Do Porto com Amor: Verano Azul

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Verano Azul



Julen, Julen… se dependesse das minhas reflexões pela época fora, estavas já muito longe daqui. O que não seria o teu mal maior, porque se dependesse dos meus impulsos, provavelmente ainda estaríamos emparelhados, com a minha perna direita a atravessar todo o teu corpo pelo interior, com o pé respectivo a sair pela boca depois de ter entrado tu sabes onde.

Em duas palavras, a tua época de estreia foi simplesmente muito má. Má demais.

Chegaste, não quiseste ver e perdeste.

Bem sei que a culpa não é só tua, em primeiro lugar porque não terás pedido para vir treinar o Porto, em segundo porque mesmo tendo vindo, não seria necessário esperar pelos teus erros para que aprendesses onde estavas e terceiro, porque quando já era evidente que esses erros eram recorrentes (mas ainda a tempo de redenção), havia quem tinha obrigação de lhes impor um fim. Não me refiro a "mandar-te de saco", porque não acredito que seja solução a meio de uma temporada. Mas a explicar-te, em banda desenhada se necessário, onde tinhas aterrado, qual o contexto específico de cada jogo, competição e adversário e que há limites que nem um basco aguerrido como tu se pode ousar ultrapassar.

Mas "recentrando" a conversa nos teus pecados mortais, há um capital que não consigo de todo compreender: que raio de modelo de jogo queres tu impor, hombre? Posse? O que é isso da posse? Ter a bola? Para que serve, se depois não fazes grande coisa com ela? Mesmo tendo assistido a todos os jogos oficiais e mais alguns particulares, continuo sem capacidade de desvendar o que raio pretendes tu que a equipa faça quando têm a bola.

Certamente não será que os nossos evoluídos centrais assumam a distribuição de jogo, escolhendo alternadamente entre um adversário e um espectador como alvos de recepção, mas olha que foi isso que vi demasiadas vezes.

Também certamente não serão jogadas que resultam muito mais do talento e instinto dos jogadores do que daquilo que treinam e trazem preparado para o jogo, mas olha que também foi do que mais vi.

As poucas vezes que entendi (ou descortinei) uma maneira de jogar lógica, objectiva e trabalhada foi contra equipas que pouco ou nada pressionavam, mas também não se encostavam atrás, como se estivessem em campo apenas para nos agradar! Bem sei que dava um jeitaço que todas fossem assim, mas não são Julenzito, não são.

A nível interno, a maior parte joga fechadinha atrás, só duas ou três tentam ser um pouco mais ambiciosas e normalmente sai-lhes cara a ambição (este ano, até terão sido todas a jogar na “retranca”, com a diferença que Sporting e Benfica têm jogadores com qualidade para causar dano lá na frente, como infelizmente vieste a constatar).

Na Liga dos Campeões, tirando os colossos, as demais equipas jogam mais ou menos o jogo pelo jogo, e nós até fomos bem felizes com os adversários que fomos encontrando até ao Bayern, precisamente do tipo que nem pressiona muito nem se fecha em demasia, dando-te tempo e espaço para então nos presenteares com o teu modelo de jogo…

É pouco, Julen, é muito pouco…

E depois, os outros pecadilhos, para mim igualmente incompreensíveis:

  • A lentidão de aprendizagem: como não percebeste que nunca poderíamos sequer ficar à mercê de ser eliminados da taça pelo Sporting? Entrar com equipa secundária no nosso estádio, quando tudo o que tinhas que fazer era deixá-los (aos nossos) uma semana “sem comer” para que entrassem em campo esfomeados e à procura de sangue? E uns bons tempos mais adiante, ainda não tinhas percebido que receber o Benfica no Dragão nunca é apenas para vencer, mas sempre para esmagar e humilhar sem contemplações? Entrar no jogo amorfo e receoso, a ver no que dava? (aqui volto a repartir as culpas com quem te contratou, mas ainda assim tens a tua quota)

  • A segregação “racial” e "xenófoba": de certeza que não tem nada a ver com isso, estoy reinando, mas a realidade é que encostaste o Indi e o Quaresma sem que futebolisticamente se compreendesse porquê. Então o caso do RQ7 é de bradar aos céus: ok, a “lição” à chegada foi importante e bem vinda, mas o gajo entendeu e começou a jogar pró mundial e tu sempre a tratá-lo como segunda escolha, quando os titulares Tello e Brahimi tantas e tão repetidas vezes se arrastaram em campo, para serem substituídos pelo mesmo Quaresma, que quase sempre correspondia e no jogo seguinte tudo na mesma? (ufa…). Claro que se admitisse como verdadeiro aquilo que tantas vezes se disse, que jogava quem as Doyens impunham que jogasse, então o problema seria 10x mais grave e inadmissível, mas até prova em contrário, não o vou admitir. 

