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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Not Sporting Lisbon


Definitivamente, José Peseiro ainda não percebeu onde caiu de paraquedas. Em todo o caso, é bom que seja perspicaz e lesto a fazê-lo, caso contrário terá vida ainda mais curta do que muitos vaticinaram aquando do anúncio da sua contratação.


Impotentes à partida e à chegada. Ou então alguém perdeu o anel.


E pronto. Com esta horrível eliminatória europeia o mister Peseiro fez questão de explicar a todos por que motivo vinha tendo a carreira que todos conhecemos. Por ser pequenino, neste caso concreto demasiado pequeno para estar no FC Porto.

Peseiro, sozinho, perdeu 1/3 desta eliminatória.

Logo na abordagem que fez na antevisão da primeira mão, mostrou-se subserviente, temeroso e não conseguiu descortinar nada mais ousado do que apelar aos jogadores para não se deixarem derrotar por muitos. Disse e cumpriu, com a equipa que apresentou em campo mas principalmente com a forma de encarar o jogo. Mas esse jogo já foi devidamente escalpelizado.

Após um resultado que até se poderia considerar lisonjeiro face à exibição, sobrava esta segunda mão para demonstrar que a primeira tinha sido uma pálida amostra da capacidade desta equipa e, mais importante - muito mais importante do que isso, mostrar aos filhos da Merckel e a todos os que seguiram com infundado entusiasmo este duelo de champions (um sorriso amarelo) que o Porto é, ou melhor, continua a ser um clube especial.

Especial porque não sendo o que tem mais adeptos no país, é o que tem os melhores adeptos. 

Especial porque não tendo tido nunca orçamentos que se equiparem aos "rivais" europeus - onde se enquadra este Borussia Dortmund, nunca deixou de fazer das fraquezas força e minimizar essa décalage financeira com uma atitude insuperável. Sobretudo em casa.

Especial porque tinha o melhor presidente do mundo, que sabia escolher bem com quem se rodear, não hesitando em reparar um erro se assim o identificasse.

Mais uma vez, Peseiro preocupou-me na abordagem pré-jogo. Vamos ter calma, dizia ele. Um jogo de paciência, insistiu. Poderia até ser uma mensagem positiva, se nas entrelinhas não estivesse já o que eu mais temia: uma segunda dose de temor e subserviência. O que se confirmou em pleno.

E depois, entrou em jogo aquela dualidade tão típica do treinadorzinho português: ora encara o papão cheio de medo, ora, em acto de pura loucura, enche o peito de ar e a cabeça de minhocas e desata a reinventar o futebol mundial, promovendo alterações sem fim na equipa base para mostrar a todos quão genial sabe ser. 


"Que merd@ é esta?" pergunto eu...

Tantas foram as vezes a que já assisti a este filme que deveria ser-lhe indiferente. Mas não consigo. E suspeito que nunca conseguirei. Porquê? Porque sou do Porto. E ser do Porto não tolera nunca a cobardia disfarçada de prudência nem a palermice mascarada de genialidade.

Ainda no carro e a queimar etapas para chegar ao Dragão a horas, eis que de repente perco a pressa. Tomei conhecimento do onze inicial. Nem vou perder muito tempo com isto, apenas fazer uma afirmação: não estando Herrera e Brahimi lesionados, não há NADA que possa justificar a sua relegação para o banco. Nada. Fim de conversa.

Excepto, claro, a tal genialidade do portuguesinho, que para evitar que se notem as cuecas borradas decide vestir-se todo de castanho. O problema é que ainda assim tresandava... a medo. E a parvoíce, já o disse?

O jogo foi o que desde então se esperava, pois claro.  

E nem me venham acenar com o golo deles em fora-de-jogo ou qualquer outro erro de arbitragem. O grande erro, o colossal erro foi do nosso treinador. Ponto. Tivessem eles marcado ou não, tivesse o golo sido invalidado como deveria, não acredito que o desfecho fosse diferente. Porque na cabeça dos jogadores já estava bem estampado o carimbo da pequenez e da impossibilidade.

E reparem que por desfecho refiro-me ao deste jogo, nem sequer vou à eliminatória. Essa estava perfeitamente à mercê de ser perdida depois do resultado de Dortmund. O que nunca poderia ter acontecido foi este triste espectáculo de não sermos Porto. De não respeitarmos, uma vez mais, a nossa identidade. E de, enfim, passarmos mais uma triste figura para o palco europeu.

