Do Porto com Amor: Gran Torino

quinta-feira, 16 de março de 2017

Gran Torino


Não gosto de perder nunca, mas ontem regressei tranquilo de Turim.

À partida, a missão era complicada. Reverter fora uma derrota caseira por dois golos, frente a uma equipa formada por excelentes jogadores e que joga de forma pragmática e cínica, sem ligar patavina ao que as bancadas esperam dela.  


Juventus Stadium

Aliás, as suas bancadas aparentam precisamente já não esperar nada mais para além do resultado. Entram mudos e saem calados, tirando o seu hino, o momento do festejo dos golos, uns segundos a comemorar o apuramento e mais meia-dúzia de momentos durante a partida. Já lá iremos, porque me ajudou a ultrapassar um trauma de infância e preciso de desabafar com V. Exas.

A Juventus entrou pressionante, talvez à procura do golo que sentenciasse de vez a eliminatória (na sua perspectiva). Não o conseguiu e cinco minutos depois já estavam no seu registo natural, organizados atrás, tranquilos, a ver o que o jogo dava, e a procurar explorar de forma fatal toda e qualquer desatenção na nossa defesa.

Daí até à meia hora, o jogo foi equilibrado nos seus equilíbrios, pese uma ou outra oportunidade dos italianos para fazer mossa. Da nossa parte, muito rigor nas marcações e compensações, demonstrando uma lição bem estudada. Faltou-nos fazer entrar o último passe para causar verdadeiro perigo, o que esteve para acontecer apenas uma vez, quando Soares podia ter desviado de cabeça já nas cercanias de Buffon.

Confortável e matreira, a Juve voltou a acelerar no último quarto de hora, conseguindo finalmente desposicionar-nos e criar alguma confusão. Num desses lances, a bola sobrou para Higuaín já em cima da pequena área, após defesa de Iker, que chutou para uma grande defesa de Maxi, que entretanto se havia lançado no ar para tentar parar o remate. Por azar, parou-o com as mãos. Penálti, expulsão, golo e outra vez em inferioridade numérica. Finito.


 

A segunda parte resultou em muito menos sofrimento do que antecipava ao intervalo, porque mesmo tratando-se da Juve, seria natural os seus jogadores ambicionarem "divertirem-se" a jogar e procurarem aumentar o score contra um adversário reduzido a dez homens. Mas não. A Juve, esta Juve, só joga aquilo que precisa. Nem mais um bocadinho, a não ser que a deixem - e nós não deixámos.

Como consequência, houve poucas oportunidades flagrantes de golo, mas, das que houve, duas foram nossas (Soares e Jota) e deveríamos ter concretizado pelo menos uma. Um empate final seria um justo prémio pela bravura e inteligência com que abordamos a segunda metade do encontro. 

Destaco a opção de Nuno ao intervalo, de substituir AS por Boly e despachar Marcano para a lateral esquerda, por troca com Layún. Não gostei no papel (se era para pôr um central a lateral, mais valia Herrera - (...) - por exemplo e manter a estabilidade da dupla de centrais). A verdade é que resultou muito bem, dadas as grandes exibições do francês e do espanhol. Viola ao saco.

Saímos do moderno e muito funcional Juventus Stadium sem ponta de arrependimento e com a sensação que, tendo em conta a valia do adversário e o duplo hara-kiri dos laterais, fizemos um bom trabalho. Aliás, o aplauso com que jogadores e treinadores foram recebidos ao chegarem ao avião demonstra perfeitamente esse sentimento reinante pelos Portistas que lá estiveram. Para o ano há mais.


Azul e Branco é o mundo inteiro (hotel em Turim)


Notas DPcA 

Dia de jogo: 14/03/2017, 20h45, Juventus Stadium, Juventus FC - FC Porto (1-0)


Casillas (7): Parou o que pode, com classe e experiência, passando a ser o jogador com mais jogos na Champions. Tau!

Maxi (4): Vinha da sua melhor exibição da época, em Arouca, pelo que o acto reflexo soube a traição divina. Claramente sem intenção, mas claramente imprudente e bem punido. E nós com dez, outra vez. Antes disso, foi o guerreiro destemido de sempre.

Layún (5): Foi sempre dos jogadores a menos, enquanto estava tudo de igual para igual. Falta-lhe convicção e acerto naquilo que faz, acrescenta pouco, muito menos do que no ano passado.

