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terça-feira, 6 de outubro de 2020

O dia em que o Futebol morreu

Não sei precisar quando terá sido ao certo, mas que ninguém se iluda: o desporto futebol que existiu durante quase um século faleceu com estrondo.



Hoje percebo a imensa sorte que tenho em ser filho da revolução, nascido ainda bem dentro do século XX,  que me permitiu disfrutar desse jogo único que já foi tudo. Mais afortunado ainda por ser Portuense e - obviamente - Portista, onde a dimensão intrínseca do Clube, concretizada no futebol, atinge níveis de afeição e sentimento de pertença dos mais elevados do planeta.

Conheci e cresci com um futebol que era o orgulho (quantas vezes o único) da Invicta, o seu baluarte como o presidente tão bem dizia (e fazia), o seu porta-estandarte que recusava sempre vergar-se enquanto as forças sociais e políticas que o iam rodeando se vendiam por um bilhete de ida para a capital. Sempre contra-corrente, sempre hirto a encarar de frente às adversidades. 

Ainda senti, por história contada de uma geração para a seguinte, o que era ser Portista e não poder ganhar depois de passar a ponte sobre o Douro. Cresci a ver o Porto crescer, a tornar-se maior que o mesquinho país que tem a infelicidade imensa de o acolher, até chegar ao topo do mundo através do seu futebol. Uma estória daquelas de encantar, só que em real. 

Esse futebol, sempre visto pela lente enamorada pelo Futebol Clube do Porto, era uma escola de virtudes, insubmisso, lutador até à última gota de suor. Quem as corporizava eram os jogadores, moldados cirurgicamente pela determinação e sagacidade de Pinto da Costa e pela inteligência e competência de Mestre Pedroto e (alguns dos) seus sucessores. 

Todos sabemos quem foram e o que significaram Rodolfo, João Pinto, Paulinho Santos e Jorge Costa, mas muitos mais passaram pela azulebranca de forma mais discreta mas ainda assim contribuindo com a sua quota-parte para o sucesso inigualável em democracia de quase quatro décadas. Nunca se fez só (nem sobretudo!) de artistas, mas também por lá passaram muitos, de Cubillas a Hulk, passando por Oliveira, Lucho, Quaresma e Deco - em comum, além do talento sem fim, o sentimento. Nuns espontâneo, noutros ensinado, mas sempre único e coerente. Todos em prol do Clube.

Os mais recentes, como Hulk ou Deco, tinham já e justamente a ambição de chegar a um clube mais poderoso, que lhes permitisse ganhar mais dentro e fora de campo. Deco conseguiu, Hulk só parcialmente, mas o que importa é o que acrescentaram e a inspiração de que serviram para os que se lhes seguiram. Todos percebemos a ambição natural de cada pessoa, o problema não está nela mas nas condições que foram adulteradas para que o desequilíbrio entre partes se tornasse tão gritante.

Todos nos forçamos a saber também que os tempos mudaram, primeiro mais lentamente e depois com grande velocidade. Pode ter sido com Bosman que a primeira bala foi disparada, mas seguramente que foi a ascensão da nossa tão querida Champions League a um patamar de negócio estratosférico e desregulado quem descarregou o resto do carregador. 



O cheiro a dinheiro fácil e garantido, aliado ao passaporte dourado garantido a quem nele investisse, no questions asked, tornou-se um chamariz irresistível para clepocratas e criminosos dos quatro cantos do mundo se estabelecerem, de forma limpa e livre, na Europa civilizada. Foi o início do fim.

Se juntarmos a isto a total cumplicidade da UEFA e a constante cedência perante as exigências absurdas (para quem gosta do futebol como ele era) das maiores ligas europeias, temos a cova aberta e o caixão a ser carregado em ombros.

Chamemos-lhe negócio, indústria, o que quisermos, sempre seguido de rentável, mas não lhe chamemos futebol. Sempre houve e haveria clubes maiores e mais poderosos, fruto das suas idiossincrasias e circunstâncias geo-políticas, sociais e demográficas. O Real Madrid, o Barcelona, o Bayern e mais alguns "nunca" deixariam de o ser, mas como compreender e aceitar que outros campeões do passado, também eles gigantes nas suas realidades, tenham sido relegados para uma quasi-eterna penumbra por força dos petroeuros e similares, por troca com os paraquedistas Chelsea, PSG, City e demais "aberrações"? Ou um Mundial no Qatar? 