E já agora, mister, os aplausos no final não foram para reconhecer o "vosso" esforço. Aliás, aos 75 minutos começou a debandada do público que, tendo ficado até final, provavelmente não teria aplaudido. Depois, aquela cantoria autista das claques deve ter mais a ver com a recém-descoberta de que poderiam brilhar no Festival Eurovisão de Cânticos do que com satisfação propriamente dita. E por último, se houvesse esforço a reconhecer seria exclusivamente dos jogadores. Tivesse ficado sozinho no relvado e logo veria o que muitos pensaram da sua "exibição".

Lembram-se que comecei por dizer que Peseiro perdeu 1/3 da eliminatória sozinho? Pois, faltam os outros dois terços.


O segundo terço terá de ser evidentemente atribuído, qual medalha cavaca, à SAD na pessoa de Antero Henrique, o arquitecto-mor do nosso futebol profissional. E a Pinto da Costa, pois claro. As ridículas insuficiências de que padece o plantel são de um amadorismo que até há bem pouco tempo se julgaria impossível no Porto. 

Mas, por outro lado, até há bem pouco tempo a SAD não era nem uma sucursal das Doyens desta vida nem um palco de batalha entre Antero Henrique e Alexandre Pinto da Costa, o primeiro a distrair-se das suas responsabilidades para contrariar o regresso do filho pródigo (em disparates), o segundo a fazer um jogo sujo de guerrilha e a minar o mais possível o terreno que o primeiro pisa. Quem permite que isto aconteça é o mesmo de sempre, que também foi responsável pela imensa obra que todos conhecemos. E com tudo isto, perde o clube e perdemos nós, os que sofremos com ele.


Ide em paz e que o senhor dos futebóis vos acompanhe...

O último terço pertence justamente ao Borussia Dortmund, que além de ter uma boa equipa e um bom plantel, é um clube verdadeiramente especial. Como nós costumávamos ser, aliás. Também não são os maiores do seu país (há vários clubes com mais adeptos e mais museu e depois há o colosso Bayern a anos-luz de distância), mas estão seguramente entre os melhores. 

Tive a oportunidade de constatar na Alemanha como o clube está organizado para os seus adeptos nos mais variados pormenores. E claro, nada estranhamente, eles correspondem em campo. Com a maior média de assistências da Europa e com um apoio notável à equipa. E sabem que mais? Não há pipocas mas há pretzels e salsichas. E não é por isso que deixam de estar com a equipa de princípio a fim. E culminando com aquela comunhão entre jogadores e adeptos a que hoje todos (os que ficaram até final) puderam assistir. Não é exclusivo deles, já tinha assistido ao mesmo na derrocada da Munique, mas também não é isso que interessa, pois não? 

Até o seu jovem mas brilhante treinador foi de uma enorme delicadeza no final, não chamando a si ou à sua equipa todos os créditos deste sucesso. Por tudo isto, deixo-lhes os meus sinceros votos de sucesso para o que resta da competição.


Vamos a notas em modo compacto, mas com uma ressalva: quando tudo já estava condicionado pela estratégia, não seria justo penalizar em demasia os jogadores.


Notas DPcA: 


Dia de jogo: 25/Fev/2016, 20h05, Estádio do Dragão. FC Porto - BVB Dortmund (0-1).

Nota (7): Danilo

Nota (6): Casillas, Layún, Maxi, Marcano, Evandro, Marega, Suk

Nota (5): Ángel, Varela, Rúben, Abou, Brahimi, Herrera

Nota (1): Peseiro


Acabo como comecei. Peseiro teve um comportamento absolutamente deplorável na forma como encarou a eliminatória e cada um dos seus jogos. Apesar do primeiro erro, teve hoje uma oportunidade para se redimir. Mas atirou-a pela janela sem hesitar. 

Relembro que desde meados de Dezembro que defendo que a nossa única prioridade deve ser o campeonato (a que posteriormente juntei a taça, pela sequência de resultados). Portanto, nunca lhe iria cobrar o que quer que fosse na Liga Europa... excepto isto! Ser eliminado seria sempre mau, mas nunca dramático - contra qualquer adversário e ainda menos com o favorito dos bookies para vencer a competição. Mas sair de cena enxovalhado e diminuído é que nunca poderia esperar nem aceitar. E foi precisamente o que aconteceu. E isso não lhe perdoo. Caso ainda não tenha percebido, isto não é o Sporting. Isto é o Porto!