  • A TCL (Teoria da Conspiração de Lopetegui): ok, aqui reconheço que é 99% fruto da minha imaginação, mas se me acompanhares e tentares ver de fora, reconhecerás que não é de todo inverosímil. Em poucas palavras, a TCL consiste em encher o plantel com um catrefada de espanhóis teus ex-pupilos simplesmente para garantir o controlo do balneário pela força dos números, pouco importando se esses jogadores trazem algum valor adicional à equipa e até ao plantel. Quem viu (raramente, porque foram as oportunidades que tiveram) Campanãs, Andrés Fernandez, Angels, juntamente com Óliver, Tello, Marcano e Ádrian (glup…), fica com a clara sensação que há ali gente só a fazer número, a aguardar que o mestre levante o cartaz “Aplaudir”. O que somando aos que de facto vieram porque têm qualidade, dá uma bela quantia de hermanos, perfeitamente alinhados contigo, percebes? Se isto tivesse o mínimo de fundamento, ficaria ainda mais desiludido contigo, com a tua falta de autoconfiança. Mas felizmente não tem, pois não?

  • O fado… o fado miserabilista e tacanho que atravessa treinadores e treinadores deste clube, que perante adversários claramente melhores são incapazes de resistir à fatal tentação de improvisar, alterando a forma habitual de jogar, que no fundo seria a melhor possibilidade que teríamos de ter sucesso contra essas equipas. Quando se entra em Munique, contra um Bayern sem os seus 2 maiores craques e outros 2 também de grande categoria, com QUATRO centrais de grande categoria (…), descartando a única alternativa já testada ao longo da época, por pouco interessante que soasse (Ricardo na lateral direita), que tipo de sensação acreditas que estás a passar para a equipa, ó Julen? “Vamos levar 5 ou 6, estamos f******!”. Pois se não estávamos, ficamos.

  • Os excessos verbais. Meu caro, isto de arrebitar cachimbo é muito popular e fica bem, mas apenas e só se tiver substância por detrás. Por muita razão que tivesses (e tiveste, muitas vezes) em reclamar contra os mantos, faltava depois o fundamental: ver o Porto a jogar futebol ou, no mínimo, a deixar tudo em campo para conseguir ganhar. Cuspir para o ar acarreta sempre um risco elevado, se não tiveres um tecto sólido onde te abrigar antes que a gravidade imponha o início da trajectória de reentrada. E tu raramente tiveste esse abrigo sólido, porque mesmo quando eles falharam, tu a seguir falhavas miseravelmente. E nunca o reconhecias, ao contrário dos erros de terceiros.


Portanto, e em jeito de resumo de tudo o que fui discorrendo até aqui, a conclusão pareceria óbvia. Passares pelos recursos humanos, acertares as contas e andor violeta!

No entanto, parece que quem te contratou não pensa assim. Ou pelo menos, não pensava há uma semana atrás. É que isto da conjuntura é uma dança endiabrada. A saída de Jesus do Benfica deve ter deixado muita boa gente a chorar por ter renovado os votos contigo, fosse pela vinda do próprio messias para te substituir, fosse pela vinda do (por) agora proscrito Marco Silva.

Por outro lado, as mudanças nos dois de Lisboa alterou completa e positivamente o nosso panorama: de repente, somos, pela nossa simples inércia, os detentores da pole-position da próxima corrida ao título. Por muito que não compreenda o que tentaste de facto implementar na época passada, certamente que todos aprenderam qualquer coisa com ela (tu, os jogadores e os dirigentes) e construir sobre essa base (por mais rasa que seja) é sempre uma vantagem sobre quem vai começar do zero.

E então, assumindo que não assistiremos a loucuras de última hora, mantenho-me resignado à tua continuação. Peço-te portanto, encarecidamente, que não sejas como o bom do Chanquete e não te ponhas a cantar o “no nos moveran”, porque se assim for verás que mais cedo do que tarde serás lançado borda fora com os pés amarrados a uma bola de ferro. Revê essa tua atitude nestes pontos de que te acuso e sê um bom menino, não estragues este nosso Verão Azul.

É que neste momento continuo com um enorme formigueiro no pé direito…


4 comentários:

  1. entendo que a caixa esteja ainda sem comentários... é que não direi mesmo mais nada, se não : "No comments!"

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  2. Perante este comentário sobre o vazio de comentários e que se resume a ser "sem comentários", o que hei-de eu comentar?

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  3. O Lopetegui falhou em alturas "chave" no campeonato.
    E na taça, foi batido "sem apelo nem agravo" por um Sporting muito superior nesse dia.

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    1. Isso do "muito superior" só pode vir de um estimado leão... visto do lado do Porto, a questão é que não abordamos o jogo da maneira correcta e colocamo-nos à mercê do Sporting, que entre mérito e felicidade, soube aproveitar.

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