É mesmo assim que se começa esta crónica, a glorificar o improvável herói que ontem criou uma quebra no contínuo tempo/espaço do filme imperialista dos sem-vergonha, adiando ou acabando em definitivo com a esperança do Portugalistão em celebrar o tão ambicionado quando viciado penta.
Héctor Miguel Herrera López, um coração enorme aninhado num corpo desajeitado que não tem especiais (nem ordinárias) capacidades para vingar como futebolista profissional - sim, meus caros, não mudei de opinião de um dia para o outro - mas que, contra todas as probabilidades, se mantém como titular no meu Porto com todos os treinadores que por ele têm passado, chegando até a capitão de equipa com Sérgio Conceição.
Foi Herrera, el Capitán, quem num momento de inspiração individual e já ao cair do pano, se encheu de fé e coragem e fuzilou o batoteiro Varela sem apelo nem agravo, para indescritível alegria da nossa nação e exemplar castigo para todos os que andam há quatro anos a festejar uma gigantesca farsa, mais ainda aos que albergam negligentemente essa culpa na consciência.
Ao contrário do que fui ouvindo e lendo, não penso que se tenha tratado de alguma espécie de justiça divina. Se houve alguma justiça a ser feita, foi a dos homens, daqueles que mais têm sentido na pele as trafulhices dessa corja de sem-vergonhas que tomou de assalto um dos grandes clubes do país.
O futebolista Herrera não é meu novo ídolo, nem sequer revi ainda um ponto que fosse sobre a minha opinião já muito fundamentada sobre si, mas se viermos finalmente a conquistar este campeonato como agora já exijo, entrará com todo o merecimento para a galeria dos imortais do Futebol Clube do Porto.
Para se chegar àquele momento mágico, houve que passar por 89 minutos muito intensos e emocionalmente exigentes, com diferentes momentos e muitas incidências a registar, mas todas dentro da normalidade de um Clássico.
Creio com sinceridade que o Porto deveria ter feito mais para ganhar o jogo, considerando que estava e de lá sairia em segundo na classificação se não o tivesse vencido.
A primeira parte foi muito mais do Benfica, já ponderados os diferentes momentos de dominância de cada uma das equipas. Mais concentrados, menos ansiosos e mais eficazes na construção - felizmente não na finalização. Também tivemos as nossas oportunidades, mas já muito "tarde" na metade.
O intervalo foi bom conselheiro (kudos a quem tiver feito por isso, imagino que com o treinador à cabeça) e a nossa reentrada forte e determinada foi decisiva para amedrontar os da casa, remetendo-os uma vez mais para os seus fantasmas e correspondente incapacidade de nos defrontar olhos-nos-olhos.
Fiquei então com a clara sensação que, a partir daí, se trataria de uma corrida contra o relógio do árbitro na tentativa de conseguir fazer um golo que nos daria a quase-certa vitória. Claro que seria sempre possível sofrer um golo, em especial se o nulo se mantivesse e o desespero se apoderasse (como me parece que se apoderou) dos nossos jogadores, mas parecia-me mais provável que fossemos nós a marcar.
Tivemos duas ou três boas oportunidades, em especial a(s) de Marega, mas sempre sem a necessária e exigível eficácia. Com o nulo a manter-se, Sérgio Conceição arriscou tudo o que podia, fazendo entrar sucessivamente Óliver, Corona e Aboubakar. Em sentido inverso, o sonso-mor foi mexendo no sentido de não sofrer, apostando na manutenção da liderança que ele bem sabe lhe poderia bastar para o objectivo final.
Com o final do tempo regulamentar a aproximar-se, comecei a resignar-me que uma vez mais não iríamos ser capazes de domar o nosso destino, sem contudo deixar de espreitar para a eterna memória de Kelvin & companhia... Espreitava já o jogo de esguelha, com ângulo suficiente para apenas distinguir cores e movimentos, quando detectei uma aproximação relevante de azuis à área encarnada, numa espécie de último assalto e num impulso recuperei a visão total do televisor. O resto já é história - da boa.
Apesar da vitória, não vou deixar de registar mais uma lamentável transmissão da SVTV, tanto a nível "técnico" como "estratégico". E se quanto ao facto de nos fazerem perder quase metade do jogo em directo à custa de repetições inoportunas e demasiado longas se pode dizer que são apenas maus profissionais de realização, já em relação à constante sonegação de imagens e ângulos nos lances em desfavor da sua equipa e consequente deturpação da percepção pública do que de facto se passou dentro do campo, o que se TEM de dizer é que esta vigarice tem de acabar JÁ. Por princípio, a nenhum clube deveria ser permitido controlar a transmissão dos seus jogos. A este clube em concreto, ainda menos.