Como pode o futebol ser global se Porto, Ajax, Olympiacos, Anderlecht, Celtic, Roma ou Marselha estão impedidos de lutar com armas minimamente equivalentes? Como entender que clubes tão fortemente identitários e identificados com as suas regiões não as consigam representar condignamente com jogadores das suas fileiras? Não para lutarem todos os anos pelo ceptro europeu, porque estaria naturalmente fora da sua dimensão, mas para conseguir intrometer-se a espaços, como "sempre" aconteceu.

Só o Liverpool parece ter escapado à sina e apenas porque foi - também ele - comprado, embora sem perder a identidade (bem pelo contrário). E pode parecer contrasenso (talvez seja...), mas é um exemplo que abre uma pequena janela de esperança de que talvez seja possível... um futuro diferente, ainda distópico só que não tanto, em que o valor da identidade prevaleça sobre o investimento cego, surdo e mudo e que o equilíbrio dentro de campo reflicta as diferenças "naturais" entre clubes.

Pior que este reshuffle da hierarquia dos clubes do velho continente, é a forma como aconteceu e as implicações na forma de viver e sentir o futebol por parte dos jogadores. O amor ao clube e a antes indissociável aspiração máxima de representar as suas cores, gentes e valores desapareceu. Ou melhor, existe mas é de plástico, para russo ou árabe ver. É que a doença não se restringe ao topo, está disseminada de cima a baixo ao ponto de qualquer Wolves ter a capacidade de ter vários titulares da selecção portuguesa.

Hoje, os miúdos borbulhentos que não passam ainda de projectos de jogador já têm bem claro que o objectivo é chegar ao clube que lhes garanta uma vida financeiramente "feita" no pós-futebol, seja ele qual for. Jogar pelo clube grande da cidade ou do país é, na grande maioria das geografias, apenas um trampolim provisório e para encher de orgulho o avô (porque os pais já estão a pensar no passo seguinte), excepto nos casos em que coincide com esse clube ser do tal topo longínquo onde só cabe uma dezena.

Por fim, é triste constatar que mesmo o amor ao jogo sobrevive em cada vez menos jogadores e nada poderia ser mais fatal do que isso. O futebol como eu o conheci, com que cresci e que vi também crescer, está em vias de extinção. E só não está - nunca estará? - extinto porque ainda sobrevive nas ruas, nos pelados e nos sintéticos. Vive dentro da alma das crianças que ainda não sabem e das que sabendo não se importam e dos "veteranos" que nunca chegaram a ser. Essas são as casas onde o espírito do futebol livre ainda vive, esses somos todos nós que do futebol apenas recebemos emoções.

A reflexão é muito mais extensa e complexa do que isto, que não passa de um simples desabafo. O futebol pode estar morto, mas longa vida ao Futebol!



Sobre a loucura destes últimos dias do mercado do Porto, não me quero alongar muito. A péssima, melhor, inexistente gestão a médio prazo empurra-nos sempre para as mãos dos que não tem nem pressa nem falta de dinheiro. É estar sempre à espera de aproveitar a melhor oportunidade, que muitas vezes não deixa de ser má. 

Se já há muito nos habituámos a ignorar olimpicamente toda e qualquer declaração do Presidente sobre entradas e (sobretudo) saídas, não deixa ainda assim de ser dramático o total desbaratamento dos sub-19 vencedores da Youth League. É que há mentiras que doem mais do que outras e os que, como eu, ainda suspiram por ter na equipa jogadores que amam e vivem o Porto, não conseguem ficar indiferentes.

Lamentavelmente, o Porto em 2020 é exemplo de tudo o que se perdeu com o futebol-indústria, ao que se soma uma gestão em fim de ciclo, sem rumo e muitas vezes negligente. Os títulos regressados pela mão obstinada de Sérgio Conceição não podem nem devem voltar a servir de anestésico para que os Portistas regressam ao seu estado amorfo-catatónico. Não creio que esses tempos possam voltar de forma esmagadora, mas há ainda muito boa gente que não admite questionar as decisões da liderança de Pinto da Costa.

Esperemos para ver que nível competitivo irá atingir esta nova equipa, desejando ardentemente que seja o suficiente para nos levar ao bicampeonato, mas os negócios feitos remetem-nos para o primeiro ano de Lopetegui, com empréstimos sem opção de compra e para a inenarrável venda dos jovens jogadores da formação.

Nota final para Sérgio Conceição que, até prova em contrário, deverá ser considerado "cúmplice" desta estratégia sem estratégia - para o bem e para o mal e independentemente do que a seguir conseguir fazer com a matéria-prima. É que haverá sempre vida para lá desta época desportiva e o treinador campeão associou-se voluntariamente à ideia de que o futuro próximo da equipa principal passaria pelos vencedores de UYL. O que se constata é o exacto e doloroso oposto. Já há muito que aprendi a não sofrer com as possíveis chegadas, mas é-me ainda impossível não fazer o luto das saídas antes de tempo.

