Do Porto com Amor: Campeões dos Nervos

sábado, 20 de janeiro de 2018

Campeões dos Nervos


Pronto, já está. Só foram precisos quatro dias para voltarmos ao primeiro lugar. Foi rápido, mas não foi fácil.

O primeiro golo de noite aconteceu ainda antes do jogo começar. Edinho, nos descontos, limpou dois pontos aos labregos de Carvalho e Saraiva (e aos demais sportinguistas também, que, na pior das hipóteses, só são culpados de terem eleito o primeiro).


Foto de Catarina Morais / Kapta +

Aquele magnífico e inesperado boost de moral certamente terá contribuído para uma entrada em campo ainda mais entusiástica e determinada, mas também algo precipitada. Mas as prendas ainda não se tinham esgotado. Depois de Edinho, foi um jovem de nome Sulley a oferecer de bandeja dourada a Marega o primeiro golo da noite - que, por incompetências várias, acabaria por ser também o único.

Chegou bem cedinho a vantagem, o que faria prever um jogo tranquilo e afirmativo. Depois de passar a semana a ouvir latidos e grunhidos de toda a espécie a propósito do jogo que não pudemos concluir por responsabilidade de terceiros (ou segundos, se se concluir que foi mesmo do Estoril), era crucial não deixar fugir a oportunidade de voltar a olhar de cima para todos os demais.

No entanto, o que se passou foi bem diferente. 

Oportunidades para marcar uma mão-cheia de golos não nos faltaram, verdade seja dita, mas fosse pela inépcia dos nossos na hora H, fosse pela cegueira selectiva das toupeiras do apito, fosse pela obstinada oposição do melhor em campo - Cláudio Ramos, o valoroso guarda-redes do Tondela -, não conseguimos nunca ampliar a vantagem e enquanto o apito final não soou, pairou sempre o espectro da "desgraça" sobre as nossas cabeças.

E não foi por o adversário ter estado muito perto de marcar, creio que nem uma oportunidade flagrante teve, mas porque o Porto nunca conseguiu ter o controlo do jogo e muito menos o seu domínio. O período que se seguiu ao golo foi quase surreal, tal a incapacidade para ter e segurar a bola. Foram mais de 15 minutos literalmente aos papéis, mesmo criando um par de oportunidades para fazer o segundo. 

Como se não bastasse, Felipe, Marcano e puseram-se com parvoíces em zona proibida, aumentando ainda mais a desconfiança que inexplicavelmente se gerou entre os jogadores por essa altura. Foi só depois da meia-hora que conseguimos acalmar e recuperar um pouco do controlo do jogo.

O intervalo chegou com duas certezas quase paradoxais: que tínhamos feito outro primeiro tempo muito fraco e que deveríamos estar a vencer por dois ou três, se Corona fosse um tipo ligeiramente mais sortudo, tanto a rematar na "cara" do golo como a conquistar o provável penálti sofrido que, naturalmente, as toupeiras voltaram a nem sequer "telever".

O segundo tempo resume-se em poucas linhas. 

Até aos 85 minutos, houve o Porto a tentar ampliar, o Tondela a tentar não sofrer mais e a arbitragem a gozar o prato. A partir daí, passou o Tondela a tentar marcar e o Porto a "rezar" para não sofrer. E a arbitragem? Imagino que estivessem a rezar em sentido oposto...

Mais quatro ou cinco golos desperdiçados e/ou evitados por Cláudio Ramos e o(s) penálti(s) da praxe a ficarem fechadinhos a sete chaves na Cidade do Futebol. É isto o campeonato português de 2017/18: penáltis, só a favor dos outros, mesmo se inexistentes.

O alívio colectivo que chegou com o último apito deve-se ter ouvido em Setúbal...