Notas DPcA
Dia de jogo: 15/04/2018, 18h00, Estádio da Luz, SL Benfica - FC Porto (0-1)
Iker (8): Começa a ser normal assistir a grandes exibições do senhor Casillas neste palco, como se já não bastasse o temor natural que nos têm em termos ofensivos. Enquanto estivemos por baixo no jogo, foi Iker que nos manteve igualados e com as aspirações intactas. Herrera foi o mais decisivo pelo golo, mas Iker foi uma vez mais providencial. #renovaCasillas
Ricardo (7): Dois jogos num só. O primeiro, de fraca qualidade pela intranquilidade e desacerto, durou até cerca dos 40 minutos, quando o próprio teve uma iniciativa individual que quase dava golo. A partir daí, em especial durante todo o segundo tempo, foi um monstro e dominou por completo o seu corredor, dando inclusive para se aventurar pelo meio.
Alex Telles (6): Mesmo sem deslumbrar ou fazer as habituais assistências, fez uma segunda metade de bom nível que mais do que compensou o desacerto da primeira.
Felipe (7): Quase sempre bem nas marcações, conseguiu controlar os ímpetos e em nenhum lance se expôs para sequer ser advertido. Boa evolução, que espero não tenha volta atrás.
Marcano (7): Jogo com algumas falhas, mas felizmente sem consequências de maior. Quando mais foi preciso, voltou à sua normalidade e desfilou eficácia e sobriedade.
Melhor em Campo Herrera (5+5): Sim, sim, meninas e meninos, para mim foi o pior da equipa (ex-aequo) até ao sublime momento de glória, porque uma vez mais se fartou de desperdiçar posses de bola, para além do péssimo posicionamento em vários momentos da primeira metade. É certo que melhorou um pouco em sintonia com a equipa, mas não o suficiente para justificar uma nota positiva. Até que... "saiu" o Héctor Miguel e entrou o Capitán Herrera, o primeiro vingador e novo justiceiro super-herói do Portismo, que desenhou um momento de perfeição que perdurará para sempre na memória de quem teve a felicidade de o viver.
< 74' Sérgio Oliveira (6): Trabalhou muito e sentiu claras dificuldades para travar as saídas rápidas e em superioridade numérica dos adversários, pelo que não lhe sobrou grande tempo ou espaço para se destacar com bola a não ser pelos passes longos. Foi imprudente no lance em que agarrou Cervi, mesmo se Felipe foi quem fez a falta primeiro, porque deu margem de manobra para uma má interpretação do árbitro e consequente expulsão.
< 80' Otávio (5): A par de Ricardo, foi dos piores durante a primeira meia hora, com muitos passes perdidos e mau posicionamento defensivo. Melhorou a tempo de ajudar a equipa a crescer e conquistar o domínio da partida, até que depois saiu vergado ao cansaço e ao amarelo.
Brahimi (6): Sem ser um Brahimi especial, esteve bem melhor do que nas últimas partidas, porque foi capaz de perceber quando deveria insistir no lance individual ou servir os companheiros, garantindo com isso o "manter em sentido" de dois ou três adversários de cada vez, o que libertou espaço para os companheiros.
Marega (7): Regressou da lesão para a titularidade numa forma física invejável, só foi pena que o acerto na finalização ainda estivesse "em recuperação". Teve duas oportunidades soberanas, uma em cada parte, que nos poderiam ter dado vantagem mais cedo e provável acesso a uma vitória mais folgada e segura. Tirando isto, trouxe consigo o próprio modelo de jogo da equipa, que quase inacreditavelmente depende mais da sua presença do que a de qualquer outro jogador.
< 83' Soares (6): Esperava que fosse capaz de segurar mais a bola, dando tempo aos companheiros para subir e/ou ganhar fôlego. Ao invés, foi muito "anjinho" nos duelos, perdendo quase sempre o tempo de abordagem ou de domínio da bola. Quando conseguiu furar deu alguma profundidade, mas faltou-lhe estar mais perto da zona de tiro e com boas hipóteses de acertar no alvo, algo que só me lembro de ter feito uma vez para rematar ao lado. Sobrou o muito trabalho físico e de desgaste que desenvolveu.
> 74' Óliver (6): Não entrou como ele e todos desejaríamos, mas lá se encaixou no jogo e acabou por participar na ofensiva final, mesmo se de forma discreta.