Melhor em Campo Marcano (8): Eu já "temia" que este dia chegasse, só não supunha que fosse quando jogasse metade do encontro... a defesa esquerdo. Que grande exibição de querer e determinação, adaptou-se de imediato e com benefícios à nova posição, sendo um dos principais responsáveis pela confiança que a equipa (re)adquiriu reduzida a dez. Até acertou umas bem dadas em adversários manhosos, vejam lá. Sim senhor, ontem foi um verdadeiro capitão (vénia).

Felipe (8): Outra enorme exibição, para Real Madrid ver. Uma pena que nos vá deixar tão cedo, se for esse o desfecho. Há que aproveitar então, que daqui só sai campeão! Um monstro papa-avançados no jogo de ontem.

Danilo (8): A classe com que faz sobressair os seus impecáveis domínios de bola, no meio de adversário, por forma a seguir a jogar, quase nos faz esquecer todo o poderio físico que impõe na sua zona de acção. Mais um candidato a sair em breve, para grande, grande pena minha. Grande jogador.

< 70' Óliver (6): Começou um pouco hesitante, mas lá engrenou e foi, de novo, a peça que une jogo defensivo e ofensivo, desta vez com outro parceiro de tarefa. Deu tudo o que tinha até ser (bem) substituído. 

André André (6): Tal como Layún, foi dos jogadores abaixo do expectável enquanto o jogo era de onze contra onze. Pouco esclarecido nas abordagens aos lances, demorou a encontrar o ritmo e o seu espaço. Depois, já com menos um, fez uma boa exibição, assumindo até mais risco na condução da bola e sempre batalhador para a recuperar.




< 67' Brahimi (6): Chegou a ser o paizinho da equipa, o único capaz de descompor a defesa juventina, mas nunca encontrou a inspiração final para o passe de morte ou o golo de artista. Tentou, muito e bem, durante 40 minutos. No regresso do balneário, perdeu naturalmente relevância ofensiva e foi-se desvanecendo até à substituição.

< 45' André Silva (4): Outro jogo para recordar, para que não se repita. Foi sempre o elemento estranho da equipa, desenquadrado com os lances, a decidir mal quando com a bola. Está a precisar de banco para limpar a cabeça - ou então não (de banco), mas a cabeça tem mesmo de ser limpa. Saiu com toda a propriedade ao intervalo (até com onze não seria descabido).

Soares (5): Vou já dar de barato o muito que trabalhou, porque já é essa a expectativa que recai sobre ele. O problema neste jogo foi ter subido à estratosfera para jogar futebol, onde ainda não está habituado a fazê-lo. Nomes como Bonucci e sobretudo Buffon são ainda demasiado absorventes para o Tiquinho, mas conto que na próxima época já os encare de igual para igual.

> 45' Boly (7): O seu melhor jogo pelo Porto, e em que circunstâncias! Rendeu muito bem Marcano no meio, agindo com precisão e determinação. Foi também por ele que a Juve apenas marcou de penálti. Gostei.

> 67' Diogo Jota (6): Voltou a entrar bem, mexeu positivamente com o conforto da Juve e criou-lhes alguns calafrios. Tal como Soares, só não tem melhor nota pela nódoa que caiu no seu melhor pano. É a vida.

> 70' Otávio (6): Não trouxe a criatividade que se esperava, para apanhar desprevenida a Juve num e noutro lance de ruptura, mas vestiu o fato de macaco e lutou ao lado dos companheiros com bravura. Às vezes, é tudo o que se consegue dar.

NES (7): Soa a estranho dar esta nota a um treinador que perdeu o jogo e foi eliminado, mas o contexto e a forma como reagiu dão-me cobertura. Começou logo bem, ao "não mexer" no onze, resistindo a fazer regressar o bom do Héctor. É certo que nunca chegámos a ameaçar de forma credível a baliza da Juve em 11x11, mas estávamos bem no jogo e nunca se saberá se lá poderíamos chegar. Reagiu de forma inusitada à expulsão, conforme já analisei, mas resultou. E daí em diante, continuou a reagir bem, fazendo boas substituições. Merecia que Soares e/ou Jota tivessem feito golo, garantindo assim o empate como prémio de consolação de uma eliminatória onde nunca tivemos a possibilidade de testar os nossos limites (a não ser os físicos). Keep going, mister...


Agradecimento final


Outros Intervenientes:


Esta Juve é de facto uma boa equipa, composta por grandes jogadores. A começar pelo senhor Buffon, passando por Alex e Dani nas laterais e Bonucci no centro (outro nível, não é Soares?) e o jovem Pjaca, que promete dar muito que falar - além de todos os outros craques. Mas o único que se destaca dos demais é mesmo Paulo Dybala, um craque de nível mundial que deixa água na boca só a imaginar o que poderá vir a ser num futuro não muito distante.

Quanto ao conjunto arbitral romeno liderado por Ovidiu Hategan, deu a sensação de não querer aborrecer ninguém em Turim, mas sem perder a compostura e com isso prejudicar notoriamente os forasteiros da Lusitânia. Creio que decidiu bem no lance capital e os erros terão sido de menor relevância.


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Regressando agora ao tema da catarse que a ida ao jogo me proporcionou, devo dizer que desde há muitos anos me sinto um pouco envergonhado pelo tipo de adepto que somos (sim, estou dentro) no nosso estádio: claques à parte (que têm muitos defeitos, mas aqui dão lições a quase todos), o adepto típico vai ao estádio para ver o jogo. Não para apoiar, não para cantar, não para participar no espetáculo das bancadas. 

Não, o típico adepto Portista vai ao estádio para ver o jogo e julgar. Somos todos juízes, conhecedores profundos do tema, e não tarda nunca o primeiro olhar de soslaio ou a desconfiança sobre o que o jogo irá dar. É o jogador que não está ao seu nível (ou nem sequer o tem para cá jogar), é o treinador que não sabe ler o jogo, é o árbitro que é uma besta encarnada. E muitas vezes será, mas a questão não é essa. A questão é saber o que se valoriza mais: o que a equipa faz por nós ou o que nós podemos fazer pela equipa (thanks, JFK).


É os Dragões...


Ora ontem cheguei à conclusão que afinal nada destas aflições se justificam. Nós, os sem-claque do Porto, somos uns grandes adeptos. E as vezes que vamos atrás dos cânticos mais entusiasmantes das claques, mesmo que de forma fugaz, chegam para golear a malta da Juve. É que nem piaram de princípio a fim. Tudo mudo. Tudo mesmo, até as supostas claques, tirando num ou noutro momento, talvez durante 2 ou 3% do tempo, tops. Se calhar estão zangados com a equipa, treinador, direcção ou os Agnelli e é assim que lavram o seu protesto. Se não for isto, não sei: mas nós, Portistas, somos britânicos à beira deles.

Ora, este estado vegetativo dos italianos só serviu para realçar ainda mais o espetacular desempenho das claques e demais adeptos que os circundavam. Verdadeiramente digno de registo, coisa que poucas vezes me viram escrever. Foi goleada das antigas, reconhecida com o aplauso final dos da casa. A encerrar a actuação, houve ainda a recepção no aeroporto. Por esta altura, seguimos mesmo todos juntos, não haja dúvida. Até domingo, pessoal!



Lápis Azul e Branco,

Do Porto com Amor



Nota: o título da crónica é singela homenagem a um grande filme e principalmente ao Senhor que o realizou.




9 comentários:

  1. Muito mérito de NES e da estrutura, apesar de tudo, nesse "todos juntos". E é que estamos mesmo! Make my day!

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    1. Sim, e da bola que entra, e do lampião que perde pontos, e de... pouco interessa o "why", agora é sempre em frente até à meta! Tutti junti!

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  2. No tocante ao capítulo dedicado às substituições, desde que a opção passe pela não utilização de Herrera, resultam sempre.

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  3. Simplificando, como os lagartos, jogaram como nunca, perderam como sempre!

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    1. Há sempres que são um intervalo temporal muito curto, chiça...

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    2. As incidências de cada um dos jogos condenaram-nos a nem sequer poder aspirar a sonhar eliminar uma equipa melhor. Mas a atitude foi boa. Não vejo paralelismo algum com o rasto confrangedor da lagartada na Europa.

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  4. Melhor em campo, Marcano! É isso tudo! Sim senhuare! Chapeau!

    Abraço

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    1. Foi o que os meus olhos viram... apesar das reticências, não tenho problema nenhum em admitir que o Ivan me está a provar errado. Aliás, já sonho com o dia em que vou eleger o Herrera como o MeC :-)

      Abraço

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