No final do dia, alargamos a vantagem sobre o segundo classificado ou, na pior das hipóteses, reconquistamos o primeiro lugar. No entanto, a equipa voltou a dar mostras de estar a atravessar dificuldades, eventualmente por debilidade física, que facilmente se alarga ao domínio mental. Algo a ser analisado e combatido com muito atenção pela equipa técnica, porque não se admitem mais tropeções sem consequências gravosas. Sofrimento à parte, não se podia pedir melhor. Aproveitemos, pois, que hoje o dia é de festa.





Notas DPcA 


Dia de jogo: 19/01/2018, 21h00, Estádio do Dragão, FC Porto - CD Tondela (1-0)


José Sá (5): Pois é, sente-se que está a entrar numa espiral negativa de insegurança própria e desconfiança alheia. Esteve quase sempre bem com as mãos, mas também quase sempre mal com os pés, mesmo sem pressão para errar. Tem a palavra SC.

Ricardo (6): Jogo muito completo, sem nunca desanimar mesmo perante a dificuldade em meter com "regularidade" um bom último passe.

Alex Telles (6): Menos "Alex" que o habitual, mas ainda assim um dos melhores da equipa. Ontem não houve assistência, embora tenha feito por isso.

Marcano (6): Alguns tremeliques iniciais, prontamente corrigidos rumo a uma exibição segura, com destaque para aquele corte providencial após a herrerice da noite.

Felipe (6): Melhor que nas últimas partidas, mas ainda assim alternando momentos melhores e piores durante o jogo. Pelo menos, pareceu um pouco mais calmo...

Danilo (7): Dos mais importantes nos períodos difíceis do jogo, não só cumprindo bem o seu papel como também disfarçando algumas herrerices aqui e ali.

Herrera (5): Eu tinha avisado. O Herrera desta época, que pegou de estaca e relegou Óliver para o esquecimento (not), não é o Herrera a que estava habituado. Fiquei obviamente muito feliz por o "conhecer", mas o outro nunca chegou a sair dos meus pesadelos. Ontem, vi mais do outro do que do renovado. E voltei a ter pesadelos herrerosos, especialmente quando decidiu "vingar" Sulley e oferecer o golo ao Tondela.

< 78' Corona (6): Teve tudo para sair do jogo em ombros: oportunidades de golo (uma clarinha) e penálti sobre ele. Se tudo tivesse corrido bem, tinha sido uma noite em cheio. Assim, ficou só o esforço e a certeza de que pode (e deve) muito mais.

< 88' Brahimi (5): Se não entrou em campo "lesionado", pelo menos parecia acreditar (ou temer) que assim fosse. Muito retraído, receoso de meter o pé ou sequer esticar a perna, foi quase uma sombra durante o primeiro tempo. Depois soltou-se um pouco, talvez mais crente na sua recuperação, mas nunca em pleno. Sentia-se que não estava a 100% no jogo e, pelo que produziu, deveria ter saído bem mais cedo. Acontece que a sua presença em campo acaba por ser incomodativa mesmo sem mexer um dedo. Assusta o adversário, obriga-o a pensar duas vezes antes de se aventurar em força em terrenos mais avançados. Isso, e o facto de, num lance, conseguir resolver um jogo, terão forçado a sua permanência.



Melhor em Campo Marega (7): Já escrevi que o "verdadeiro" melhor em campo foi o GR do Tondela, mas Marega, ao marcar o golo que definiu o resultado, tem de ser considerado o jogador mais influente da partida e, portanto, é justo "delegar-lhe" a distinção. Até porque não se limitou ao golo, criando outras oportunidades para a equipa ampliar.

< 78' Aboubakar (6): Não foi noite de Aboubakar, mas todo o trabalho colectivo que se lhe exigia foi cumprido. Momento mais alto, a cabeçada ao poste.

> 78' Hernáni (6): Quis voltar a mostrar serviço a justificar a confiança em si depositada, mas foi preciso esperar quase até final para lhe ver um grande remate que só uma defesa ainda "maior" impediu que festejasse efusivamente (e nós com ele). O melhor que se pode dizer é que a equipa não piorou com a sua entrada, o que, num resultado de 1-0, não é despiciendo, de todo.