Para terminar em beleza, mais uma nota negativa para a política de preços definida para este jogo. A segunda desilusão da noite foi chegar finalmente ao estádio e reparar na grande quantidade de cadeiras vazias. Aparentemente, apostou-se em fazer muito com poucos, em vez de se apostar em encher o estádio através de preços acessíveis. Duplo erro: além de não ter o Dragão em plena força, a receita acabaria por ser a mesma ou até superior. Tanta asneirada num só dia...



Do Porto com Amor


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sem Ambição


Não é o resultado que está em causa. Nem o reconhecimento das dificuldades de Peseiro para montar a equipa.



O que está em causa é este típico miserabilismo luso, esta comiseração que nos consome a ambição. 

Coitadinhos de nós, que não temos defesas, vamos lá tentar não levar muitos como no ano passado. O quê? O Dortmund não vale nem metade desse Bayern? Isso dizem vocês, eu cá tenho muito medo de ser trucidado, ai de mim que sou pequenino! E nem adianta o que me dizem que está a acontecer durante o jogo, que comprova que eles são perfeitamente permeáveis e que perder não é o nosso fado. É sim senhor, só espero que seja por poucos. Ai de mim...

Nao sei se foi assim que Peseiro abordou o jogo, mas pelo menos é assim que eu imagino a abordagem, face ao que assisti. Passar grande parte do encontro atrás, compactos e solidários, parece-me acertado. Não ter ambição para sair em velocidade e de quando em vez, organizados, é que não posso aceitar. O Porto não pode aceitar. Já fomos assim, há muito tempo atrás. Hoje não. Temos pergaminhos na Europa do futebol que nos obrigam a dar-nos ao respeito. Podemos não ganhar e até ser goleados (como qualquer equipa), mas não podemos nem sequer tentar.

Muito mau.


A excelente loja do Dortmund: um case studie para quem tiver interesse


Notas DPcA: 



Dia de jogo: 18/Fev/2016, 18h00, Signal Iduna Park. BVB Dortmund - FC Porto (2-0).


Casillas (6): Jogo com menos trabalho do que seria de esperar. Nas poucas solicitações efectivas esteve bem, ainda que por vezes apenas à segunda tentativa.

Varela (6): Reagiu bem à saída da sua zona de conforto e nem mesmo as naturais dificuldades de adaptação iniciais retiram mérito amuam exibição positiva.

Ángel (6): Como dele espero sempre um desastre, acabei aliviado com a sua exibição. Nada de excepcional mas já lhe vi fazer bem pior. Bem pior.

Layún (6): Mais uma posição na defesa, só lhe falta calçar as luvas e defender entre os postes. Cumpriu razoavelmente considerando todo o contexto.

Martins Indi (7): Foi o melhor defesa, o que aliás seria de esperar por jogar na sua posição, mas foi mais do que isso. Exibiu-se em bom nível e liderou o plano defensivo. E segundo consta, jogou uma grande parte do tempo limitado fisicamente, o que só acrescenta valor a tudo o que fez.

Rúben Neves (4): Uma noite terrível, de enorme desacerto, que chegou a ser confrangedor de assistir. A insondável razão por que continuou em jogo até final, ao passo que Sérgio foi substituído, só Peseiro poderá explicar. Mas duvido que consiga.



O famoso "Muro Amarelo" em acção


<-76' Sérgio Oliveira (7): O início tremido não deixou antever a muito boa exibição que conseguiu realizar. Foi para mim o melhor da equipa, sobretudo pela enorme segurança e confiança com que segurou a bola e a entregou com clarividência aos companheiros. Precisa, merece mais oportunidades. Já no domingo, de preferência.

Herrera (7): Bom jogo do mexicano, mesmo considerando a habitual meia-dúzia de passes obtusos. Esteve em muitos espaços do campo, tentou pressionar alto e ganhou bolas. E até se comportou como um verdadeiro capitão junto do árbitro, pela primeira vez...

Marega (6): A sua presença física marcou pontos e foi importante a espaços, mas um jogador do Porto não pode jogar de olhos no chão, sem identificar onde estão os companheiros. Marega ainda joga assim é isso custou-nos uma não-oportunidade que seria meio golo, uma vez que André ficaria totalmente isolado frente a Burki.

