Do Porto com Amor: Sporting Lisboa e Benfica

terça-feira, 16 de junho de 2015

Sporting Lisboa e Benfica


Estava eu há dias a deambular por entre estatísticas e curiosidades de campeonatos passados, quando passei os olhos pelas tão glorificadas décadas de 60 e 70 que deram ao SLB a maior concentração de títulos de toda a sua história. Vi um, vi dois, vi três e depois Sporting. Continuei e vi mais um, mais dois, mais três e... Sporting.





Uau, isto é cada coincidência... a não ser que, não me digas que isto se volta a repetir... prossegui e um, dois, três, Sporting... um, dois, três, Sporting... bom, já não pode ser coincidência, quer dizer, já é um padrão, ou estatisticamente falando uma série, cuja probabilidade de ocorrência numa competição justa e livre com 14, 16 equipas é certamente muitíssimo reduzida...

Então afastei-me das árvores e contemplei a floresta do futebol a preto e branco.... parecia natação sincronizada ou melhor, um par de patinagem artística...

Querem acreditar que o padrão se repetiu QUATRO VEZES CONSECUTIVAS e que teriam sido SEIS não fosse pela ousadia do F.C.Porto e pelo final da ditadura?

Convido o estimado leitor a analisar a imagem abaixo. E depois regresse ao texto. E depois à imagem. E por aí fora, até ficar com a fotografia completa.




Comecemos pelo Sporting dos Cinco Violinos, cujo "virtuosismo" dominou a segunda metade da década de 40 e a primeira da de 50. Fazendo fé nos relatos, foi em 46/47 que um tal Robert Kelly juntou em campo o famoso quinteto (Travaços, Jesus Correia, Albano, Vasques e Peyroteo) que levaria o Sporting a uma década de grande dominância em que garantiu o primeiro Tri e o primeiro Tetra da história do futebol luso (na realidade, o tetra já foi conquistado apenas por um ou dois violinos, mas o efeito ainda perdurava).

Seguiram-se umas 4 épocas de alternância estatisticamente insuspeita e chegamos ao famoso campeonato de 58/59, que todos saberão de que se trata apenas com uma palavra: Calabote. Um fenómeno tão escandaloso quanto descarado que acabou por se transformar na designação genérica de arbitragem corrompida: Calabote!

Um campeonato que o Porto ganhou apesar de Inocêncio Calabote (a ironia do nome mata-me), mas que foi o derradeiro aviso à navegação de que tal deslize não voltaria a suceder.

A partir daqui, é tudo a regra e esquadro. Nem na mais socialista das repúblicas (dá voltas na tumba, bafiento) alguma vez se atingiu planificação tão perfeita. A ditadura salazarista tomou finalmente em mãos os destinos do futebol (já tinha tratado do fado e de Fátima), ficando assim definida a nova ordem para os dois maiores da única cidade digna de acolher um campeão: a capital do império.

O futebol passa a ser regido em quadriénios: 1 campeonato para o Sporting, 3 para o clube das massas, dos tesos, dos que precisavam de alguma alegria para se manterem pobres e submissos - o glorificado SLB. De 61/62 a 76/77 temos QUATRO QUADRIÉNIOS PERFEITOS, e não fosse pela incompetência de Calabote, teriam sido CINCO. Não, isto não é uma invenção minha, é o que a história mostra a todos os que não tiverem medo de ver.

Não fosse pela queda da cadeira e pela chegada da democracia, quem sabe quanto mais tempo duraria este pacto de regime?


Nem sei o que é mais triste, se é assistir ainda hoje a gente inteligente e bem formada a abdicar por completo de utilizar as capacidades intelectuais para balbuciar "o Benfica é o Maior" alicerçado neste período, ou se é tentar entender a imensa comiseração dos brasonados leões que os levou a aceitar as migalhas do regime do povo.

Seja como for, isto é apenas a minha interpretação dedutiva.

Há por aí muita gente que jura a pés juntos (e tenta mesmo comprová-lo com "factos") que o SLB era oposição ao regime e apenas Sporting, Belenenses e (pasmem-se) Porto eram "do" regime. Seria caso para pensar quão estranhamente incompetente seria o Sr. Oliveira e a sua PIDE, tão bom a "lidar" com os dissidentes políticos e tão inábil para controlar um mero clube desportivo.

Enfim, é à vontade do freguês.



Do Porto com Amor



8 comentários:

  1. Muito bem apanhado, lápis azul e branco ! - Vamos ver se alguém tem uma explicação para isto...
    Será que era para não quebrar a rima ?

    (desculpe agora perder a compostura, mas são umas verdadeiras bestas! bestas quadradas! Se eu tivesse estes telhados de vidro - ainda que instituídos por obra e graça e decreto parlamentar - andava pianinho, em pontas...
    Porra, há que ser muito besta! )

    ResponderEliminar
  2. Certamente que não faltarão arautos da verdade (desportiva e absoluta) com mil e uma teorias que contradizem tudo isto. Pelo que esta fica registada como a teoria 1002

    ResponderEliminar
  3. Deve ser a isto que eles chamam "verdade " desportiva ,e transparencia a juntar a este padrão o facto de o presidente da federação ser alternadamente do SLB,Sporting e Belenenses.
    Mas o mais preocupante é que há indicios claros que apontam no sentido de se voltar a esses" gloriosos" tempos como se pode ver por o que se passou nestes 2 ultimos campeonatos.

    Saudações portistas
    Paulo Almeida

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sem dúvida que começa a parecer uma tendência, caro Paulo. Mas disso teremos que nos culpar pela inépcia e passividade com que (aparentemente) aceitamos o passar da caravana. Temo que seja o aproximar do fim de um ciclo, que nunca é fácil ultrapassar.

      Eliminar
  4. Excelente apanhado..Parabéns,pena isto não ser divulgado para toda gente ver o que era o futebol português "no antigamente"

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Agradecido caro Pedro, denunciar é um dos propósitos da existência deste Lápis

      Eliminar
  5. Mais um post de fina qualidade. Vou guardar para referência futura.

    Já que vi que temos um gosto comum: estatística.

    Sugiro que dês uma olhadela nisto, Lápis.

    https://twitter.com/playmakerstats

    Nos jogos do FC Porto, divulgam sempre uns números úteis para nos ajudar articular ideias e factos.

    Continua.

    Leitor assíduo.

    ResponderEliminar

Diga tudo o que lhe apetecer, mas com elevação e respeito pelas opiniões de todos.