> 78' Sérgio Oliveira (5): Ora cá está ele de regresso, sem surpresa à porta de mais um clássico. Entrou para ganhar ritmo, pois claro, que quarta há trabalho a fazer. Não entrou mal... nem bem, encaixou-se num miolo em fase de muito combate e pouco discernimento e foi à luta, mesmo sabendo-se que não são essas as suas melhores "armas".

> 88' Soares (-): Nada a relevar.

Sérgio Conceição (6): Ui, ui, Sérgio... parabéns pela reconquista da liderança e blá blá blá, mas a verdade é que a coisa esteve por um fio. Mesmo que fosse um fio invisível, porque o perigo que o adversário criou nunca foi muito real, mas todos sabíamos que ele lá estava, a segurar a poderosa espada sobre as nossas cabeças. É evidente que a equipa atravessa dificuldades - olha, calha bem ser em fase de mercado aberto, não é, senhores da SAD? - e cabe-lhe a ele encontrar soluções. Se a primeira parte com o Estoril foi a pior da época, esta com o Tondela não lhe ficou muito à frente. O maior elogio que ainda assim se pode fazer é que, mesmo sem conseguir controlar o jogo, fomos criando muitas e boas ocasiões para marcar. Algumas, vá. E em "condições normais" teríamos marcado mais. Mas, caro Sérgio, já sabemos que este não é um campeonato normal...


Outros Intervenientes:


Sim senhor, caro Pepa, assim dá gosto ver uma equipa jogar. Não estou a ironizar, gostei de verdade da atitude e do jogo do Tondela, só lhe faltando conseguir criar oportunidades flagrantes de golo. Sim senhor. A grande dúvida é só uma: em que buraco se esconde este Tondela noutros jogos? Um bom amigo, self-made-expert da bola, "mensajou-me" durante o jogo a chamar a atenção para o central venezuelano Osório, e a partir daí reparei que de facto tem "pinta" de jogador, a defender e a sair com bola. No entanto, tanto ele como o possante Hélder Tavares ficaram ontem na penumbra, quando comparados com a radiante exibição de Cláudio Ramos (mais uma).

Oh ooohh, I'm an alien, I'm a legal alien in futebol... (Foto de Catarina Morais / Kapta +)

Escrever sobre Luís Godinho é um exercício penoso, porque é claramente alguém que está no sítio errado a fazer a coisa errada. O homem deve ser bom em muita coisa, mas árbitro de futebol não é, mesmo que lhe emprestem o equipamento completo. Muitas decisões técnicas mal avaliadas, critério disciplinar pouco claro e, mais do que tudo, ausência total de bom-senso, de que é exemplo maior a forma como apita para intervalo e interrompe um contra-ataque do Tondela. Repito, árbitro não é. 

O Porto foi claramente prejudicado nos lances capitais (discutem-se, "apenas", 3 penáltis) mas, não por milagre, o golo foi bem invalidado pelo VAR Artur Soares Dias que, por felicidade, tinha acabado de acordar nesse preciso instante. Antes, fartou-se de ressonar enquanto se babava, de tão confortável que estava na sua poltrona verde e vermelha da Cidade do Futebol. 

Aqui fica a minha visão sobre os três lances:

29' - Corona parece ser agarrado por Joãozinho, mas não consigo dizer com certeza que o foi de forma a fazê-lo cair, pelo que admito que o VAR também não tivesse a certeza;

53' - É evidente que Ricardo Costa desvia um remate com o braço que, não estando junto ao corpo, também não estava ostensivamente aberto. Foi um meio termo, cotovelo aberto e mão junto ao corpo, que o árbitro considerou normal. Por mim, se o critério fosse sempre esse, aceitava que não se marcasse; o problema é que não é.

60' - Aqui não tenho qualquer dúvida de que Osório joga intencionalmente a bola com a mão/braço, penálti claro que ficou por marcar. Se ao toupeira Godinho se admite a ínfima possibilidade de não ter visto, do soneca Soares Dias não se aceita nenhuma desculpa - na repetição, é clara a infracção.