É certo que "isto da formação" tem também bastante que se lhe diga, mas fica para outra altura. Por agora, aguardemos pelo clássico de Alvalade e... StayAway Covid.

Um abraço sentido de gratidão a Danilo e Telles pelos bons serviços prestados e nada mais, porque Portista sou eu e vocês.


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco


domingo, 15 de novembro de 2015

A leste


Que me desculpem os estimados leitores pela falta de "notícias", mas tenho estado a leste.




A leste do teclado, para começar. Afortunadamente, não sou um espécie de ganso em vias de se tornar foie grás, confortavelmente sentado a escrevinhar em frente ao monitor enquanto um tubo ligado ao esófago me alimenta sem qualquer esforço da minha parte. E me faz engordar o fígado até me matar. Não sem antes me fazer viver dias a fio com dores insuportáveis, é claro. Não sou, sou apenas um ser humano com vida própria e tal.

A leste do futebol também. Não vi o inútil jogo da seleção nem quis saber de detalhes. Perfeitamente inútil. E culpado de outro fim de semana sem futebol a sério, pelo que não lhe perdoo. Na mesma onda, também não vi os jogos do play-off de apuramento para o Euro 2016 - mais justificáveis mas igualmente culpados. Vi o Argentina - Brasil para desanuviar das tristes novas do momento. Não consegui, mas sempre assisti a um dos mais entretidos e movimentados superclássicos de que tenho memória. Não se jogou muito bem, mas jogou-se muito. E houve molho, que lhe deu aquele gostinho especial.

A leste da compreensão.

Tinha planeado escrever sobre a situação política nacional enquanto o futebol não regressa. E ainda o farei, certamente. Quando sexta passada me preparava para me arrastar do sofá até ao posto de escrita, vi um tweet sobre o amigável França-Alemanha que havia sido interrompido por suspeita de bomba. Cativou-me a atenção e fui até ao canal apropriado. A Sky News, obviamente. E depois a CNN. E a France24, a Al-Jazeera, o Euronews, a RAI News. E também, nos intervalos para publicidade, os canais nacionais. Fiquei irremediavelmente colado ao "pequeno" ecrã.

Porquê?

Com que finalidade?

Quem é que está a produzir estes monstros e qual a nossa quota-parte de responsabilidade nisso?

Fartei-me (literalmente) de ler e ouvir idiotas e mentecaptos a justificarem o injustificável e, pior ainda, a explicarem motivos e oferecerem soluções, um 2-em-1 de estupidez e ignorância, muito aproximado do nível dos assassinos que semearam o terror por Paris na sexta passada.

As redes sociais, essa enorme rede de esgotos do atraso civilizacional humano. Como se já não bastasse o degradante resultado offline do nível geral de ignorância e boçalidade que caracteriza a imensa maioria dos seres humanos que poluem e delapidam este nosso belo planeta, de repente "demos-lhes" um meio que tem tanto de fácil como de covarde para nos presentearem, a cada segundo, com diarreia mental atrás de diarreia mental.

Regra geral sou tolerante, importa dizer. Procuro não ler comentários de ninguém a nada (excepto aqui no blogue), mas se por acaso me distraio e cedo à tentação, costumo ainda assim refrear o meu instinto primário de baixar muitos níveis e responder à letra. E então se se tratar de futebol, até me consigo rir de tanta boçalidade junta.

Hoje não. Desde sexta passada que não. Ainda não.

É absolutamente verdade que antes e desde então se passaram no mundo coisas piores. Certamente até enquanto escrevo este desabafo. Piores na quantidade e na qualidade da demência humana. Perdão, desumana. Mas não é por isso que desvalorizo os ataques de Paris. Contextualizo apenas. Se é certo que hoje a dimensão das tragédias se mede muito pela quantidade de vítimas, também não é errado dizer que é uma medida incompleta. É que se por um lado tendo a valorizar todas a vidas de igual forma, por outro sinto necessidade irreprimível de acrescentar atributos e contextos que as ordenem e diferenciem entre si. No entanto, há sempre um elemento comum que me (nos, certamente) transtorna: os inocentes. Inocentes nesse incidente fatal, obviamente. Não faço ideia se nas suas vidas foram abnegados altruístas, sacanas da pior espécie ou qualquer coisa pelo meio. Quase sempre qualquer coisa pelo meio, é igualmente certo. 

