bruxelas está de luto e com ela, o nosso modo de vida.
Hesitei sobre o título a dar a este texto.
"Os Filhos de Saud" seria apropriado numa tentativa de ir à origem do problema. Al-Qaeda, DAESH, jovens seduzidos por uma "corrente" apocalíptica, tudo aponta para um começo comum. O reino da Arábia Saudita (bem como os estados terroristas do Qatar e E.A.U.) e o wahhabismo, a "religião" ultra-conservadora, extremista e violenta que os define enquanto "nação". Que ninguém no mundo parece estar interessado em resolver de vez, preferindo antes aproveitar para suprimir "temporariamente" as liberdades que nos definem a nós ocidentais.
"Outra facada no coração do Ocidente" levar-nos-ia mais para os efeitos do que para as causas. Para lá do nunca negligenciável sofrimento individual (e choque colectivo) causado, a conclusão mais imediata que retiro da constatação das "nossas" reacções a cada atentado é que os terroristas estão a ganhar esta guerra e nós a perdê-la. Não apenas pela contagem de baixas (meia dúzia de "mártires" têm conseguido ceifar a vida de centenas de inocentes), mas pela disrupção que causam no nosso dia-a-dia. São cidades inteiras, organismos e economias paralisadas durante horas ou até dias.
Optei pelo que se pode ler.
Talvez por ser o que melhor define o meu estado de espírito. Ver as imagens de carrinhos de bebé abandonados no meio do caos que tomou conta da zona atingida do aeroporto de Bruxelas enche-me de uma momentânea raiva incontida, que explodiria certamente ficasse eu face a face com algum dos terroristas. Sem dó nem piedade.
Momentos depois reflicto sobre a minha reacção. Apenas natural, mas que a concretizar-se nada de positivo traria para a resolução do problema.Esta minha contradição acaba por representar o que se passa com as nossas lideranças políticas, entaladas entre a necessidade de agir decisivamente e protecção universal dos Direitos Humanos. E todos os seus interesses egoístas, que tanto contribuíram para que se chegasse a este estado de coisas.
E a incapacidade das sociedades em regenerarem as suas lideranças, de encontrarem dentro de si mesmas homens dispostos a fazer o que é preciso, colocando o bem comum acima do seu próprio.
Não tenho obviamente a presunção de saber como se resolve este problema civilizacional. Mas temo que se não o resolvermos a tempo, ele acabará por nos mudar de forma irremediável. E a deriva poderá acabar em naufrágio.
Com tudo isto e o que se antecipa, o Euro-2016 promete ficar na história pelos piores motivos. Esperemos que não.
Em nota de muito menor relevância, a tradicional tacanhez lusa, contra a qual já deveria estar vacinado mas não estou. Começando nos media, em particular nas televisões, que se desmultiplicam em directos do aeroporto da portela (onde mais?) como se houvesse algum nexo ou causalidade entre este e o de Bruxelas, até que finalmente alguma alma caridosa lhes fez o favor de se esquecer de uma mala algures no aeroporto e justificou a "evacuação parcial" de uma área do aeroporto e mais um directo, desta vez com algum nexo. As intermináveis entrevistas a especialistas em estúdio e a portugueses na capital belga. Uma barbaridade. E acabando no primeiro-ministro, que não conseguiu melhor do que balbuciar meia dúzia de banalidades e disparates. Deus nos ajude.
E termino com uma preciosidade, por coincidência resgatada ontem mesmo do meu "baú VHS", totalmente apropriada aos acontecimentos de hoje. Não necessita de mais palavras minhas, apenas da vossa atenção (redobrada, dada a fraca qualidade do áudio).
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domingo, 15 de novembro de 2015
A leste
Que me desculpem os estimados leitores pela falta de "notícias", mas tenho estado a leste.
A leste do teclado, para começar. Afortunadamente, não sou um espécie de ganso em vias de se tornar foie grás, confortavelmente sentado a escrevinhar em frente ao monitor enquanto um tubo ligado ao esófago me alimenta sem qualquer esforço da minha parte. E me faz engordar o fígado até me matar. Não sem antes me fazer viver dias a fio com dores insuportáveis, é claro. Não sou, sou apenas um ser humano com vida própria e tal.
A leste do futebol também. Não vi o inútil jogo da seleção nem quis saber de detalhes. Perfeitamente inútil. E culpado de outro fim de semana sem futebol a sério, pelo que não lhe perdoo. Na mesma onda, também não vi os jogos do play-off de apuramento para o Euro 2016 - mais justificáveis mas igualmente culpados. Vi o Argentina - Brasil para desanuviar das tristes novas do momento. Não consegui, mas sempre assisti a um dos mais entretidos e movimentados superclássicos de que tenho memória. Não se jogou muito bem, mas jogou-se muito. E houve molho, que lhe deu aquele gostinho especial.