<-59' Brahimi (5): Saiu cedo do jogo e merecidamente. No momento fiquei dividido entre a justeza da saída e o empobrecimento criativo da equipa, mas agora a frio acho que foi uma decisão correcta. Não basta ter talento, é preciso querer pô-lo ao serviço da equipa.

<-88' Aboubakar (5): Num jogo que seria sempre de sacrifício, não conseguiu levar a cabo a sua missão principal. É mesmo sem oportunidades para marcar, teve uma de ouro para assistir - outra vez André, tal como Marega - mas não se apercebeu que o poveiro estava isolado nas suas costas.



Sempre presentes (para o bem e para o mal)


->59' André (5): Notou-se que não estava a 100%, optando por se resguardar sempre que possível. Nunca virou costas ao jogo, mas também não conseguiu acrescentar nada de novo. Se não estava em condições para alinhar de início, qual a lógica de o lançar aos '59?

->76' Evandro (5): Supostamente, teria entrado para dar maior projecção ofensiva à equipa na busca do tão decisivo golo fora. Supostamente. Porque na realidade entrou para não mudar nada. Seja ainda pela lopeteguização a que foi sujeito ou por instruções de Peseiro, a verdade é que não deu o que era preciso.

->88' Suk (6): Normalmente apenas 7 minutos em campo não justifica atribuição de nota, mas não quis deixar de salientar a garra com que entrou e o inconformismo que demonstrou, em oposição com boa parte dos outros jogadores e sobretudo do treinador. Até do amarelo gostei.

Peseiro (3): Sou o primeiro a entender as grandes dores de cabeça que teve para construir o onze. E sim, as responsabilidades moram mais acima. Mas neste jogo não foi isso que esteve em causa. As declarações pré-jogo já deixavam antever esta triste figura que resultou do facto de se ter mais medo de perder por muitos do que vontade de passar a eliminatória. Aceito a postura inicial mas recuso liminarmente que não a tenha alterado com o evoluir do jogo. Tínhamos que ter pelo menos tentado chegar ao empate ou - mínimo dos mínimos - fazer um golo fora. Meu caro Peseiro, no Porto ninguém te perdoa jogar sem ambição de vencer. E de nada valem as palavras se os actos não lhes derem cobertura. Espero que tenha sido uma aprendizagem, para nunca mais se repetir. Muito mau.


Imagem panorâmica do Signal Iduna - excelente estádio!



Outros intervenientes:


É muito interessante ver jogar ao vivo este Borussia Dortmund. Não sei se na TV se consegue descortinar, mas no estádio observa-se uma equipa que joga sem ponta de lança mas com um avançado móvel ladeado por dois "médios", ligeiramente atrasados (sempre a procurar estar entre o nosso meio campo e a nossa defesa) a formar um triângulo muito difícil de marcar, sobretudo dada a presença dos dois alas bem abertos em cada um dos flancos. Desenham um claro 4-1-4-1 sobre o relvado em que se nota uma equipa partida ao meio quando tem a bola. Esses dois "médios" tanto se encostam aos centrais como descem para tabelar e fazer a bola chegar a uma das alas ou criar espaços para progredir pelo meio. Com isto quero reforçar as dificuldades com que os nossos se debateram hoje, para não parecer que estou a desvalorizar a qualidade do adversário. Além de ter Reus, Mhkitaryan e Aubameyang, tem uma bela e eficaz forma de jogar.

Mas que não é impermeável. Bem pelo contrário. Toda a projeção ofensiva tende a abrir grandes brechas para o contra-ataque adversário. Haja determinação para os fazer.

Já o árbitro optou por um critério largo que me agrada de sobremaneira, tendo apenas falhado quando decidiu começar a distribuir cartões usando de dois critérios distintos, com prejuízo para o Porto. Fiquei com dúvidas em alguns fora-de-jogo, incluindo o primeiro golo, mas creio que foi ilusão de perspectiva. Seguramente não foi pela arbitragem.


E assim se abdica de uma eliminatória logo na primeira mão. Evidentemente não é missão impossível, mas muito, muito complicada. Ninguém de bom senso exigiria a conquista desta competição nem sequer a passagem da eliminatória, mas sim a ultrapassar.

Domingo regressa o campeonato, que é o nosso primeiro e último objectivo. E entretanto espero eu regressar a casa...


Do Porto com Amor



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016