Do Porto com Amor: A leste

domingo, 15 de novembro de 2015

A leste


Que me desculpem os estimados leitores pela falta de "notícias", mas tenho estado a leste.




A leste do teclado, para começar. Afortunadamente, não sou um espécie de ganso em vias de se tornar foie grás, confortavelmente sentado a escrevinhar em frente ao monitor enquanto um tubo ligado ao esófago me alimenta sem qualquer esforço da minha parte. E me faz engordar o fígado até me matar. Não sem antes me fazer viver dias a fio com dores insuportáveis, é claro. Não sou, sou apenas um ser humano com vida própria e tal.

A leste do futebol também. Não vi o inútil jogo da seleção nem quis saber de detalhes. Perfeitamente inútil. E culpado de outro fim de semana sem futebol a sério, pelo que não lhe perdoo. Na mesma onda, também não vi os jogos do play-off de apuramento para o Euro 2016 - mais justificáveis mas igualmente culpados. Vi o Argentina - Brasil para desanuviar das tristes novas do momento. Não consegui, mas sempre assisti a um dos mais entretidos e movimentados superclássicos de que tenho memória. Não se jogou muito bem, mas jogou-se muito. E houve molho, que lhe deu aquele gostinho especial.

A leste da compreensão.

Tinha planeado escrever sobre a situação política nacional enquanto o futebol não regressa. E ainda o farei, certamente. Quando sexta passada me preparava para me arrastar do sofá até ao posto de escrita, vi um tweet sobre o amigável França-Alemanha que havia sido interrompido por suspeita de bomba. Cativou-me a atenção e fui até ao canal apropriado. A Sky News, obviamente. E depois a CNN. E a France24, a Al-Jazeera, o Euronews, a RAI News. E também, nos intervalos para publicidade, os canais nacionais. Fiquei irremediavelmente colado ao "pequeno" ecrã.

Porquê?

Com que finalidade?

Quem é que está a produzir estes monstros e qual a nossa quota-parte de responsabilidade nisso?

Fartei-me (literalmente) de ler e ouvir idiotas e mentecaptos a justificarem o injustificável e, pior ainda, a explicarem motivos e oferecerem soluções, um 2-em-1 de estupidez e ignorância, muito aproximado do nível dos assassinos que semearam o terror por Paris na sexta passada.

As redes sociais, essa enorme rede de esgotos do atraso civilizacional humano. Como se já não bastasse o degradante resultado offline do nível geral de ignorância e boçalidade que caracteriza a imensa maioria dos seres humanos que poluem e delapidam este nosso belo planeta, de repente "demos-lhes" um meio que tem tanto de fácil como de covarde para nos presentearem, a cada segundo, com diarreia mental atrás de diarreia mental.

Regra geral sou tolerante, importa dizer. Procuro não ler comentários de ninguém a nada (excepto aqui no blogue), mas se por acaso me distraio e cedo à tentação, costumo ainda assim refrear o meu instinto primário de baixar muitos níveis e responder à letra. E então se se tratar de futebol, até me consigo rir de tanta boçalidade junta.

Hoje não. Desde sexta passada que não. Ainda não.

É absolutamente verdade que antes e desde então se passaram no mundo coisas piores. Certamente até enquanto escrevo este desabafo. Piores na quantidade e na qualidade da demência humana. Perdão, desumana. Mas não é por isso que desvalorizo os ataques de Paris. Contextualizo apenas. Se é certo que hoje a dimensão das tragédias se mede muito pela quantidade de vítimas, também não é errado dizer que é uma medida incompleta. É que se por um lado tendo a valorizar todas a vidas de igual forma, por outro sinto necessidade irreprimível de acrescentar atributos e contextos que as ordenem e diferenciem entre si. No entanto, há sempre um elemento comum que me (nos, certamente) transtorna: os inocentes. Inocentes nesse incidente fatal, obviamente. Não faço ideia se nas suas vidas foram abnegados altruístas, sacanas da pior espécie ou qualquer coisa pelo meio. Quase sempre qualquer coisa pelo meio, é igualmente certo. 

Os actos terroristas de sexta passada em Paris foram cometidos por gente que não compreendo. Honestamente. Mesmo considerando que "a ignorância é a mãe de todos os males" (Rabelais), não consigo compreender o que leva indivíduos deste século, nascidos e criados na nossa civilização ocidental, a abdicarem radicalmente do uso do seu intelecto e com isso, das suas próprias vidas, em nome de uma "causa" repleta de falsidades e com isso destruir aleatoriamente o máximo de vidas que conseguiram nos seus últimos instantes de vida. É assombroso. É assustador. O que lhes terão feito? Por que situações terão passado ao ponto de aceitarem chegar a este caminho de sentido único? É culpa minha, de alguma maneira indirecta? Se calhar é, mas não consigo encontrar a ponte que me leve ao outro lado. 




Seria simples e reconfortante abraçar a mais do que desenvolvida teoria de que nós, ocidentais, somos desde sempre uma "sociedade" egoísta, que apenas se preocupa verdadeiramente com o seu bem-estar, em nome do qual explora sem escrúpulos as demais "civilizações", supostamente mais atrasadas no seu processo de desenvolvimento. E que inevitavelmente esse egoísmo nos haveria de trazer a este ponto, porque a miséria e o desespero são sempre excelentes pontos de recrutamento de pessoas dispostas a tudo, precisamente porque nada têm ou tudo perderam. 

A obscena opulência a que possam assistir à distância enquanto os seus próximos e queridos padecem pela falta de um pedaço de pão ou de um banal medicamento é de facto um poderoso desinibidor, que erradamente manipulado por gente que já por lá passou ou apenas vive à custa disso, se transforma finalmente num colete-bomba a disparar uma Kalashnikov de forma indiscriminada.

Seria simples e reconfortante, mas não esclarecedor. Porque faltam peças no puzzle. 

Primeiro, porque não é linear que alguém desesperado perca o discernimento ao ponto de querer inflingir igual sofrimento a pessoas inocentes. E sim, eles sabem que são inocentes, por muito que os seus "treinadores" lhes contem uma data de patranhas, de índole religiosa ou outra qualquer. Podem não querer "ver", mas sabem. E isso é, pelo contrário, um poderoso desinibidor.

Segundo, porque não explica a existência dos instigadores, essas vastas redes de recrutamento e treino. Podem ser eles próprios vítimas da sua realidade, mas daí a dedicarem a sua existência a fazer mal a inocentes através de outros inocentes - onde, à partida, todos perdem - vai uma grande distância. Não pode ser nem apenas nem sobretudo por isto. Lamentavelmente, os motivos serão ainda mais reles. A ganância.

Terceiro, porque entre as fileiras dos jihadistas de hoje contam-se muitos "ocidentais". Ainda que tenham ascendência em países muçulmanos (só uso esta expressão por falta de uma melhor para os caracterizar num grupo uniforme), já nasceram em França, Alemanha, Inglaterra ou noutro qualquer país ocidental. E lá foram "criados" e supostamente "aculturados". Só que não foram (muitos deles). Este é um problema já há muito identificado e que está a gerar terroristas nascidos nos nossos quintais: a não integração plena e consequente marginalização das comunidades imigrantes, mesmo após várias gerações. Mas muitos simplesmente se tornaram delinquentes, gangsters, etc. Dentro de casa. O que os leva "agora" a entregarem-se nas mãos dos seus irmãos de sangue, deslocarem-se para os campos de treino e regressarem para matar os seus concidadãos? Dar emoção a uma vida fútil? Fazer cumprir uma qualquer profecia adulterada? Levar ao extremo o conceito de jovem rebelde? Não sei. Mesmo. Mas como acredito que todos sejam providos de massa cinzenta - por muito pouca que possa ser - qualquer explicação será sempre insuficiente.

Não vou desenvolver qualquer teoria sobre o que pretendem os ordenantes de mais um massacre. Já há demasiados doutores e idiotas (e doutores idiotas) a fazê-lo, basta dar um pontapé no Google que caiem centenas de uma vez só. No entanto, para mim é claro que, seja o que for, falharão. Nós, ocidentais, podemos ser gatos gordos como Bono Vox um dia disse (ainda que referindo-se a uma minoria de muito, muito gordos) e com isso estarmos acomodados ao nosso conforto. Mas que ninguém pense por um segundo que alguma vez abdicaremos do nosso modo de vida e das nossas tradições por mais terror que espalhem no nosso seio. Transtorno, rupturas, dor. Tudo isso é inevitável. Mas no fim prevaleceremos. Sem dúvida. 

Mas tal não nos deve inibir de começar já a reparar os muitos erros que temos cometido a lidar com outros povos e civilizações. Não pode ser a força das armas a impor o que quer que seja, está mais do que provado que nunca resulta, em lugar nenhum. Terá de ser a força das ideias, devidamente abraçadas pela solidariedade e pela compaixão, que definitivamente nos impeçam de desfrutar do nosso conforto alheios à miséria que nos rodeia. No outro lado do mundo, noutro continente, noutro país e já agora, à porta de nossa casa.


Termino com sentida homenagem a todos os inocentes que perderam a vida e aos que os perderam a eles, na passada sexta em Paris. Extensiva a todos os inocentes de todas as raças, credos e convicções, que já sofreram, ainda sofrem e virão a sofrer. E fico a pensar: por eles, serei eu capaz de pegar numa arma e matar os culpados sem hesitar? Empalideço com a resposta.


Tenho perfeita consciência de ter escrito sem grande nexo de causalidade bem como de não ter ordenado as ideias para as tornar mais compreensíveis. Nem sequer vou reler, confesso. Que me desculpem os estimados leitores, mas hoje sou eu que preciso da vossa compreensão.



Do Porto com Amor


1 comentário:

  1. Perdoem-me os leitores, mas hoje estou consternado.
    E subitamente, os sportinguistas são os maiores defensores dos árbitros #hipocrisia

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