A leste da compreensão.
Tinha planeado escrever sobre a situação política nacional enquanto o futebol não regressa. E ainda o farei, certamente. Quando sexta passada me preparava para me arrastar do sofá até ao posto de escrita, vi um tweet sobre o amigável França-Alemanha que havia sido interrompido por suspeita de bomba. Cativou-me a atenção e fui até ao canal apropriado. A Sky News, obviamente. E depois a CNN. E a France24, a Al-Jazeera, o Euronews, a RAI News. E também, nos intervalos para publicidade, os canais nacionais. Fiquei irremediavelmente colado ao "pequeno" ecrã.
Porquê?
Com que finalidade?
Quem é que está a produzir estes monstros e qual a nossa quota-parte de responsabilidade nisso?
Fartei-me (literalmente) de ler e ouvir idiotas e mentecaptos a justificarem o injustificável e, pior ainda, a explicarem motivos e oferecerem soluções, um 2-em-1 de estupidez e ignorância, muito aproximado do nível dos assassinos que semearam o terror por Paris na sexta passada.
As redes sociais, essa enorme rede de esgotos do atraso civilizacional humano. Como se já não bastasse o degradante resultado offline do nível geral de ignorância e boçalidade que caracteriza a imensa maioria dos seres humanos que poluem e delapidam este nosso belo planeta, de repente "demos-lhes" um meio que tem tanto de fácil como de covarde para nos presentearem, a cada segundo, com diarreia mental atrás de diarreia mental.
Regra geral sou tolerante, importa dizer. Procuro não ler comentários de ninguém a nada (excepto aqui no blogue), mas se por acaso me distraio e cedo à tentação, costumo ainda assim refrear o meu instinto primário de baixar muitos níveis e responder à letra. E então se se tratar de futebol, até me consigo rir de tanta boçalidade junta.
Regra geral sou tolerante, importa dizer. Procuro não ler comentários de ninguém a nada (excepto aqui no blogue), mas se por acaso me distraio e cedo à tentação, costumo ainda assim refrear o meu instinto primário de baixar muitos níveis e responder à letra. E então se se tratar de futebol, até me consigo rir de tanta boçalidade junta.
Hoje não. Desde sexta passada que não. Ainda não.
É absolutamente verdade que antes e desde então se passaram no mundo coisas piores. Certamente até enquanto escrevo este desabafo. Piores na quantidade e na qualidade da demência humana. Perdão, desumana. Mas não é por isso que desvalorizo os ataques de Paris. Contextualizo apenas. Se é certo que hoje a dimensão das tragédias se mede muito pela quantidade de vítimas, também não é errado dizer que é uma medida incompleta. É que se por um lado tendo a valorizar todas a vidas de igual forma, por outro sinto necessidade irreprimível de acrescentar atributos e contextos que as ordenem e diferenciem entre si. No entanto, há sempre um elemento comum que me (nos, certamente) transtorna: os inocentes. Inocentes nesse incidente fatal, obviamente. Não faço ideia se nas suas vidas foram abnegados altruístas, sacanas da pior espécie ou qualquer coisa pelo meio. Quase sempre qualquer coisa pelo meio, é igualmente certo.
Os actos terroristas de sexta passada em Paris foram cometidos por gente que não compreendo. Honestamente. Mesmo considerando que "a ignorância é a mãe de todos os males" (Rabelais), não consigo compreender o que leva indivíduos deste século, nascidos e criados na nossa civilização ocidental, a abdicarem radicalmente do uso do seu intelecto e com isso, das suas próprias vidas, em nome de uma "causa" repleta de falsidades e com isso destruir aleatoriamente o máximo de vidas que conseguiram nos seus últimos instantes de vida. É assombroso. É assustador. O que lhes terão feito? Por que situações terão passado ao ponto de aceitarem chegar a este caminho de sentido único? É culpa minha, de alguma maneira indirecta? Se calhar é, mas não consigo encontrar a ponte que me leve ao outro lado.
Seria simples e reconfortante abraçar a mais do que desenvolvida teoria de que nós, ocidentais, somos desde sempre uma "sociedade" egoísta, que apenas se preocupa verdadeiramente com o seu bem-estar, em nome do qual explora sem escrúpulos as demais "civilizações", supostamente mais atrasadas no seu processo de desenvolvimento. E que inevitavelmente esse egoísmo nos haveria de trazer a este ponto, porque a miséria e o desespero são sempre excelentes pontos de recrutamento de pessoas dispostas a tudo, precisamente porque nada têm ou tudo perderam.
