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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Like a Boss


Normalmente não dou eco a este tipo de coisa, mas desta vez é demasiado bom para deixar passar. Além disso, o Porto só joga sexta.




O bom do Thomas Müller questionou o interesse de a Alemanha ter que defrontar a seleção de San Marino (São Marinho para os amigos) logo após o 8-0 com que encerrou o embate entre ambas.

Percebo a ideia. Um jogador profissional do mais alto nível não vê "utilidade" em defrontar equipas compostas por amadores, incomparavelmente inferiores e que mais não podem fazer do que "defender e jogar duro".

Só há um pequeno senão: o futebol de seleções é possivelmente o único que ainda encerra em si um bocadinho do espírito original do foot-ball, aquele desporto puro, viril e orgulhosamente igualitário, popular, inclusivo e amador (dos e para os que o amam).

Daí à resposta de Alan Gasperoni, um orgulho jornalista e dirigente desportivo são-marinhense, foi um pequeno passo. Mas que passo! Uma resposta à letra, com todos os pontos relevantes e alguns extras, uma verdadeira delícia, mesmo no meio das nalgas da tradicional arrogância alemã. Like a Boss.

Segue-se sem mais demora a minha tradução da resposta de Gasperoni (já agora, as traduções que vi são miseráveis, começando logo com a dos lampiões do zerozero.pt).


"Estimado Thomas Müller, tens razão tu. Jogos como o de sexta à noite são inúteis. Para ti.

Por outro lado, tu não tens necessidade de vir quase de borla até San Marino, num fim-de-semana em que não há "Bundesliga", quando podias estar sentado no sofá com a tua esposa na tua casa luxuosa, ou talvez, podias ter ido a um evento organizado pelos teus patrocinadores e com isso encaixar vários milhares de euros.

Eu acredito em ti, mas permito-me dar-te 10 boas razões pelas quais eu acho que o jogo entre San Marino e a Alemanha foi bastante útil, para que possas reflectir melhor e depois dar-me a tua opinião...

1- Serviu para mostrar que, mesmo contra equipas tão fracas como a nossa, às vezes não consegues marcar. E não digas que não ficaste chateado por o Simoncini [GR de San Marino] te ter negado a possibilidade de marcar.

2- Serviu para explicar aos teus dirigentes (di-lo também a Rummenigge e Beckenbauer) que o futebol não é vossa propriedade mas de  todos os que amam este jogo onde, quer queiram quer não, nós também estamos incluídos.

3- Serviu para mostrar a centenas de jornalistas de toda a Europa que ainda existem jovens à procura dos seus sonhos e não dos vossos cheques.

4- Serviu para confirmar que vocês, alemães, não vão mudar nunca e que ainda não aprenderam com a História que a prepotência nem sempre é garantia de vitória.

5- Serviu para fazer perceber aos 200 miúdos são-marinhenses que assistiram ao jogo por que motivo os seus treinadores lhes dizem para darem sempre o seu melhor. Quem sabe se, um dia, todo o seu sacrifício não será recompensado com a possibilidade de disputar um jogo contra o campeão do mundo.

6- Serviu para a vossa Federação (e também para a nossa) receber o dinheiro dos direitos televisivos com o qual, para além de te pagar pelo incómodo, pode construir infraestruturas para os miúdos do teu país, escolas de futebol e estádios mais seguros… A nossa Federação, e vou-te contar um segredo, vai construir um novo campo de futebol numa vila remota chamada Acquaviva. Tu poderias construi-lo com seis meses do teu salário, mas nós vamos fazê-lo com o dinheiro destes 90 minutos. Não é nada mau, pois não?

7- Serviu para um país tão grande como um sector do teu estádio de Munique aparecer nos jornais por um bom motivo, porque o futebol é sempre um bom motivo.

8- Serviu para o teu amigo Gnabry se estrear pela Seleção e marcar três golos. Agora vai poder solicitar ao Werder a renovação do contrato para o dobro do que ganhava até agora.

9-  Serviu para que alguns são-marinhenses um pouco mais tristes se possam lembrar de que temos uma verdadeira seleção nacional. E que até mesmo alguns de vocês, que são quase perfeitos, quando perdem ficam chateados e dão chutos nas coisas, não é?

10- E serviu para me fazer perceber que mesmo quando usas o mais belo equipamento da Adidas, no fundo, no fundo, és apenas o tipo que usa meias brancas por baixo das sandálias.

Com afeto, Alan.
"

Mais palavras para quê? Incha, desincha e passa, Müller...



Lápis Azul e Branco,

Do Porto com Amor