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Segue-se a meia-final da Taça da Liga contra o Sporting & Labregos, Associados. Em teoria, temos a upper hand mental, após os resultados de ontem. No entanto (e até por isso), o adversário vai querer provar (a si próprio) que consegue dar a volta e superiorizar-se a nós. Teremos de encarar o jogo como se fosse a própria final, pela Taça da Liga e por tudo o que se lhe seguirá até final da temporada.


Do Porto com Amor,

Lápis Azul e Branco




8 comentários:

  1. Caro lápis nem eu diria melhor. Parabéns.

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  2. Globalmente de acordo, quer nos elogios quer no resto.
    Não consigo é afastar um receio que tenho quase desde o inicio... SC é fantástico como motivador, lutador, corajoso, Portista... Só que Treinador Emotivo, tem também parte menos boa... Há na equipe uma confusão da linha média, que é preciso resolver rapidamente, sob pena de um dia correr mal, muito mal! E nesse dia, a nossa defesa não vai segurar... Vamos acompanhar próximas semanas!

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    1. Era a minha maior reserva em relação a SC, juntamente com a parca experiência. Esse "receio" perdurará, pelo que o melhor é habituarmo-nos a viver com ele.

      A questão do meio é "simples": os dois médios têm de estar sempre em grande forma, caso contrário o sistema colapsa por ausência de backup. Tenha a certeza que SC sabe-o melhor do que nós, pelo que sim, aguardemos...

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  3. Caro Lápis, bom dia.
    Gostei do seu post não concordo é com as classificações. Apesar de apontar Marega como o melhor em campo, na minha opinião, e mesmo considerando o GR do Tondela, foi o Danilo quem evitou males maiores.
    Também uma pontuação média de 5.35 achei muito elevada para o que foi a prestação do FCP neste jogo. Irá, decerto figurar como um dos piores da temporada. Isto é mau e começa a preocupar-me porque dá ânimo aos sacanas-sem-lei de carnide e ttransmite ao resto da pequenada que tirar pontos ao FCP pode ser canja . Já tenho escrito e dito que o jogo da mala está cada vez mais a ser praticado (onde estava este Tondela ou aquele Moreirense ou, ainda o Aves???). Sabemos por quem. A seu tempo teremos as provas que identificarão os praticantes que, com toda a certeza, não são os apostadores asiáticos.
    Com respeito às aquisições, parece-me que o FCP está a actuar bem. São dois jogadores que entram de caras nos 14 ou 15 utilizados com benefício para o plantel. SC já conhece bem o Waris e, um familiar meu não Portista que o viu jogar frequentemente em França, assegurou-me que encaixa completamente no(s) esquema(s) de SC. Agora só falta um bom central.
    1 abç e viva o FCPorto, contra tudo e contra todos.
    Luís Oliveira
    PS: O porta 19, que passou se??

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    1. Caro Luís

      Eu também elevei Danilo ao grupo dos melhores, simplesmente pareceu-me que ao marcar o golo único deveria destacar Marega. Percebo o ponto, porque também me apercebi do quão decisivo foi o médio para segurar a inviolabilidade da nossa baliza. Em todo o caso, isto é como as pilinhas, cada um tem a sua :-)

      Quanto à média, o curioso é que me pareceu que não foram as exibições individuais que mais comprometeram (excepto uma, e decisiva, a de Herrera), mas sim o jogo colectivo. Lá está, falhando um dos dois únicos "cilindros", o motor gripa.

      Temos de seguir firmes a ganhar, jogando o que for possível e sobretudo necessário...

      Não me pronuncio sobre as chegadas porque não os conheço bem. Vamos ver o que sai. Mas digo (direi, no post seguinte) que há outras lacunas a preencher, com o central à cabeça, obviamente.

      Abraço Portista

      PS - Não sei a que se refere com o Porta 19...

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