A obscena opulência a que possam assistir à distância enquanto os seus próximos e queridos padecem pela falta de um pedaço de pão ou de um banal medicamento é de facto um poderoso desinibidor, que erradamente manipulado por gente que já por lá passou ou apenas vive à custa disso, se transforma finalmente num colete-bomba a disparar uma Kalashnikov de forma indiscriminada.
Seria simples e reconfortante, mas não esclarecedor. Porque faltam peças no puzzle.
Primeiro, porque não é linear que alguém desesperado perca o discernimento ao ponto de querer inflingir igual sofrimento a pessoas inocentes. E sim, eles sabem que são inocentes, por muito que os seus "treinadores" lhes contem uma data de patranhas, de índole religiosa ou outra qualquer. Podem não querer "ver", mas sabem. E isso é, pelo contrário, um poderoso desinibidor.
Segundo, porque não explica a existência dos instigadores, essas vastas redes de recrutamento e treino. Podem ser eles próprios vítimas da sua realidade, mas daí a dedicarem a sua existência a fazer mal a inocentes através de outros inocentes - onde, à partida, todos perdem - vai uma grande distância. Não pode ser nem apenas nem sobretudo por isto. Lamentavelmente, os motivos serão ainda mais reles. A ganância.
Terceiro, porque entre as fileiras dos jihadistas de hoje contam-se muitos "ocidentais". Ainda que tenham ascendência em países muçulmanos (só uso esta expressão por falta de uma melhor para os caracterizar num grupo uniforme), já nasceram em França, Alemanha, Inglaterra ou noutro qualquer país ocidental. E lá foram "criados" e supostamente "aculturados". Só que não foram (muitos deles). Este é um problema já há muito identificado e que está a gerar terroristas nascidos nos nossos quintais: a não integração plena e consequente marginalização das comunidades imigrantes, mesmo após várias gerações. Mas muitos simplesmente se tornaram delinquentes, gangsters, etc. Dentro de casa. O que os leva "agora" a entregarem-se nas mãos dos seus irmãos de sangue, deslocarem-se para os campos de treino e regressarem para matar os seus concidadãos? Dar emoção a uma vida fútil? Fazer cumprir uma qualquer profecia adulterada? Levar ao extremo o conceito de jovem rebelde? Não sei. Mesmo. Mas como acredito que todos sejam providos de massa cinzenta - por muito pouca que possa ser - qualquer explicação será sempre insuficiente.
Não vou desenvolver qualquer teoria sobre o que pretendem os ordenantes de mais um massacre. Já há demasiados doutores e idiotas (e doutores idiotas) a fazê-lo, basta dar um pontapé no Google que caiem centenas de uma vez só. No entanto, para mim é claro que, seja o que for, falharão. Nós, ocidentais, podemos ser gatos gordos como Bono Vox um dia disse (ainda que referindo-se a uma minoria de muito, muito gordos) e com isso estarmos acomodados ao nosso conforto. Mas que ninguém pense por um segundo que alguma vez abdicaremos do nosso modo de vida e das nossas tradições por mais terror que espalhem no nosso seio. Transtorno, rupturas, dor. Tudo isso é inevitável. Mas no fim prevaleceremos. Sem dúvida.
Mas tal não nos deve inibir de começar já a reparar os muitos erros que temos cometido a lidar com outros povos e civilizações. Não pode ser a força das armas a impor o que quer que seja, está mais do que provado que nunca resulta, em lugar nenhum. Terá de ser a força das ideias, devidamente abraçadas pela solidariedade e pela compaixão, que definitivamente nos impeçam de desfrutar do nosso conforto alheios à miséria que nos rodeia. No outro lado do mundo, noutro continente, noutro país e já agora, à porta de nossa casa.
Termino com sentida homenagem a todos os inocentes que perderam a vida e aos que os perderam a eles, na passada sexta em Paris. Extensiva a todos os inocentes de todas as raças, credos e convicções, que já sofreram, ainda sofrem e virão a sofrer. E fico a pensar: por eles, serei eu capaz de pegar numa arma e matar os culpados sem hesitar? Empalideço com a resposta.
Tenho perfeita consciência de ter escrito sem grande nexo de causalidade bem como de não ter ordenado as ideias para as tornar mais compreensíveis. Nem sequer vou reler, confesso. Que me desculpem os estimados leitores, mas hoje sou eu que preciso da vossa compreensão.
Do Porto com Amor
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