Estão encerradas as contas do Clássico. Pontos repartidos, tudo na mesma na tabela, uma jornada a menos por disputar e o Porto a já não depender apenas de si para ser campeão. Satisfeito, Nuno?
Por tudo o que fez e disse, não tenho dúvidas de que Nuno saiu feliz do Estádio da Luz. Inacreditável.
Este jogo teria sido aceitável - recomendável, até - se tivéssemos ganho ao Setúbal, como era nossa obrigação. Aí sim, justificar-se-iam as cautelas, o "mais vale segurar um ponto do que tentar ganhar três e ficar sem nenhum". Nas circunstâncias em que entramos hoje em campo, soube claramente a pouco.
Ainda no túnel de acesso ao relvado era possível descortinar a enorme tensão que os nossos jogadores sentiam. Faltou trabalho psicológico. A confirmação chegou mal o apito inicial do habilidoso Xistra se fez ouvir. Jogadores rígidos, passes a saírem curtos, presos a um receio desnecessário mas que lhes tolhia a capacidade de desenvolver o seu futebol.
O lance do penalti assinalado pelo ardiloso Xistra ilustra perfeitamente esse ligeiro descontrolo. Felipe foi imprudente, entrou mal ao lance e Jonas só teve de fazer o que faz melhor e piscar o olho ao Carlos. A perder logo aos sete minutos, terá havido quem temesse o pior. Eu, por exemplo. Mas, racionalizando agora, talvez tenha sido bom ter sofrido golo logo a abrir. Porque deixou de haver dúvidas quanto à necessidade de jogar para marcar, para manter o campeonato em aberto. De ficar à espera que o céu pudesse ou não nos cair na cabeça.
Apesar disso, pouco fizemos até ao intervalo. Entramos verdadeiramente no jogo a partir do quarto de hora, tivemos algumas aproximações à área contrária, mas nenhuma verdadeiramente capaz de se finalizar em golo. O livre de Brahimi foi o que de mais parecido conseguimos. Quem também não fez muito mais foi o adversário, cujo maior mérito terá sido o de saber agarrar a vantagem que lhe caíra do céu aos xistralhões.
Na segunda parte, inverteram-se os papéis. Entrada mais forte do Porto e golo igualmente madrugador, fruto de muita persistência e basta qualidade de Brahimi, André André e Maxi. Sobravam então uns longuíssimos quarenta minutos para jogar. Tudo nivelado, tudo para conquistar.
Poucos minutos volvidos, antecipava-se um bis do que Soares tinha feito contra o Sporting. Por azar, era Nélson Semedo quem desta vez ia na perseguição, o que intimidou o avançado e o levou a optar pela revienga, que apesar de bem sucedida, deu margem de manobra a Éderson para sair em grande estilo e matar o lance. Foi quase o nosso canto do cisne.
Daí até final, o Benfica esteve sempre por cima e mais perto de marcar. Foi San Iker que mais uma vez nos manteve vivos. As substituições não trouxeram nada de positivo, bem pelo contrário, ainda que por motivos diferentes. Jota foi absorvido pelo cerco adversário e o seu momento de glória sonegado por um dos assistentes do manhoso Xistra. André Silva entrou tenso e desconcentrado, só diminui à nossa já de si parca capacidade de pressionar alto e construir ataques. Otávio entrou tarde de mais para poder ser relevante. Elemento comum a todas as substituições: nem um milímetro adicional de risco. Zero. Nada.
No final, dei-me por contente por não ter perdido. Mesmo se empurrado pelo viscoso Xistra, o Benfica foi, pela primeira vez em muitos anos, claramente superior. Foi preciso ir buscar NES para conseguir fazer deste conjunto banal de jogadores uma equipa melhor do que a nossa. É obra!
Pior do que a exibição, só mesmo ter de assistir a alguns tolinhos a festejar como se tivessem ganho.
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Notas DPcA
Dia de jogo: 1/04/2017, 20h30, Estádio da Luz, SL Benfica - FC Porto (1-1)
Casillas (8): Uma vez mais providencial para garantir o empate. Jogador de jogos grandes = grande jogador. Uma vénia. E agradecido por os mandar baixar a bola.
