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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Porque Choro À Noite?


Porque choro à noite?

Pela ausência que sei será a minha, chegue ela cedo ou tarde, em que já não os poderei proteger, ensinar, castigar, abraçar, beijar.

Pouco me importa que eles deixem de querer ou precisar - ou pensem que já não querem ou precisam. Eu sei que se vão fazer mulheres e homem, se Deus quiser, livres, independentes e inteiros, com falhas e receios que tentarão esconder do mundo, mas, no que de mim depender, seres justos e compassivos. 

Sei que virá o dia a partir do qual me vão olhar condescendentes, se a isso a fortuna me permitir chegar. Velho, este mundo já não é o teu. E, em dias menos apressados, dar-me-ão um beijo sentido ou um longo abraço a acompanhar a compadecida sentença.

À medida que me for esvaindo no Tempo, esse olhar há-de abrandar. E os beijos hão-de ser mais sentidos e os abraços mais longos. Choro ao imaginar recebê-los, pranteio-me por quando não mais mos puderem dar.

A dor da ausência não será minha, mas choro por ela. Muito. Dava tudo para que não a tivessem de passar. Nunca que não a sentissem, porque seria prova irrefutável do meu total falhanço. Mas que não lhes doesse. Porque cada lágrima que deles imagino à minha custa é um punhal que me trespassa sem piedade.

Aliviado pelo choro, sedo-me com pensamentos mais doces. Os sorrisos, os olhares que tudo absorvem, os colos de santuário, os mimos, os intermináveis mimos. Os que aceito e os que ficam por receber. Enraiveço por esses, porque sou eu que não percebo o quanto os quero e deles preciso. Endireito as costas, enxugo as lágrimas e prometo que será diferente.

Na noite seguinte, ou na outra a seguir, ou numa das que se lhe seguirão, volto a chorar. E agora já sabem porquê.

De dia, faço, luto, ensino, castigo, desembaraço. À noite, quando todos esses guerreiros descansam dentro de mim, choro.





Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Agora Que Já Não És





Agora que foste mas já não és, ei-los que dizem que tu é que eras.

Agora que te foste e já não estás, eis que nos asseguram - até a nós, que nem sequer te conhecíamos - que eras tudo o que eles nunca conseguirão ser.

Agora que já não vês, escrevem com fervor sobre como eras bom, infinitamente melhor do que eles e do que nós.

Agora que já não ouves, dizem com solenidade que se foi o melhor de todos. Demasiado cedo, asseguram.

Enquanto cá andaste, mecânico e cinzento como a maioria deles e de nós, nenhum deles se terá lembrado de o escrever. Nem de o dizer. Mais que tudo, de te dizer. Porque, certamente, nessa altura ainda não o eras.

Agora que já não és, estás. Agora que já não estás, és. E serás. 

Apaziguador de consciências, inconfessável suspiro de alívio, foste tu e não um deles - nem um de nós. Um infinitesimal aumento das boas probabilidades - nossas e deles - que o subconsciente de cada um aplaude de pé.

Brindemos a ti e celebremos as tuas virtuosas virtudes. Efémeras virtudes. Daqui a nada já nenhum deles voltará a escrever ou a dizer sobre ti, excepto talvez no primeiro aniversário da tua partida. Com sorte, ainda no segundo. 

Depois, nada. Extingues-te. Deixas de ser.

Para eles e para nós, claro. 

Naqueles poucos por quem vivias, viverás tanto quanto eles próprios. E isso são várias eternidades, mesmo se passageiras.

Vai, podes descansar em paz, tu que já não és, sabendo o quanto eu te lamento.


Dedicado às vítimas inocentes, a todas elas.


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco