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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Top Down


Os bons exemplos devem vir de cima.

Na sequência do último episódio público da já longa inimizade entre Mourinho e Wenger, ocorrido na e a propósito da Charity Shield (a supertaça inglesa) que os gunners venceram no último fim de semana (quebrando assim o longo enguiço do francês contra o português), vieram hoje a terreiro os responsáveis pelo futebol inglês (FA e Premier League) mandar calar os dois treinadores, relembrando-lhes que acima deles e dos seus clubes está o futebol.

Esta reprimenda pública é um grande exemplo de como o futebol deve ser encarado e gerido.

As emoções e os exageros apaixonados fazem parte do jogo e são fundamentais para que continue a existir, mas apenas e se enquadrados e mantidos nos seus lugares (nos estádios, a apoiar; nos pubs ou em casa, em frente à televisão; nas redes socais) e pelas pessoas certas - os adeptos, que sendo parte do jogo, são também o seu destinatário mas não um dos seus principais intervenientes.

Esses - jogadores, treinadores e dirigentes - devem provar diariamente que são merecedores dos cargos que ocupam, não apenas pela competência que dedicam ao seu clube, mas pela compreensão de que o negócio do futebol é um "bem comum" que a todos obriga a dele cuidar. E quando se esquecem deste seu dever, são rapidamente chamados à atenção e colocados nos seus lugares, sob pena de sofrerem pesadíssimos castigos a vários níveis. Trata-se tão somente de proteger o brutal negócio que é hoje a Premier League e mantê-la como como melhor campeonato do mundo.

Curioso também é observar o papel dos media, nomeadamente dos jornais. Não havendo desportivos, são os genéricos e os tabloides que lhe dedicam secções nas suas páginas. Mesmo com todo o frenesim e sensacionalismo que os caracteriza, é interessante registar que são encarados pelas pessoas como um veículo de informação ou "fofocas", mas à parte do futebol em si mesmo. Não são do clube A ou B (ainda que o peso regional se faça naturalmente sentir), são órgãos de (des)informação e é nisso que se concentram.

Haveria tanto para aprender e transpor cá para o burgo, que nem me atrevo a começar a listar nestas linhas. Deixo apenas como exemplo comparativo e para reflexão, o "caso" Lopetegui-JJ após o jogo da Luz e as reações dos vários agentes do futebol e (falta de) consequências relevantes que dele resultaram.



Para terminar, aproveito para voltar ao meu post sobre Arsène Wenger.

Porque a propósito do tema de hoje, descobri duas notícias interessantes que explicam ainda melhor o "estranho caso", ou se calhar, não tão estranho:

1 - A primeira é uma reflexão do segundo maior accionista do clube (o tal russo-uzbeque de nome Alisher Usmanov), segundo o qual Wenger terá sacrificado os melhores anos da sua carreira de treinador em prol da concretização do sonho chamado Emirates Stadium. Vale a pena ler.

2 - A outra tem a ver com uma recém divulgada sondagem sobre a taxa de aprovação de 76% de Wenger pelos adeptos do Arsenal, contrastando com 51% em 2014 e apenas 17% em 2013. Igualmente interessante é descobrir a associação de accionistas que levou a cabo a sondagem e as questões desassombradas que inclui. Mesmo, mesmo muito diferente. E já agora, o inquérito foi realizado no final da época passada (portanto, antes desta supertaça, pelo que certamente agora teria mais uns pontos valentes de aprovação).

De facto, é outro mundo...



Do Porto com Amor (e admiração)



terça-feira, 23 de junho de 2015

O Estranho Caso de Benjamin Wenger


Há um caso no futebol europeu, mais concretamente no inglês, que há muito me intriga.

Um prestigiado e endeusado treinador, que será neste momento o que exibe maior longevidade à frente de um clube europeu de topo. Esse clube é o Arsenal e o seu nome é Arsène Wenger.

Sempre mais polémico do que consensual, mais arrogante do que afável, o bom do Arsène despertou em mim curiosidade suficiente para fazer este pequeno estudo retrospetivo que aqui partilho, na expectativa de encontrar respostas concretas que expliquem o seu trajecto.

Nos gunners desde 1996, Wenger ganhou fama graças à sua entrada triunfante, não só por conquistar uma sempre tão desejada "dobradinha" logo na época seguinte à de estreia, como também pela introdução de novos métodos de treino, novos regimes alimentares, novos modelos tácticos e a feliz combinação do talento local com o de jogadores estrangeiros de grande classe, o que tudo somado contribuiu em boa medida para a grande transformação que o futebol inglês sofreu por essa altura, passando do jogo ultra físico do long ball, crossing and header para um futebol progressivamente mais técnico e trabalhado em termos de construção de jogo.