Os actos terroristas de sexta passada em Paris foram cometidos por gente que não compreendo. Honestamente. Mesmo considerando que "a ignorância é a mãe de todos os males" (Rabelais), não consigo compreender o que leva indivíduos deste século, nascidos e criados na nossa civilização ocidental, a abdicarem radicalmente do uso do seu intelecto e com isso, das suas próprias vidas, em nome de uma "causa" repleta de falsidades e com isso destruir aleatoriamente o máximo de vidas que conseguiram nos seus últimos instantes de vida. É assombroso. É assustador. O que lhes terão feito? Por que situações terão passado ao ponto de aceitarem chegar a este caminho de sentido único? É culpa minha, de alguma maneira indirecta? Se calhar é, mas não consigo encontrar a ponte que me leve ao outro lado. 




Seria simples e reconfortante abraçar a mais do que desenvolvida teoria de que nós, ocidentais, somos desde sempre uma "sociedade" egoísta, que apenas se preocupa verdadeiramente com o seu bem-estar, em nome do qual explora sem escrúpulos as demais "civilizações", supostamente mais atrasadas no seu processo de desenvolvimento. E que inevitavelmente esse egoísmo nos haveria de trazer a este ponto, porque a miséria e o desespero são sempre excelentes pontos de recrutamento de pessoas dispostas a tudo, precisamente porque nada têm ou tudo perderam. 

A obscena opulência a que possam assistir à distância enquanto os seus próximos e queridos padecem pela falta de um pedaço de pão ou de um banal medicamento é de facto um poderoso desinibidor, que erradamente manipulado por gente que já por lá passou ou apenas vive à custa disso, se transforma finalmente num colete-bomba a disparar uma Kalashnikov de forma indiscriminada.

Seria simples e reconfortante, mas não esclarecedor. Porque faltam peças no puzzle. 

Primeiro, porque não é linear que alguém desesperado perca o discernimento ao ponto de querer inflingir igual sofrimento a pessoas inocentes. E sim, eles sabem que são inocentes, por muito que os seus "treinadores" lhes contem uma data de patranhas, de índole religiosa ou outra qualquer. Podem não querer "ver", mas sabem. E isso é, pelo contrário, um poderoso desinibidor.

Segundo, porque não explica a existência dos instigadores, essas vastas redes de recrutamento e treino. Podem ser eles próprios vítimas da sua realidade, mas daí a dedicarem a sua existência a fazer mal a inocentes através de outros inocentes - onde, à partida, todos perdem - vai uma grande distância. Não pode ser nem apenas nem sobretudo por isto. Lamentavelmente, os motivos serão ainda mais reles. A ganância.

Terceiro, porque entre as fileiras dos jihadistas de hoje contam-se muitos "ocidentais". Ainda que tenham ascendência em países muçulmanos (só uso esta expressão por falta de uma melhor para os caracterizar num grupo uniforme), já nasceram em França, Alemanha, Inglaterra ou noutro qualquer país ocidental. E lá foram "criados" e supostamente "aculturados". Só que não foram (muitos deles). Este é um problema já há muito identificado e que está a gerar terroristas nascidos nos nossos quintais: a não integração plena e consequente marginalização das comunidades imigrantes, mesmo após várias gerações. Mas muitos simplesmente se tornaram delinquentes, gangsters, etc. Dentro de casa. O que os leva "agora" a entregarem-se nas mãos dos seus irmãos de sangue, deslocarem-se para os campos de treino e regressarem para matar os seus concidadãos? Dar emoção a uma vida fútil? Fazer cumprir uma qualquer profecia adulterada? Levar ao extremo o conceito de jovem rebelde? Não sei. Mesmo. Mas como acredito que todos sejam providos de massa cinzenta - por muito pouca que possa ser - qualquer explicação será sempre insuficiente.

Não vou desenvolver qualquer teoria sobre o que pretendem os ordenantes de mais um massacre. Já há demasiados doutores e idiotas (e doutores idiotas) a fazê-lo, basta dar um pontapé no Google que caiem centenas de uma vez só. No entanto, para mim é claro que, seja o que for, falharão. Nós, ocidentais, podemos ser gatos gordos como Bono Vox um dia disse (ainda que referindo-se a uma minoria de muito, muito gordos) e com isso estarmos acomodados ao nosso conforto. Mas que ninguém pense por um segundo que alguma vez abdicaremos do nosso modo de vida e das nossas tradições por mais terror que espalhem no nosso seio. Transtorno, rupturas, dor. Tudo isso é inevitável. Mas no fim prevaleceremos. Sem dúvida. 

Mas tal não nos deve inibir de começar já a reparar os muitos erros que temos cometido a lidar com outros povos e civilizações. Não pode ser a força das armas a impor o que quer que seja, está mais do que provado que nunca resulta, em lugar nenhum. Terá de ser a força das ideias, devidamente abraçadas pela solidariedade e pela compaixão, que definitivamente nos impeçam de desfrutar do nosso conforto alheios à miséria que nos rodeia. No outro lado do mundo, noutro continente, noutro país e já agora, à porta de nossa casa.


Termino com sentida homenagem a todos os inocentes que perderam a vida e aos que os perderam a eles, na passada sexta em Paris. Extensiva a todos os inocentes de todas as raças, credos e convicções, que já sofreram, ainda sofrem e virão a sofrer. E fico a pensar: por eles, serei eu capaz de pegar numa arma e matar os culpados sem hesitar? Empalideço com a resposta.


Tenho perfeita consciência de ter escrito sem grande nexo de causalidade bem como de não ter ordenado as ideias para as tornar mais compreensíveis. Nem sequer vou reler, confesso. Que me desculpem os estimados leitores, mas hoje sou eu que preciso da vossa compreensão.



Do Porto com Amor


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Top Down


Os bons exemplos devem vir de cima.

Na sequência do último episódio público da já longa inimizade entre Mourinho e Wenger, ocorrido na e a propósito da Charity Shield (a supertaça inglesa) que os gunners venceram no último fim de semana (quebrando assim o longo enguiço do francês contra o português), vieram hoje a terreiro os responsáveis pelo futebol inglês (FA e Premier League) mandar calar os dois treinadores, relembrando-lhes que acima deles e dos seus clubes está o futebol.

Esta reprimenda pública é um grande exemplo de como o futebol deve ser encarado e gerido.

As emoções e os exageros apaixonados fazem parte do jogo e são fundamentais para que continue a existir, mas apenas e se enquadrados e mantidos nos seus lugares (nos estádios, a apoiar; nos pubs ou em casa, em frente à televisão; nas redes socais) e pelas pessoas certas - os adeptos, que sendo parte do jogo, são também o seu destinatário mas não um dos seus principais intervenientes.

Esses - jogadores, treinadores e dirigentes - devem provar diariamente que são merecedores dos cargos que ocupam, não apenas pela competência que dedicam ao seu clube, mas pela compreensão de que o negócio do futebol é um "bem comum" que a todos obriga a dele cuidar. E quando se esquecem deste seu dever, são rapidamente chamados à atenção e colocados nos seus lugares, sob pena de sofrerem pesadíssimos castigos a vários níveis. Trata-se tão somente de proteger o brutal negócio que é hoje a Premier League e mantê-la como como melhor campeonato do mundo.

Curioso também é observar o papel dos media, nomeadamente dos jornais. Não havendo desportivos, são os genéricos e os tabloides que lhe dedicam secções nas suas páginas. Mesmo com todo o frenesim e sensacionalismo que os caracteriza, é interessante registar que são encarados pelas pessoas como um veículo de informação ou "fofocas", mas à parte do futebol em si mesmo. Não são do clube A ou B (ainda que o peso regional se faça naturalmente sentir), são órgãos de (des)informação e é nisso que se concentram.

Haveria tanto para aprender e transpor cá para o burgo, que nem me atrevo a começar a listar nestas linhas. Deixo apenas como exemplo comparativo e para reflexão, o "caso" Lopetegui-JJ após o jogo da Luz e as reações dos vários agentes do futebol e (falta de) consequências relevantes que dele resultaram.



Para terminar, aproveito para voltar ao meu post sobre Arsène Wenger.

Porque a propósito do tema de hoje, descobri duas notícias interessantes que explicam ainda melhor o "estranho caso", ou se calhar, não tão estranho:

1 - A primeira é uma reflexão do segundo maior accionista do clube (o tal russo-uzbeque de nome Alisher Usmanov), segundo o qual Wenger terá sacrificado os melhores anos da sua carreira de treinador em prol da concretização do sonho chamado Emirates Stadium. Vale a pena ler.

2 - A outra tem a ver com uma recém divulgada sondagem sobre a taxa de aprovação de 76% de Wenger pelos adeptos do Arsenal, contrastando com 51% em 2014 e apenas 17% em 2013. Igualmente interessante é descobrir a associação de accionistas que levou a cabo a sondagem e as questões desassombradas que inclui. Mesmo, mesmo muito diferente. E já agora, o inquérito foi realizado no final da época passada (portanto, antes desta supertaça, pelo que certamente agora teria mais uns pontos valentes de aprovação).

De facto, é outro mundo...



Do Porto com Amor (e admiração)



terça-feira, 23 de junho de 2015

O Estranho Caso de Benjamin Wenger


Há um caso no futebol europeu, mais concretamente no inglês, que há muito me intriga.

Um prestigiado e endeusado treinador, que será neste momento o que exibe maior longevidade à frente de um clube europeu de topo. Esse clube é o Arsenal e o seu nome é Arsène Wenger.

Sempre mais polémico do que consensual, mais arrogante do que afável, o bom do Arsène despertou em mim curiosidade suficiente para fazer este pequeno estudo retrospetivo que aqui partilho, na expectativa de encontrar respostas concretas que expliquem o seu trajecto.

Nos gunners desde 1996, Wenger ganhou fama graças à sua entrada triunfante, não só por conquistar uma sempre tão desejada "dobradinha" logo na época seguinte à de estreia, como também pela introdução de novos métodos de treino, novos regimes alimentares, novos modelos tácticos e a feliz combinação do talento local com o de jogadores estrangeiros de grande classe, o que tudo somado contribuiu em boa medida para a grande transformação que o futebol inglês sofreu por essa altura, passando do jogo ultra físico do long ball, crossing and header para um futebol progressivamente mais técnico e trabalhado em termos de construção de jogo.

Ou seja, no início tudo eram rosas e Arsène rapidamente se viu idolatrado pelos adeptos do Arsenal. As conquistas que se foram sucedendo nos anos seguintes, ainda que mais espaçadas, foram sempre alimentando (suponho eu) a crença de que mais ano, menos ano, voltariam aos grandes triunfos. Mas a realidade veio a ser algo diferente. Para melhor perceber, vejamos o palmarés de AW no Arsenal:

  • Dobradinha em 1997/98
  • Segundo nas três épocas seguintes (há clubes que consideram isto um troféu...)
  • Finalista vencido da Taça UEFA em 2000 e da FA Cup em 2001 (isto também...)
  • Dobradinha em 2001/02
  • FA Cup em 2002/03
  • Campeão em 2003/04, terminando a época invencível o que não acontecia há 115 anos no principal campeonato inglês. Deu sequência na época seguinte até ser finalmente derrotado em Outubro de 2004
  • Finalista vencido da Champions (primeira final) em 2006 (e isto também...)
  • FA Cup em 2004/05
  • FA Cup em 2013/14
  • FA Cup em 2014/15  
  • 5 FA Community Shield: 1998, 1999, 2002, 2004 e 2014  

Ou seja, "apenas" 3 campeonatos, 6 taças (FA Cup) e 5 supertaças em (praticamente) 19 anos!

Nos seus respeitáveis 110 anos de existência anteriores à chegada de Wenger, o Arsenal já havia conquistado 10 dos seus 13 campeonatos (77%), 6 das suas 12 FA Cup (50%), as 2 League Cup (100%), 8 das 13 Community Shield (62%), 1 Taça das Taças (100%) e 1 Taça das Cidades (100%) com Feira.

É certo que se considerarmos todos estes anos que distam desde a sua fundação em 1886, a percentagem de sucesso pré-Wenger dilui-se no tempo, mas penso que será mais correcto considerar, para efeitos de comparação, a data do primeiro título conquistado pelo clube: a FA Cup em 1929/30. Neste cenário, temos 66% dos seus títulos conquistados nos 67 anos A.W. (Antes de Wenger) e 33% conquistados pelo carismático francês no seu reinado que já dura há 19 anos.

Para um portista, surgem logo à cabeça duas notas óbvias:
  1. Que palmarés fraquinho tem o Arsenal
  2. Pinto da Costa só há um
Para um adepto do Arsenal, confesso que não sei. Ou melhor, não entendo como o continuam a apoiar após tantos anos com tão poucas vitórias e tantas "humilhações" às mãos do "Senhor Sir" e mais recentemente de Mourinho, entre outros menos sonantes.

Percebo o grande impacto que causou quando chegou ao clube e o grande sucesso que teve, digamos por simpatia, na primeira década. Mas e os últimos 10 anos? Umas "míseras" 3 taças de Inglaterra e uma "supertaça"... isto num clube que tem estado sempre no Top-10 em termos de poder de compra, que se abastece não só dos craques que brilham nas ligas de segunda linha (como a nossa), mas também na sua e nas outras "grandes".

 
Então o que justifica este longo casamento?


Penso que teremos de analisar a natureza da relação sob 3 perspectivas diferentes.


A primeira tem a ver com a mentalidade dominante no futebol inglês. Ao contrário dos países do sul, aqui a regra (ainda que com consideráveis excepções) sempre foi privilegiar a estabilidade, havendo maior predisposição para dar tempo ao escolhido para desenvolver um trabalho de médio prazo e conseguir comprovar os méritos que levaram à sua contratação.

Conforme já referido, Wenger entrou de rompante no clube e enfeitiçou tudo e todos com os títulos conquistados e a mão cheia de novidades que introduziu no jogo. Logo aí, terá acrescentado ainda mais "paciência" aos já pacientes adeptos e dirigentes. Mas entretanto as vitórias começaram a escassear e nem um chinês aguentaria tanto, se fosse só por isto. Tem que haver algo mais.


Entramos então no domínio da segunda perspectiva, que passa pelas funções que um treinador (Manager) assume dentro do clube. De novo, a ideologia dominante em terras de Sua Majestade é diferente da dos latinos da Europa, pela atribuição de competências que excedem largamente a vertente do treino e do jogo (coach), estendendo-se à coordenação do futebol de formação e, talvez mais relevante, a gestão do orçamento disponibilizado pelo clube para a equipa de futebol, abrangendo contratações, política salarial e outras do foro da gestão do plantel.

Aqui se explicará uma parte do "sucesso" continuado de Arsène: a boa gestão que desenvolve no clube, desde a contratação de (muito) jovens talentos para formação na sua academia (todos os anos há um miúdo português desconhecido que parte em busca do sonho na academia dos gunners, certo?), da qual retira rendimento desportivo (ao promover os melhores à equipa principal) e financeiro (ao vendê-los após valorização). Mas fez mais: foi um dos contribuidores líquidos (pela geração de excedentes ano após ano) para o desenvolvimento das infraestruturas do clube, desde as escolas e academia ao sumptuoso Emirates Stadium. Ainda assim, visto de onde me situo, não chega. Sim, é fundamental ter equilíbrio económico-financeiro para garantir a continuidade do clube, e mais ainda para satisfazer o ponto seguinte da lista, mas não é suficiente tratando-se de um dos Big Four do futebol inglês. Será que à terceira é de vez?


A terceira mas não menos importante perspectiva, é a da propriedade dos clubes (ownership) e em particular, do Arsenal.
Se em Portugal e Espanha (até à data) os "grandes" se vão mantendo nas mãos dos sócios (directa ou indirectamente, com mais ou menos poder de intervenção), seja pelos estatutos, seja pelo impacto que a pressão dos adeptos tem na duração das respectivas lideranças, na Premier League o mais comum é que os clubes sejam propriedade privada e geridos como tal. Isto não significa que desprezem os adeptos, mas precisamente o oposto: sabendo que são eles a grande força económica dos clubes, os seus donos procuram geri-los em função dos supporters e para sua satisfação, normalmente nomeando gestores profissionais muito bem pagos, porque entendem a regra básica de que o cliente tem sempre razão.

Mesmo que o panorama se tenha alterado parcialmente com a entrada de alguns paraquedistas bilionários (quase todos do petróleo, por sinal), cuja impaciência por resultados e intolerância por opiniões divergentes faria alguns dos nossos dirigentes parecerem meninos do coro, a secular mentalidade dominante ainda prevalece no futebol inglês.

Então e o que há a dizer neste ponto em relação ao Arsenal e a Wenger?

Em relação ao ownership, o principal accionista da Arsenal Holdings plc é um american sports tycoon, Stan Kroenke, que consolidou a sua posição (66,6%) após alguns anos de guerra fria com o actual segundo maior accionista (um russo-uzbeque que pouco interessa para o caso). Esta rivalidade começou apenas em 2007, até então o clube tinha sido tradicionalmente detido por duas famílias inglesas e seus descendentes. E Arsène chegou em 1996, recordemos. Ou seja, e ainda antes de avançar, não foi pelas disputas de controlo da sociedade que se "atreveram" a por em causa a gestão "desportiva". E já agora, como curiosidade, esta sociedade é substancialmente diferente das dos outros clubes, com apenas 62,217 acções emitidas e não listada nos principais mercados, mas antes (raramente) transacionada num mercado "secundário".

E quanto aos resultados económicos da sociedade ao longo do consulado de Wenger?

Apesar de ter um curriculum superior ao de outros grandes clubes ingleses no que concerne a gastos em aquisições, a verdade é que sucessivos estudos apontam para que não raras vezes tenha sido o único manager a gerar saldo positivo entre vendas e compras (e quando não o único, o maior lucro de todos).

Encontrei uma detalhada análise sobre este brilhante consulado económico-financeiro de Wenger no Arsenal num blogue que calculo não seja nem oficial nem "auditado", mas que ainda assim me inspirou suficiente credibilidade para o considerar como fonte (até porque não encontrei contestação). Para quem tiver curiosidade, aqui fica o link.

