Escrevo quando ainda não é conhecido o desfecho final do "caso Quaresma", mas dada a sua previsibilidade, assumo o risco de o fazer enquanto o juri ainda está a decidir.
Aliás, nem sequer é risco nenhum, porque o eu tenho a dizer já nem sequer depende do desfecho. Nem uma miraculosa reintegração daqui a 1 semana, 1 mês ou meio ano faria diferença.
Primeiro, sobre Quaresma.
É um ilusionista. Faz o público e sobretudo os adversários pensarem que vai para ali e a bola para acolá e depois é tudo ao contrário.
É um desafiador das leis da física. Atreve-se a fazer viajar a bola "boldly as no man has ever" had. Houve o bend it like Beckham e há o Trivela it like Quaresma. Mágico. Fabuloso. Um jogador autêntico, puro, imprevisível, indomável, G E N I A L.
E além disto é raçudo, não vira a cara à luta e não leva "desaforo" para casa. E não gosta dos lampiões. É dos nossos, carago. Se ainda há mística, ele é dos poucos que a carrega. À sua maneira.
Mas também consegue ser um sacana de um gajo. Mal comportado, às vezes mal educado, egoísta e insolente.
Nunca privei com ele em grupo (nem a dois), pelo que não posso avaliar com precisão suiça o impacto que ele terá no espírito de grupo quando se comporta mal. Mas pela amostra dos Quaresmas desta vida que eu conheço, diria que nesses momentos deve dar cabo da paciência aos mais "certinhos", chegando a fazê-los sentirem-se injustiçados pela diferença de tratamento, mas igualmente fazer desesperar até os que mais gostam dele (sim, porque certamente há vários companheiros que gostam verdadeiramente dele). E então a dirigentes, staff e especialmente treinador, deve dar uma daquelas enxaquecas de caixão à cova.
Mas Quaresma não é sempre assim. Nem sequer muitas vezes assim. São episódios, incidentes que acontecem de longe a longe (com menor intervalo se a tendência for contraria-lo apenas porque sim, evidentemente). E não é novidade nenhuma, ele sempre foi assim.
Saber geri-lo, como aos restantes jogadores, é missão de quem o contrata e sobretudo de quem o treina.
No caso vertente, Lopetegui não gosta de Quaresma. Ponto.
Os porquês não são difíceis de descortinar, tem obviamente a ver com o seu temperamento e mais concretamente, com a sua imprevisibilidade comportamental.
Lopetegui, dizem, é um disciplinador (para mim é simplesmente um homem pouco carismático que se protege e esconde atrás do autoritarismo, mas isso fica para um post posterior). E portanto não concebe ter nas suas fileiras alguém que o desafie, porque não sabe como lidar com estas situações. Mesmo que isso implique sacrificar um dos maiores talentos da equipa, mesmo que isso signifique abdicar do jogador que num determinado momento lhe oferece maiores condições de desbloquear um jogo apenas e só com o seu talento, como tantas vezes sucedeu na época passada.
Lopetegui foi injusto com Quaresma, tratou-o mal. Sabendo-se do que Quaresma é feito, alguém poderia esperar que ele ficasse feliz e fizesse de conta que nada se passou?
O que fez Antero e seus pares quando isto aconteceu? Explicaram ao treinador a delicadeza da situação? Ou simplesmente desistiram dele (Quaresma), deixando-o arder em lume brando? Não estou com isto a dizer que deveria ser tratado como uma criança
birrenta, mas caramba, não há gente no clube com suficiente inteligência
emocional para o ajudar a equilibrar-se e o direccionar no caminho
certo? Não são os grupos um conjunto trabalhado de egos e personalidades, alinhados em prol de um superior objectivo comum?
Querem jogadores à Porto ou preferem jogadores que passam pelo Porto?
O que fez Quaresma de tão grave para ser proscrito desta maneira? O abraço a Jesus? A entrevista no Expresso? Impossível ser apenas isto. Terá certamente feito muito pior e a obrigação da "estrutura" é explicar aos sócios e adeptos o que aconteceu para se permitirem deitar ao lixo um dos símbolos do clube sem mais nem menos.
Por que será que durante toda a época passada Quaresma foi sempre o jogador mais aplaudido e acarinhado pelos portistas?
Independentemente de todo o sucesso desportivo que certamente teremos nesta próxima época, este é para mim outro lamentável episódio que nos empurra para mais longe da nossa essência. E um erro grosseiro.
Mística? Procurem em Istambul ou Moscovo, parece que vai a caminho...