Ou seja, no início tudo eram rosas e Arsène rapidamente se viu idolatrado pelos adeptos do Arsenal. As conquistas que se foram sucedendo nos anos seguintes, ainda que mais espaçadas, foram sempre alimentando (suponho eu) a crença de que mais ano, menos ano, voltariam aos grandes triunfos. Mas a realidade veio a ser algo diferente. Para melhor perceber, vejamos o palmarés de AW no Arsenal:

  • Dobradinha em 1997/98
  • Segundo nas três épocas seguintes (há clubes que consideram isto um troféu...)
  • Finalista vencido da Taça UEFA em 2000 e da FA Cup em 2001 (isto também...)
  • Dobradinha em 2001/02
  • FA Cup em 2002/03
  • Campeão em 2003/04, terminando a época invencível o que não acontecia há 115 anos no principal campeonato inglês. Deu sequência na época seguinte até ser finalmente derrotado em Outubro de 2004
  • Finalista vencido da Champions (primeira final) em 2006 (e isto também...)
  • FA Cup em 2004/05
  • FA Cup em 2013/14
  • FA Cup em 2014/15  
  • 5 FA Community Shield: 1998, 1999, 2002, 2004 e 2014  

Ou seja, "apenas" 3 campeonatos, 6 taças (FA Cup) e 5 supertaças em (praticamente) 19 anos!

Nos seus respeitáveis 110 anos de existência anteriores à chegada de Wenger, o Arsenal já havia conquistado 10 dos seus 13 campeonatos (77%), 6 das suas 12 FA Cup (50%), as 2 League Cup (100%), 8 das 13 Community Shield (62%), 1 Taça das Taças (100%) e 1 Taça das Cidades (100%) com Feira.

É certo que se considerarmos todos estes anos que distam desde a sua fundação em 1886, a percentagem de sucesso pré-Wenger dilui-se no tempo, mas penso que será mais correcto considerar, para efeitos de comparação, a data do primeiro título conquistado pelo clube: a FA Cup em 1929/30. Neste cenário, temos 66% dos seus títulos conquistados nos 67 anos A.W. (Antes de Wenger) e 33% conquistados pelo carismático francês no seu reinado que já dura há 19 anos.

Para um portista, surgem logo à cabeça duas notas óbvias:
  1. Que palmarés fraquinho tem o Arsenal
  2. Pinto da Costa só há um
Para um adepto do Arsenal, confesso que não sei. Ou melhor, não entendo como o continuam a apoiar após tantos anos com tão poucas vitórias e tantas "humilhações" às mãos do "Senhor Sir" e mais recentemente de Mourinho, entre outros menos sonantes.

Percebo o grande impacto que causou quando chegou ao clube e o grande sucesso que teve, digamos por simpatia, na primeira década. Mas e os últimos 10 anos? Umas "míseras" 3 taças de Inglaterra e uma "supertaça"... isto num clube que tem estado sempre no Top-10 em termos de poder de compra, que se abastece não só dos craques que brilham nas ligas de segunda linha (como a nossa), mas também na sua e nas outras "grandes".

 
Então o que justifica este longo casamento?


Penso que teremos de analisar a natureza da relação sob 3 perspectivas diferentes.


A primeira tem a ver com a mentalidade dominante no futebol inglês. Ao contrário dos países do sul, aqui a regra (ainda que com consideráveis excepções) sempre foi privilegiar a estabilidade, havendo maior predisposição para dar tempo ao escolhido para desenvolver um trabalho de médio prazo e conseguir comprovar os méritos que levaram à sua contratação.

Conforme já referido, Wenger entrou de rompante no clube e enfeitiçou tudo e todos com os títulos conquistados e a mão cheia de novidades que introduziu no jogo. Logo aí, terá acrescentado ainda mais "paciência" aos já pacientes adeptos e dirigentes. Mas entretanto as vitórias começaram a escassear e nem um chinês aguentaria tanto, se fosse só por isto. Tem que haver algo mais.


Entramos então no domínio da segunda perspectiva, que passa pelas funções que um treinador (Manager) assume dentro do clube. De novo, a ideologia dominante em terras de Sua Majestade é diferente da dos latinos da Europa, pela atribuição de competências que excedem largamente a vertente do treino e do jogo (coach), estendendo-se à coordenação do futebol de formação e, talvez mais relevante, a gestão do orçamento disponibilizado pelo clube para a equipa de futebol, abrangendo contratações, política salarial e outras do foro da gestão do plantel.

Aqui se explicará uma parte do "sucesso" continuado de Arsène: a boa gestão que desenvolve no clube, desde a contratação de (muito) jovens talentos para formação na sua academia (todos os anos há um miúdo português desconhecido que parte em busca do sonho na academia dos gunners, certo?), da qual retira rendimento desportivo (ao promover os melhores à equipa principal) e financeiro (ao vendê-los após valorização). Mas fez mais: foi um dos contribuidores líquidos (pela geração de excedentes ano após ano) para o desenvolvimento das infraestruturas do clube, desde as escolas e academia ao sumptuoso Emirates Stadium. Ainda assim, visto de onde me situo, não chega. Sim, é fundamental ter equilíbrio económico-financeiro para garantir a continuidade do clube, e mais ainda para satisfazer o ponto seguinte da lista, mas não é suficiente tratando-se de um dos Big Four do futebol inglês. Será que à terceira é de vez?


