Conhecem aquela sensação de quando tudo parece a estar a correr demasiado bem para ser verdade? Si, si, esa mismo.
A alma lusitana carrega no seu ADN esta particularidade de se achar sempre vítima do infortúnio cósmico, de ser eternamente uma pobre infeliz porque nunca abençoada. Vai daí que, se a vida lhe começa a correr bem para lá de um esporádico episódio, começa a desconfiar de tudo e de todos - hum, deve estar para me acontecer alguma... - e especialmente de si mesmo.
Consequência? Trata ela própria de transformar uma cisma patética numa realidade insofismável. E depois, surpreende-se com isso, ao mesmo tempo que se congratula por ter antecipado tal desfecho. Eu sabia que isto não ia durar! Não fui feito para ter sorte - isso é para os outros!
E pronto, assim se explica como se transforma algo bom em algo negativo, sem nenhum motivo para a transformação que não seja a palermice. É estúpido, não é?
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Achava que não seria necessário ou sequer oportuno retomar o assunto Casillas antes do jogo de sábado, contra o Paços. Porque, enfim, tinha a expectativa de ver reposta a normalidade - o regresso de Iker à titularidade - e, com isso, que o episódio de Leipzig se transformasse rapidamente numa ferida curada, de preferência sem deixar cicatriz no corpo (leia-se balneário).
Ao ver a capa de hoje d' O Jogo, sou forçado a mudar de opinião. Sabendo-se da proximidade do jornal com o Clube, não posso crer que uma capa destas saísse para a rua sem haver uma grande certeza sobre o tema. Admito até que o processo da sua formação tenha sido o inverso - do Clube para o jornal.
Assim sendo, deixaremos de ter um assunto para passar a ter um problema. Porquê? Vamos por partes:
1) Sérgio Conceição foi o escolhido para treinador, ou seja, liderar o conjunto de homens que tem à sua disposição com o propósito de obter o máximo sucesso desportivo. Dentro deste pressuposto, deverá agir como muito bem entender ser o mais apropriado para o conseguir.
2) Iker Casillas é um jogador do Clube e, no que a deveres e direitos diz respeito, deve ser tratado exactamente da mesma forma que qualquer outro jogador do plantel. Aliás, ele próprio deverá ter a consciência de perceber que o seu estatuto de estrela internacional lhe exige ainda maior obrigação de ter um comportamento que seja exemplar e inspirador para os companheiros mais novos e menos experimentados na alta roda do futebol.
3) Não creio que Casillas se tenha feito contratar pelo Porto. Foi certamente o Clube que o convenceu a vir para o Dragão, oferecendo-lhe as condições que achou adequadas - incluindo a prerrogativa de renovação "semi-automática". Uma vez assumido o compromisso, só tem de o honrar. Se não o queria fazer - o que poderia acontecer por razões perfeitamente válidas - teria de, em tempo útil, ter conversado com o jogador e assumir publicamente a intenção de quebrar a ligação.
Somadas estas três premissas, temos um treinador que tem como jogador mais caro e mais experiente o guarda-redes Iker Casillas. Começa a época e Sérgio opta por lhe dar a titularidade. Expectável. Por ser o mais caro e experiente? Também, claro, mas sobretudo por achar que é o melhor que tem à disposição.
Daí até Leipzig, esteve Casillas abaixo do que seria exigível entre os postes? Não. Alguém questionou a sua titularidade fruto de um suposto mau rendimento? Não. Então como pode Sérgio justificar a sua mudança de opinião, sabendo-se que os dois últimos jogos onde Iker participou (Mónaco e Sporting) foram de grande exigência e esteve perfeitamente à altura dos desafios?
Nunca com uma "opção técnica". Objectivamente, não há quase nada a apontar às exibições do espanhol, excepto no jogo com o Besiktas. Mas se fosse esse o motivo, então a mudança teria de ter ocorrido logo a seguir ou até no Mónaco, não agora.
Se quisermos alargar o conceito de opção técnica aos treinos e estágios - e devemos fazê-lo, diga-se, só que não posso opinar porque a eles não tenho acesso - então admite-se que possam existir motivos para sentar Casillas no banco. Se Sérgio privilegiar a disciplina de grupo sobre as exibições em campo, é compreensível que "castigue" alguém se não treinar intensamente ou não se comportar de acordo com as regras. Não faço ideia se isso se passou, embora seja o que o jornal sugere como motivos para a decisão.
Para mim, o mais importante nisto tudo não é o Sérgio nem o Iker. É o balneário. O espírito de grupo que se vinha construindo e cimentando a cada nova "batalha" ganha em campo. Aquela simbiose que permite que o todo seja muito mais do que a soma das partes. A génese do Mar Azul.
Que tudo isto seja posto em causa é que realmente me aflige. Desejo ardentemente que o treinador o tenha considerado. E correctamente avaliado o impacto no seio do grupo desta sua decisão. E claro, que Casillas saiba estar à altura do seu impecável estatuto. Da sua postura poderá depender a forma como o balneário (ou parte dele) reagirá. E até o próprio Sá.
Que tudo isto seja posto em causa é que realmente me aflige. Desejo ardentemente que o treinador o tenha considerado. E correctamente avaliado o impacto no seio do grupo desta sua decisão. E claro, que Casillas saiba estar à altura do seu impecável estatuto. Da sua postura poderá depender a forma como o balneário (ou parte dele) reagirá. E até o próprio Sá.
Por último mas não menos relevante, temos José Sá, o sucessor em quem "a SAD deposita enorme confiança". Que entrou com o pé esquerdo. E que, até agora, não teve ainda oportunidade de demonstrar que tem o que é preciso para se assumir como titular do Porto. Nem sequer de o sugerir, digo eu. Por outro lado, quando se observa o que os mérdia escrevem e dizem sobre o mai'novo GR de sempre a fazer um autogolo na Champions, talvez Sá esteja no caminho certo. Esperemos que sim.
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Visto de fora, parece-me que Sérgio - e por consequência, todos nós - tem mais a perder do que a ganhar com esta opção. Pode correr mal de várias maneiras: balneário fracturado, más exibições de Sá, Mar Azul para o galheiro. Se lhe correr tudo bem, ficará pelo menos a sensação que arriscou sem necessidade.
Se queria mudar o titular da baliza, esperava que Iker comprometesse - e se não comprometesse, aguentava. Fosse uma questão mais invisível ao público, como o comportamento no treino ou até do foro disciplinar, teria de a assumir frontalmente, para que não sobrasse dúvida sobre o motivo da sua decisão. Assim, fica a dúvida se não está simplesmente a querer mostrar que é o macho alfa da matilha.
Antecipando já comentários do tipo "és do FC Porto ou do FC Casillas?" ou "temos de estar juntos e unidos" (e apoiar tudinho de boca e olhos fechados), poupo-vos o trabalho de teclar explicando que é precisamente por estar preocupado com o sucesso do Clube e em particular desta equipa que estou a abordar este assunto. Porque tem todo o potencial para desestabilizar a paz perfeita que reinou até agora.
Do meu ponto de vista, é autofagia, pura e dura. Espero estar a ver mal.
Do Porto com Amor,
Lápis Azul e Branco