Maxi (8): Queria muito elegê-lo como o homem do jogo, pelo golo e pela enorme e quase sobre humana bravura e resiliência com que defrontou a cavalaria encarnada, especialmente Rafa e Cervi. Vinha muito desgastado de dois jogos intensos pelo Uruguai, mas foi ao fundo da alma buscar as forças. Notável. Foi o melhor dos nossos e só não é o melhor em campo, porque esse vestia outra camisola.
Alex Telles (6): Sempre muito retraído (alô NES?), nunca foi a ajuda que Brahimi precisava para rebentar a defesa encarnada. Mas nem a defender esteve especialmente inspirado, tendo-lhe valido quase exclusivamente a raça com que se entregou ao jogo.
Marcano (7): Teve algumas desatenções complicadas, sobretudo em lances de bola parada, mas a exibição foi globalmente segura e bem positiva. Bem nas dobras e antecipações, nunca foi foco de destabilização, bem pelo contrário.
Felipe (5): Lance displicente, a não repetir (sobretudo porque não foi a primeira vez), que poderia ter deitado tudo a perder. Demorou um pouco a recompor-se e nunca foi verdadeiramente o melhor Felipe, traído amiúde por perigosos passes falhados e abordagens fora de tempo. Acontece.
Danilo (5): Escolheu mal o momento da época para baixar (drasticamente) de rendimento. Começou com o Setúbal e deu seguimento hoje. Mordeu o isco de Jonas demasiadas vezes, saindo da posição e deixando uma clareira aberta para infiltrações inimigas. Foi ingénuo. Ou é ainda ingénuo, não sei. Mas custou-nos muitos calafrios. A atacar, tentou virar o jogo variadas vezes, mas sempre sem criar rupturas - a excepção foi o passe que isolou Soares.
Óliver (6): Teve dificuldade em conter o meio-campo adversário (culpas repartidas com NES) e nunca foi realmente importante a atacar. Jogo esforçado mas pouco relevante, sem nada que fique na retina.
André André (7): Foi o nosso melhor jogador no primeiro tempo, pena que quase mais ninguém estivesse disponível para emparelhar com ele. Bem a marcar e a pressionar, mas melhor ainda a forçar as saídas, com garra mas também com critério. Infelizmente quebrou por volta da hora de jogo e começou a desaparecer. E que tal treinar mais o cardio para fazer noventa minutos de grande nível?

< 87' Brahimi (7): O agitador de massas do costume, sempre à procura de porfiar por todo e qualquer buraquinho, foi o principal foco de preocupação dos adversários. Chega a "enjoar" só de o ver fazer tantas curvas e contra-curvas. Tem uma capacidade técnica de eleição e até rara, mas hoje, como em muitos outros jogos, faltou dar-lhe o melhor uso possível: um último passe de morte ou um remate vitorioso. Sem isso, sabe a algo inacabado. Ainda assim, um bom jogo.
< 67' Corona (6): A "surpresa" no onze, quis ser protagonista e também ele se permitiu dar asas à sua técnica, um pouco mais longitudinal do que a do argelino, mas igualmente sem um bom final para tanta habilidade. Foi sugerido que saiu por lesão (não consegui confirmar), mas a verdade é que estava já no seu pior momento da partida e era o candidato principal a ir tomar banho mais cedo.
< 72' Soares (5): Parece ter esgotado o fogo-de-artifício com que nos maravilhou a todos à sua chegada, agora é apenas um jogador normal, que acerta e falha como os demais. Naquele lance, ficou a sensação que poderia ter tentado ir a direito até ao fim... e que bonito seria, saber que ainda se mantinha num plano extraterrestre. No restante, teve dificuldade em segurar e combinar, não dando tempo aos companheiros para subir. Foi substituído pela miúfa de NES.
> 67' Diogo Jota (5): Não acrescentou muito ao pouco que Corona vinha fazendo antes da substituição, sendo obrigado a dar mais atenção ao plano defensivo, mesmo tratando-se de Eliseu o seu adversário directo... Uma única vez, arrancou isolado rumo à glória mas um erro arbitral interrompeu-lhe o lance.
> 72' André Silva (4): Está uma sombra do que é, sem confiança nem instinto de jogo. Está tudo na cabeça, pois claro. Insisto, precisa de ir ao psicólogo. E não adianta insistir antes de limpar a cabeça. Encravou. Foi claramente inferior a Soares, que também já não tinha sido grande coisa.