> 80' Corona (6): O outro regressado de lesão denotou mais essa condição, mas participou no "contexto" que nos trouxe a felicidade. Desta vez, foi suficiente.
> 83' Aboubakar (6): Se mais não fez, esteve no lance em que a bola sobrou para Herrera nos fazer felizes. Para mim, chegou.
Sérgio Conceição (7): Uma primeira parte decepcionante para quem tinha de vencer, felizmente compensada com a segunda, onde justificamos a sorte que foi aquele momento H. No entanto, demos uma vez mais "uma parte de avanço", desperdiçando meio jogo. O que mais me agradou foi detectar que não hesitou em entrar em modo de desespero, mas de forma racional e acertada. Óliver tinha mesmo de ser, Corona foi ainda mais longe do que eu imaginava (Maxi para defesa e Ricardo a extremo) e Aboubakar a troca directa que se impunha. No final, festejou como todos nós e deve orgulhar-se de muito ter contribuído para isso. No entanto, atenção: os jogos mais difíceis são os que se seguem.
Outros Intervenientes:
Quanto à equipa da SAD Sem-Vergonha, Rafa foi quem mais se distinguiu, com nota positiva também para Grimaldo. Destaque ainda para o divino castigo final ao batoteiro Varela, espécie de parábola para o que foi efectivamente infligido ao clube que representa.
Em relação à arbitragem de Soares Dias & companhia, teve uma prestação defensiva, tipicamente portuguesa, apitando quase sempre as faltas no sentido em que geram menor polémica, como seja proteger quem defende. Disciplinarmente, perdoou demasiados cartões para ambos os lados (Herrera, Brahimi, Pizzi, Samaris, Samaris), mas nos lances mais polémicos e decisivos esteve bem.
- Lance entre Marega e Rúben Dias: o contacto de pernas pareceu-me normal, já o empurrão pelas costas deveria ter valido um livre muito perigoso, porque ainda fora da área. Em todo o caso, não foi flagrante ao ponto de exigir que tivesse sido marcado;
- Lance do possível segundo amarelo a Sérgio Oliveira: a falta foi cometida por Felipe e só depois houve o agarrão do Sérgio, pelo que em rigor a decisão foi correctíssima. No entanto, acho que o jogador se arriscou em demasia e o árbitro poderia ter interpretado de maneira diferente;
- Lance do possível segundo amarelo a Sérgio Oliveira: a falta foi cometida por Felipe e só depois houve o agarrão do Sérgio, pelo que em rigor a decisão foi correctíssima. No entanto, acho que o jogador se arriscou em demasia e o árbitro poderia ter interpretado de maneira diferente;
- Lance entre Ricardo e Zika: no momento, ainda hesitei entre a possibilidade de poder ou não ter sido marcado penálti, mas após algumas repetições fiquei totalmente convencido que nunca poderia ser marcado, porque nada de ilegal aconteceu no lance. Admitiria que o árbitro, num primeiro momento, pudesse ter a sensação de ser penálti, mas o vídeo-árbitro jamais poderia ter outra decisão.
Uma vez mais, quero aqui insistir na mesma tecla em que toquei na minha prestigiosa intervenção no A Culpa é do Cavani na antecâmara da partida, onde disse que mais do que o jogo da Luz, me preocupavam os que se seguiriam. Não estava nem a menosprezar o Clássico nem a exacerbar os demais: estava mesmo a dizer o que penso.
Os sem-vergonha não chegaram até aqui, a escassos quatro jogos de um inédito penta, para desistir agora. Da mesma forma que até aqui chegaram - a viciar e adulterar resultados - vão fazer tudo o que estiver ao seu alcance (e que ainda é muito, infelizmente) para que o Porto não vença os seus jogos.
A isto acresce ainda a dificuldade natural dos próprios jogos:
- Os jogos caseiros são contra V. Setúbal e Feirense, clubes com que registamos empates caseiros, desperdiçando pontos decisivos para os insucessos das épocas mais recentes;
- As saídas são ao Marítimo (provavelmente, o campo onde temos mais dificuldades) e Guimarães (sempre difícil, seja qual for a circunstância).
Estes quatro jogos serão todos, mas todos eles, muito difíceis se não os encararmos seriamente do primeiro ao último minuto. Claro que temos capacidade para os vencer, um por um, mas teremos de estar preparados para as minas e armadilhas que aí vêm.
Antes disso, há ainda uma segunda-mão da meia-final da Taça para disputar e vencer - no mínimo, fazer um resultado que assegure a presença no Jamor.
Do Porto com Amor,