Segundo a Deloitte, em 2013/14 o Arsenal quedou-se na oitava posição do ranking dos maiores resultados económicos, atingindo uns estonteantes €359M em receitas geradas pelas operações relacionadas com o futebol.

Já a revista Forbes coloca os gunners em sétimo na sua lista dos clubes mais ricos do mundo em Maio de 2015, avaliando o clube em $1.310M... 

Como é fácil de entender, esta vertente do seu trabalho é muitíssimo apreciada pelos proprietários, não apenas pelo efeito de curto prazo dos resultados positivos, mas também pela sustentabilidade que assim se projecta.


Se a tudo isto juntarmos a situação calamitosa que o United vive desde a saída de Ferguson, fica mais fácil entender por que "ninguém" no Arsenal considera ficar sem Arsène. É que se Pinto da Costa só há um (e como tal, indisponível para o liderar o Arsenal com um bidão qualquer a treinador), Wengers também não se encontram com facilidade e mal por mal (pensarão eles)... ficamos com o Arséne no Arsenal!


Quanto a mim, continuo na minha. Não compreendo.

Um treinador arrogante, que se recusa a alterar a sua "filosofia" de jogo para não trair as suas "convicções", mesmo que à custa de perder a competição que está a disputar, não merece o meu beneplácito.

Pode ser um grande gestor de futebol, promover o equilíbrio financeiro e resultados positivos para a sociedade, mas para mim, falta o principal, o objectivo fundamental que define um clube de futebol de topo: ganhar dentro de campo.




Termino com outra curiosidade, agora sobre a Premier League: nunca nenhum treinador inglês conseguiu vencer a competição, estando os troféus distribuídos entre dois escoceses (Ferguson 13 e Dalglish 1), um francês (lui même, 3), um português (Mou 3), um chileno (Pellegrini 1) e dois italianos (Ancelloti 1 e Mancini 1). E clubes vencedores apenas cinco: Man. Utd, Arsenal, Blackburn Rovers, Chelsea e Man. City.





segunda-feira, 1 de junho de 2015

Taças - a lei do mais forte



E pronto, está definitivamente encerrada a temporada de clubes na esmagadora maioria das ligas europeias.

Como habitualmente, a taça do país é a última a ter o seu desfecho e foi neste fim-de-semana que Arsenal, Barcelona, PSG e Wolfsburgo levaram o caneco para casa. Da goleada dos gunners à obra-prima de Messi, passando pelo golo decisivo do uruguaio mal-amado e pela robusta reviravolta dos alemães, houve de tudo e para todos os gostos.

Por cá, uma merecida palavra de apreço aos jogadores do Sporting e muito especialmente a Marco Silva, que na minha leitura foi o elemento (des)equilibrador de uma equipa que jogou com 10 quase desde o início. Estava naturalmente a torcer pelo Braga, mas só me resta reconhecer que a "sorte" foi justíssima.

No outro lado da moeda, está inevitavelmente Sérgio Conceição, que certamente ficou devastado com o que lhe aconteceu. No entanto, hoje e já na ressaca, terá de reconhecer que foi ele o grande responsável pela não conquista da taça pelo Braga. Teve tudo, mas mesmo tudo a seu favor para o conseguir, mas erros de análise e alguma falta de ambição em "matar" o jogo enquanto pode, acabaram por lhe ser fatal. Faz parte do crescimento Sérgio, pick yourself up, dust yourself off and try again. E certifica-te de que não volta a acontecer, porque a dimensão de uma carreira de treinador decide-se nestes momentos.

Sobre este jogo, uma última coisa: de tudo o que vi e sobretudo ouvi, desde os 120+ minutos da transmissão da Sporttv aos comentadores e opinadores do costume, nenhum foi capaz de salientar o efeito que o vento forte teve no jogo, em particular no segundo golo do Sporting. Incrível como até ex-jogadores não tiveram o discernimento de perceber a dificuldade adicional criada por este factor e servi-lo como atenuante da "enorme" falha do pobre Aderlan.

Quem parece que vai ficar um ano a digerir o amor ao BVB é Jurgen Klopp. Há quem diga que é mesmo assim, ou que está à espera da saída de Guardiola, mas eu acho que ele amuou quando soube que Lopetegui ia continuar...

Nota: o nosso menino 92 parece querer afirmar-se em definitivo, agora no seu país e ao serviço do Palmeiras. Pelo menos os adeptos do verdão já estão rendidos e ele ainda nem lhes deu um título nos descontos. Esperemos que seja desta, moleque, começa a ficar tarde.