> 87' Otávio (-): Tempo insuficiente para se tornar relevante.
NES (4): Se o onze parecia acertado, a estratégia claramente não o era. Ou então o golo sofrido alterou tudo, mas não me parece. Quem pode ir jogar a casa do rival sem antever como razoavelmente provável sofrer um golo? Apesar dos discursos de ambição e nhanha, apenas transmitiu falta dela. Receio, cautelas, pequenez.
No jogo estratégico, foi claramente derrotado pelo treinador adversário. Nunca conseguiu perceber como estancar as investidas dos médios e alas pelo meio, porque não lhe ocorreu fixar Danilo à frente da defesa e repartir a vigilância a Jonas pelos outros médios. Ofensivamente, deixou a equipa partida, pela falta de "ambição" de Telles, sempre preso atrás. Apostou no transporte de bola de Óliver e André e no "Brahimi pega na bola e resolve" (sem apoio).
Um treinador confiante teria aproveitado o empate para tentar ganhar o jogo. Nuno apenas se esforçou por não o perder - e mesmo assim foi por pouco que o conseguiu. Terá assim tanta desconfiança das actuais capacidades dos seus jogadores?
Quer ser campeão à custa de terceiros. Espera poder chegar aos Aliados fruto do trabalho de estranhos ao Clube. Não entendo. Como não entendo a falta de uma crítica contundente no final à arbitragem tendenciosa, preferindo antes concordar com o penalti que nos foi marcado. Mas lá está, ele é "somos Porto". E eu sou do Porto. Um mundo de diferenças, um mundo de distância.

Outros Intervenientes:
Para variar, o Benfica conseguiu ser melhor do que nós. Uma raridade extraordinária. Para isso muito contribuiu a melhor leitura do jogo de
Rui Vitória e principalmente as exibições de
Nélson Semedo e
Rafa, ambas muito bem conseguidas. No extremo oposto,
Jonas, o palhaço de serviço, cabalmente aplaudido pelo astucioso Xistra e seus comparsas.
Chegámos então à nomeação do ano,
Carlos Xistra. O tal que encomendou as faixas do
#tricolinho. Começo já por dizer que aceito a marcação do penalti, mesmo achando que foi Jonas quem se atirou para cima de Felipe. Em velocidade real e sob pressão de todo aquele antro, compreende-se.
O que é incompreensível e inaceitável é a
diferença de critérios aplicados a cada uma das equipas na marcação de
faltas e
advertências. Quem quiser rever o jogo (e for sério), que me tente explicar como é que só o Porto viu amarelos (cinco!). Como é que Pizzi, Sálvio, Jonas, Samaris e outros mais conseguiram chegar ao fim sem ver um cartãozinho que fosse. Nas faltas, as que não eram para amarelo, ainda houve maior dualidade. Incrível como não se marcavam infracções sucessivas sobre Brahimi, Corona, André André e Soares, ao passo que, no nosso meio campo, muito do que era papoila tombada era falta energicamente apitada. É assim que se encaminham jogos equilibrados. Uma
vergonhosa arbitragem, mesmo se sem erros capitais.
Ah, mas esperem,
houve um lance
potencialmente capital mal avaliado: o offside mal assinalado a Jota quando se isolava para a baliza. Um lance onde havia boas probabilidades de acabar em golo.
E houve
um efectivamente capital: o palhaço
Jonas atingiu intencionalmente o treinador adversário, gesto que só pode ser considerado
agressão, punível com expulsão no jogo e suspensão severa posterior. Tivesse sido com
Luís Godinho e estava bem arranjado o palhaço. Ou seria Nuno o visado, por intencionalmente não se ter desviado do artista de circo?
Tudo somado, foi uma arbitragem à Benfica numa exibição à Porto dos da casa. O empate é mau para as nossas aspirações, mas nada compromete. Teremos que derrotar Belenenses, Braga e Feirense, para começar, para ver no que dará o derby quando formos a Chaves.
O que me custou mesmo foi a receita de falta de ambição da equipa, sem dúvida alguma cozinhada pelo chef Espírito Santo. Não esteve à altura dos nossos pergaminhos. O preço a pagar, só mais adiante saberemos. Entretanto, só nos resta amealhar todo e qualquer ponto em disputa. Todos juntos.
Do Porto com Amor,
Lápis Azul e Branco