A terceira mas não menos importante perspectiva, é a da propriedade dos clubes (ownership) e em particular, do Arsenal.
Se em Portugal e Espanha (até à data) os "grandes" se vão mantendo nas mãos dos sócios (directa ou indirectamente, com mais ou menos poder de intervenção), seja pelos estatutos, seja pelo impacto que a pressão dos adeptos tem na duração das respectivas lideranças, na Premier League o mais comum é que os clubes sejam propriedade privada e geridos como tal. Isto não significa que desprezem os adeptos, mas precisamente o oposto: sabendo que são eles a grande força económica dos clubes, os seus donos procuram geri-los em função dos supporters e para sua satisfação, normalmente nomeando gestores profissionais muito bem pagos, porque entendem a regra básica de que o cliente tem sempre razão.

Mesmo que o panorama se tenha alterado parcialmente com a entrada de alguns paraquedistas bilionários (quase todos do petróleo, por sinal), cuja impaciência por resultados e intolerância por opiniões divergentes faria alguns dos nossos dirigentes parecerem meninos do coro, a secular mentalidade dominante ainda prevalece no futebol inglês.

Então e o que há a dizer neste ponto em relação ao Arsenal e a Wenger?

Em relação ao ownership, o principal accionista da Arsenal Holdings plc é um american sports tycoon, Stan Kroenke, que consolidou a sua posição (66,6%) após alguns anos de guerra fria com o actual segundo maior accionista (um russo-uzbeque que pouco interessa para o caso). Esta rivalidade começou apenas em 2007, até então o clube tinha sido tradicionalmente detido por duas famílias inglesas e seus descendentes. E Arsène chegou em 1996, recordemos. Ou seja, e ainda antes de avançar, não foi pelas disputas de controlo da sociedade que se "atreveram" a por em causa a gestão "desportiva". E já agora, como curiosidade, esta sociedade é substancialmente diferente das dos outros clubes, com apenas 62,217 acções emitidas e não listada nos principais mercados, mas antes (raramente) transacionada num mercado "secundário".

E quanto aos resultados económicos da sociedade ao longo do consulado de Wenger?

Apesar de ter um curriculum superior ao de outros grandes clubes ingleses no que concerne a gastos em aquisições, a verdade é que sucessivos estudos apontam para que não raras vezes tenha sido o único manager a gerar saldo positivo entre vendas e compras (e quando não o único, o maior lucro de todos).

Encontrei uma detalhada análise sobre este brilhante consulado económico-financeiro de Wenger no Arsenal num blogue que calculo não seja nem oficial nem "auditado", mas que ainda assim me inspirou suficiente credibilidade para o considerar como fonte (até porque não encontrei contestação). Para quem tiver curiosidade, aqui fica o link.

Segundo a Deloitte, em 2013/14 o Arsenal quedou-se na oitava posição do ranking dos maiores resultados económicos, atingindo uns estonteantes €359M em receitas geradas pelas operações relacionadas com o futebol.

Já a revista Forbes coloca os gunners em sétimo na sua lista dos clubes mais ricos do mundo em Maio de 2015, avaliando o clube em $1.310M... 

Como é fácil de entender, esta vertente do seu trabalho é muitíssimo apreciada pelos proprietários, não apenas pelo efeito de curto prazo dos resultados positivos, mas também pela sustentabilidade que assim se projecta.


Se a tudo isto juntarmos a situação calamitosa que o United vive desde a saída de Ferguson, fica mais fácil entender por que "ninguém" no Arsenal considera ficar sem Arsène. É que se Pinto da Costa só há um (e como tal, indisponível para o liderar o Arsenal com um bidão qualquer a treinador), Wengers também não se encontram com facilidade e mal por mal (pensarão eles)... ficamos com o Arséne no Arsenal!


Quanto a mim, continuo na minha. Não compreendo.

Um treinador arrogante, que se recusa a alterar a sua "filosofia" de jogo para não trair as suas "convicções", mesmo que à custa de perder a competição que está a disputar, não merece o meu beneplácito.

Pode ser um grande gestor de futebol, promover o equilíbrio financeiro e resultados positivos para a sociedade, mas para mim, falta o principal, o objectivo fundamental que define um clube de futebol de topo: ganhar dentro de campo.




Termino com outra curiosidade, agora sobre a Premier League: nunca nenhum treinador inglês conseguiu vencer a competição, estando os troféus distribuídos entre dois escoceses (Ferguson 13 e Dalglish 1), um francês (lui même, 3), um português (Mou 3), um chileno (Pellegrini 1) e dois italianos (Ancelloti 1 e Mancini 1). E clubes vencedores apenas cinco: Man. Utd, Arsenal, Blackburn Rovers, Chelsea e Man. City.